
Uma nota técnica recém-elaborada pelo Programa de Gestão Ambiental Portuária do Porto de Porto Alegre e pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRFGS) conclui não haver indícios de que a cheia de 2024 tenha provocado um assoreamento generalizado no Guaíba, em Porto Alegre, ou no Delta do Jacuí.
O estudo, divulgado quinta-feira (3), comparou batimetrias (medições de profundidade) e analisou a vazão da água durante o período chuvoso do final de junho. A análise revela que muitos trechos do Guaíba, na verdade, sofreram erosão devido à passagem da água em alta velocidade durante a inundação do ano passado. Houve acúmulo de sedimentos em outros pontos, mas que não comprometeram a capacidade do leito de escoar o excesso de chuva, pelo que foi observado nas últimas semanas.
As conclusões confirmam avaliações de especialistas ouvidos por Zero Hora em reportagem publicada na quarta-feira.
O trabalho comparou levantamentos batimétricos, que mapeiam o fundo dos corpos d'água, anteriores e posteriores à grande enchente de 2024 em três seções nas proximidades da confluência entre o Guaíba e o Jacuí. A comparação mostra que houve regiões significativas em que a forte correnteza escavou o leito, removendo sedimentos, e alguns outros em que houve algum depósito — ou seja, não ocorreu um "entupimento" da calha.
— Em alguns pontos, a força da água erodiu o leito do Guaíba. É como se a própria cheia (de 2024) tivesse feito uma dragagem, ao contrário do que algumas pessoas falam, de que há um assoreamento generalizado.
O que vimos foi uma erosão em que o material foi removido pela força da água, que chegou a uma velocidade de quatro metros por segundo. É uma velocidade que tem muita força para destruir coisas, e o esperado é que provoque essa erosão.
FERNANDO FAN
Hidrólogo do IPH
A imagem abaixo compara a batimetria anterior à enchente de 2024 (linha azul) com outra posterior (linha vermelha). Nos pontos em que a linha vermelha fica abaixo da azul, houve erosão. No caso contrário, houve acréscimo de material no leito.

Entidades como a Associação de Moradores do Delta do Jacuí vêm cobrando que autoridades promovam ações de desassoreamento ao longo do Jacuí e do Guaíba, entre outros rios de grande porte, sob a alegação de que a enchente de maio do ano passado teria promovido um entupimento generalizado dos leitos.
O governo estadual contratou estudos de batimetria para verificar se é necessário dragar grandes mananciais — arroios e canais de navegação já vêm sendo escavados. O levantamento deve ficar pronto em seis meses.
Segundo Fan, parte da areia movida foi depositada em partes mais rasas do Guaíba, como junto das ilhas. Mas, na parte mais funda, por onde corre o maior fluxo de água, o efeito foi de escavação. Houve pontos, conforme a nota técnica, em que a remoção de sedimentos foi tão intensa que deixou exposto o fundo rochoso.
O estudo conclui, ainda, que essa transferência de areia de alguns pontos a outros não comprometeu a capacidade de escoamento do eixo formado pelo Jacuí e pelo Guaíba. Ao analisar a corrente formada pela chuva ocorrida entre 13 a 26 de junho sobre o Estado, os técnicos observaram que o manancial se comportou como o previsto — sem indicação de que um eventual assoreamento tenha reduzido a vazão.
No dia 25 de junho, a vazão próximo à Usina do Gasômetro chegou a 12,9 mil metros cúbicos por segundo (o equivalente a 12,9 milhões de litros passando a cada segundo).
Esse fluxo é considerado compatível com o volume de precipitação acumulado nos dias anteriores, que somou uma média de 252 milímetros ao longo de 13 dias.
A conclusão do trabalho é de que, "com base nas observações e nas previsões, não foi detectada alteração significativa na resposta do Guaíba às chuvas nos últimos anos. Até o momento, não há evidências de que um assoreamento generalizado no Guaíba ou em rios como o Jacuí e o Taquari tenha provocado elevação adicional nos níveis de cheia".
Outro estudo aponta pequeno efeito sobre futuras cheias no Taquari
Outra análise, feita pelo IPH em parceria com Serviço Geológico do Brasil (SGB) e Universidade do Vale do Taquari (Univates), divulgada nesta sexta-feira (4), aponta que a enchente do ano passado também provocou pontos de erosão e outros de acúmulo de sedimentos ao longo do Rio Taquari no trecho entre Lajeado e Bom Retiro do Sul.
Houve, porém, uma tendência maior de acúmulo de sedimentos do que de escavação: na média, houve uma elevação de cerca de 17 centímetros no leito do rio. O impacto dessa mudança seria "relativamente pequeno", conforme os autores, em caso de uma nova cheia de grande magnitude na região: a cota máxima do rio iria variar de um centímetro a 14 centímetros a mais conforme o local — a inundação seria 10 centímetros maior em Lajeado e 14 centímetros em Estrela, por exemplo. A cota de inundação em Lajeado é de 19 metros.
A tendência maior à deposição de sedimentos do que à erosão, segundo o estudo, "é compatível com a localização do trecho a montante (rio acima) de uma barragem". O trabalho afirma ainda, que a cheia de 2024 não foi agravada por um eventual processo anterior de assoreamento, e sustenta que uma eventual ação de desassoreamento seja precedida por uma análise cuidadosa.
O texto diz: "Recomenda-se avaliar, através de modelagem hidrodinâmica, os locais e os volumes de dragagem necessários para eliminar o efeito de intensificação da cheia resultantes da modificação do leito que ocorreu 23 durante a cheia de 2024, caso desejar-se que estes aumentos de 1 cm a 14 cm nos níveis sejam compensados através deste tipo de medida estrutural".



