
Primeira marcha, segunda. Para. Primeira marcha, segunda. Para. Esta tem sido a rotina diária de motoristas de carro, de ônibus e motociclistas na Avenida Ipiranga. Para além do fluxo intenso, sobretudo nos finais de tarde, a via, que cruza Porto Alegre da Zona Leste até a área central, recebe obras em pontos nevrálgicos, como no cruzamento com a São Manoel e Silva Só que provocam, por exemplo, bloqueio de faixas, intensificando as filas e a tranqueira habitual.
Na última sexta-feira (4), a reportagem de Zero Hora percorreu, no sentido Centro-bairro, toda a extensão da Ipiranga com o objetivo de identificar os principais gargalos no trânsito da avenida. De forma geral, quatro trechos (veja no mapa abaixo) se destacaram entre a região do bairro Praia de Belas, na área central, até a esquina com a Avenida Antônio de Carvalho, na Zona Leste.
O deslocamento feito pela reportagem durou 41 minutos, começando às 18h03min e terminando às 18h44min. A avenida tem pouco mais de nove quilômetros de extensão e 36 sinaleiras. Num trecho de menos de dois quilômetros - 800 metros do Palácio da Polícia até a Rua São Manoel e depois 1 quilômetro a partir do cruzamento com a Rua Nelsom Zang foram necessários 32 minutos.
Obras que causam bloqueios
Ainda saindo do Centro, o motorista que dirige rumo aos bairros se depara com um primeiro congestionamento após o cruzamento das avenidas João Pessoa e Azenha. Neste ponto, o trânsito volta a fluir normalmente depois da Rua São Manoel. O trecho de pouco mais de 800 metros, que poderia ser feito em dois minutos, foi feito em 10 pela reportagem.
Nessa região, há um primeiro bloqueio encontrado junto da ponte que dava acesso à Rua Ramiro Barcelos. Com obras paralisadas nessa área, há restrição da faixa da esquerda. A estimativa da Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura (Smoi) é de que o serviço termine em outubro. Atualmente, todo o trabalho está paralisado para reavaliação e não existe uma previsão de quando serão retomados.

Até lá, a lentidão deve persistir não só pelo bloqueio parcial na avenida, mas também pelo fato não haver a possibilidade de parte do fluxo escoar rumo à Ramiro. O transtorno interfere na rotina de muitos motoristas que tem a atividade também como profissão.
— A gente acaba tendo um gasto maior com combustível nesse “arranca e para” aqui. Às vezes, não tem muito como fugir desse trajeto, porque é onde o passageiro quer ir. Sempre acabo perdendo 10 ou 15 minutos a mais — relata Júnior, que trabalha com transporte por aplicativo.
Nesse horário (fim de tarde) é pior, mas tranca o dia inteiro
JÚNIOR
MOTORISTA DE APLICATIVO

Logo em seguida, a fila de veículos encontra mais um obstáculo: novo bloqueio parcial nas faixas da esquerda devido à obra do talude do Arroio Dilúvio, próximo da Rua São Manoel. Por ali, o serviço funciona sob responsabilidade do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae). Com cerca de 80% concluída, a expectativa é que a obra só esteja pronta, e por consequência as faixas liberadas, a partir de setembro.
— Eu procuro fazer uma volta maior, mas hoje me esqueci que estava essa tranqueira e não dei a volta — reclama o motorista Edson Oliveira.
Agora é aturar isso aí, não adianta. Aumenta o consumo do combustível com esse “anda e para
EDSON OLIVEIRA
MOTORISTA
"Tranqueira" perto do Palácio da Polícia
A popular “tranqueira” nessa região também se junta ao trajeto junto ao Palácio da Polícia Civil, onde há necessidade de separação da faixa da direita para uso de viaturas oficiais. Com isso, o motorista tem menos opções para trafegar. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) tem pedido aos motoristas que evitem esses trechos ou programem rotas alternativas.
— A recomendação é evitar essa região no horário de pico e usar vias paralelas, como Protásio Alves ou Bento Gonçalves para ir em direção à Zona Leste. É evitar principalmente a partir da Avenida da Azenha — explica o diretor de operações da EPTC, Carlos Pires.
