
O serviço de xerox praticamente não tem mais procura por parte de alunos no entorno e nas próprias dependências das mais conhecidas universidades de Porto Alegre. A pandemia de covid-19, a possibilidade de estudar de forma remota e a expansão dos processos digitais contribuíram para esse cenário (leia mais abaixo).
Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), nos últimos três anos, dois espaços que ofereciam cópias impressas foram fechados. Um ficava na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) e o outro no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).
A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) mantém apenas dois locais em que alunos e professores podem encontrar máquinas fotocopiadoras para tirar xerox. Ficam situados na Biblioteca Central Irmão José Otão e no prédio 5.
Mudanças de comportamento da sociedade

Conforme o professor Alejandro Germán Frank, do curso de Engenharia de Produção da UFRGS, dois fatores relacionados à mudança de comportamento da sociedade podem explicar o atual cenário:
— A sociedade mudou a forma de consumo, e a tecnologia alterou a maneira de demanda da sociedade — ilustra o docente, citando que a pandemia favoreceu e até acelerou o processo da transformação digital.
Na avaliação do educador, que também atua como diretor do Núcleo de Engenharia Organizacional da UFRGS, hoje em dia, as pessoas consomem mais materiais digitais, inclusive com bibliotecas universitárias disponibilizando acervos digitalizados para os estudantes.
— Os professores têm utilizado muito mais material digital. Não deixamos mais apostila no xerox, como era antigamente, para os alunos tirarem cópia. Normalmente, disponibilizamos materiais digitais ou livros digitalizados, e os próprios estudantes buscam livros digitais — exemplifica sobre os processos.
O professor Frank menciona ainda que os alunos baixam da internet livros e textos no formato PDF, o que representa uma facilidade de acesso a cópias digitais. E cita como a nova geração de estudantes lida atualmente com a aprendizagem:
Os alunos estudam por podcasts, assistem a vídeos e palestras no YouTube. Acessam os cursos das melhores universidades do mundo para estudar material complementar que essas instituições oferecem na internet.
ALEJANDRO GERMÁN FRANK
Professor da UFRGS
— A dinâmica da forma como o aluno estuda também mudou bastante. E isso impacta muito no mercado que era baseado no papel — avalia.
Legislação de direitos autorais
A diminuição do serviço de xerox dentro das universidades pode ter relação com a legislação dos direitos autorais. A reprodução de cópias pode ferir os direitos de autores de obras.
A historiadora Janine Dorneles Pereira cita, como alternativa, o exemplo de instituições que adotam materiais de ensino, aprendizagem e investigação, em qualquer suporte ou mídia, digital ou não, que estão sob domínio público ou são disponibilizados com licença aberta. Essa licença permite acesso, uso, adaptação e redistribuição gratuita por terceiros, sem restrição ou com poucas restrições.
— A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) tem uma política com relação ao REA (sigla de Recursos Educacionais Abertos), que é desenvolver os trabalhos e colocar os direitos autoriais — diz.
Sobre os estabelecimentos de fotocópias que têm deixado de oferecer o serviço fora das instituições, a historiadora externaliza sua opinião:
— Os processos digitais saem mais barato. Por exemplo, quem tem um drive repassa para os colegas. Não tem necessidade de impressão, de xerox. O digital cresceu e os livros são digitalizados.

Pandemia contribuiu para fechamento
Situada na Avenida Osvaldo Aranha quase na esquina com a Rua Sarmento Leite, a MPM Cópia foi uma vítima, de certa maneira, dos tempos atuais em que o serviço de xerox não tem demanda — o estabelecimento precisou ser fechado em 2022.
O antigo proprietário Marcelo Pereira Madeira, 55 anos, abriu o ponto em 1996. Na época, quando os processos analógicos predominavam, o local recebia centenas de estudantes da UFRGS. Há cinco anos, com o aparecimento da covid, o cenário mudou radicalmente.
— Na pandemia, eu tive de fechar. A UFRGS foi a primeira instituição a parar em função do distanciamento social e a última a voltar. Tenho vários amigos meus que tinham copiadoras em volta da UFRGS que fecharam pela pandemia e pela falta de estudantes — contextualiza Madeira.
Fechei, basicamente, por falta de estudantes que não tiravam mais xerox. Hoje em dia, eles não estão mais usando xerox, é tudo digital e celular. E tem a plataforma Moodle, onde os professores disponibilizam os conteúdos.
MARCELO PEREIRA MADEIRA
Antigo proprietário de estabelecimento com xerox
Segundo ele, que chegou a possuir cerca de 300 pastas com conteúdos de disciplinas diferentes para serem xerocados, os alunos em busca de cópias de algum material impresso foram diminuindo cada vez mais. E a tecnologia tem a ver com essa queda na procura.
— Em vez de ler no papel, os alunos estão lendo no celular.
Expansão de serviços
Localizado no prédio ao lado, a Só Cópias mantém, há 40 anos, as portas abertas para os clientes. Segundo um dos proprietários, Pedro Gracioli, 24 anos, na última década, houve uma queda na procura por cópias de materiais em papel.
— Antigamente, isso representava quase que integralmente o faturamento da empresa. Com o tempo, fomos nos vendo obrigados a expandir nossos serviços, buscando evoluir junto com a tecnologia e o mercado — explica Gracioli.
Como na loja vizinha, a covid foi citada por este proprietário como outro fator preponderante para a mudança de rumo.
A pandemia também foi um agente bem importante para a diminuição de xerox físico, uma vez que ninguém saía de casa, e as faculdades e cursos foram obrigados a migrar todo o material para o online.
PEDRO GRACIOLI
Um dos proprietários de um espaço com xerox
Dessa maneira, a empresa precisou se adaptar às mudanças. E a ideia foi oferecer outras opções aos clientes:
— Ainda temos um certo fluxo com cópias, mas nem se compara a antigamente. Atualmente, trabalhamos com diversos outros tipos de produto, como brindes e comunicação visual em geral.
Localizada no Centro Histórico de Porto Alegre, a Gráfica CopyStar também deixou de oferecer o serviço de xerox em 2020. A pandemia foi apontada pelo proprietário como principal razão. O foco atual está concentrado no mercado empresarial.
— Não trabalhamos com xerox há muito tempo. A pandemia foi a grande virada de chave — afirma Anderson Gracioli, 46.
O estabelecimento não atende mais clientes no balcão. Outro fator identificado para a diminuição da procura por esse tipo de serviço é compartilhado por Gracioli, que chegou a possuir, no passado, 19 lojas com xerox dentro da Universidade UniRitter.
— As faculdades viraram ilhas, não têm mais alunos presenciais — conclui.