Cruzamento com a Terceira Perimetral
Nesse ponto, são registrados congestionamentos ocasionais devido à restrição da faixa da esquerda para conversão para a Avenida Salvador França, enquanto a da direita fica exclusiva para ônibus. Na sexta-feira, a reportagem se deparou com uma fluidez até mais razoável do que o de costume.
— Ali, teria que ser feita uma chamada “obra de arte”, que seria uma via passando por cima e a outra embaixo, mas nesse momento não tem nenhuma previsão de obra — aponta Carlos Pires.
22 minutos na Zona Leste
O último ponto do sentido centro-bairro que apresenta lentidão está situado na parte final da Ipiranga. A reportagem enfrentou 22 minutos de congestionamento a partir da esquina com a Rua Nelsom Zang. Em um horário de movimento ameno, o deslocamento poderia ser feito em menos de três minutos. Nos finais de tarde, todo o movimento da Ipiranga desemboca em uma confluência com outras duas avenidas, a Antônio de Carvalho e a Bento Gonçalves. O resultado é um congestionamento diário de pouco mais de um quilômetro.
Projetos
Novos projetos estão no horizonte da prefeitura para amenizar a situação. São duas obras possíveis, sendo uma delas mais próxima de ocorrer. A ideia é que seja construída uma nova ponte para que os motoristas que desejam seguir rumo à Zona Norte possam acessar a avenida Antônio de Carvalho por meio da Rua Atílio Bilíbio. Atualmente, é preciso ir até o retorno junto da Bento Gonçalves para fazer esse trajeto.
— Tem algumas interferências ali que não são de agora, mas de muitos anos. Já está em execução um projeto dessa nova passagem ligando direto para a Antônio de Carvalho sem precisar chegar lá no final e fazer a rota ali no terminal.
Outra possibilidade é um antigo projeto de construção de ligação entre a Bento e a Ipiranga passando pelos fundos do Terminal Antônio de Carvalho. Uma licitação chegou a ser aberta em 2023, mas foi suspensa para correções. Até o fechamento desta reportagem, a prefeitura não havia informado como está o andamento atual.
Mais obras à vista
Novas intervenções em pontes ainda estão previstas para ocorrer ao longo deste ano na avenida. Segundo a Smoi, as próximas estruturas que vão receber obras são as das travessias das ruas Barão do Amazonas e Euclides da Cunha.
Segundo a EPTC, não estão previstos bloqueios para esses serviços, mas o fluxo pode ser represado nela. Além disso, as sinaleiras desses cruzamentos serão alteradas, diminuindo o período de sinal verde na avenida para que os motoristas que vêm das ruas possam ter mais tempo para se deslocar.
A ordem de início dos reparos nas duas pontes já foi assinada em junho. Nos próximos dias, deve ser montado o canteiro de obras em ambas.
Avaliação
O professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), especialista em mobilidade urbana, Carlos Félix acredita que problemas como os que foram apontados pela reportagem são crônicos e resultado de uma série de fatores, e sugere possíveis soluções:
— Porto Alegre, como muitas capitais brasileiras e cidades de grande porte no mundo, tem uma infraestrutura viária que não cresceu na mesma proporção da frota de veículos em circulação. Com isso, a capacidade viária não atende ao tráfego nestes horários. A adoção de tecnologias inteligentes de gestão do tráfego, como semáforos adaptativos e sistemas integrados de informação em tempo real, pode melhorar o fluxo. Outras ações como o estímulo ao caminhar e pedalar, com infraestrutura adequada, têm potencial transformador.
Enquanto isso, o diretor da EPTC recomenda princípios básicos para os condutores.
— Planejamento, paciência e principalmente segurança. Ou seja, não adianta o motorista querer ganhar dois, três minutos num trajeto desses que pode acabar causando um acidente. Então, que ele saia um pouquinho antes ou mais tarde para deixar o movimento do Centro passar e pegar depois uma via mais liberada — conclui.


