
A subida do nível do Guaíba que atingiu a cota de inundação nesta quarta-feira (25), no Cais Mauá, e os alagamentos pontuais em trechos da Capital pelo represamento da água já assustam moradores de Porto Alegre com medo de uma nova enchente.
No bairro Praia de Belas, o acúmulo da água já ocupa parte das calçadas. Na esquina da Rua Dra. Rita Lobato com a Avenida Borges de Medeiros, o transbordamento alagou o térreo de um dos prédios ainda na sexta-feira (20). A cada hora, o volume sobe mais. O condomínio contratou um serviço de bombeamento para retirar o excesso.
Moradores de apartamentos rentes à altura da rua deixaram as unidades na terça-feira (24) com receio da elevação da água. Residente há 35 anos no local e síndico do prédio, Sérgio Luis da Silva, 57 anos, diz já estar se preparando para o pior:
— Na sexta-feira, começou a encher e a cada hora só aumenta. Estamos vivendo numa eterna insegurança. Se subir demais, vou para a casa de familiares, como fiz no ano passado.
Não digo que será igual, mas já estou em pânico
ANA PAULA CAXEIRO, 57 ANOS
MORADORA DE APARTAMENTO TÉRREO NO BAIRRO PRAIA DE BELAS
— Desde quarta passada o meu filho sai toda madrugada para ver o rio. A gente não vive. Ano passado perdi tudo. Tá todo mundo em surto — diz Ana Paula.
Enquanto a reportagem esteve no local, vizinhos se avolumavam na calçada para ver de perto a situação dos prédios próximos. Muitos deles relataram que estão recém repondo os móveis que foram perdidos no ano passado.
Segundo o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), o acúmulo de água no trecho se dá pela elevação do nível do Arroio Dilúvio. Em nota, o departamento explicou que, como não há sistema de bombeamento nesta área da cidade, a drenagem das vias ocorre por gravidade. Neste caso, em razão da cheia, há represamento nas tubulações.
A solução do problema, segundo o Dmae, passa pelo redirecionamento da rede para uma das casas de bombas mais próximas. O projeto da obra já foi contratado e está em fase de elaboração.
No Quarto Distrito, na Zona Norte, o problema se repete. Na esquina das ruas Voluntários da Pátria e Almirante Tamandaré, a água já avançava no entorno de um posto de gasolina.
Telefonista em um comércio na região, Janaína Goulart, 41 anos, pegava um sol na rua enquanto observava a água subindo, contrastando com o dia bonito. Apesar da cena, disse que o acúmulo na esquina da Avenida Polônia com a Voluntários é frequente. Não fossem os sacos de areia colocados pela prefeitura tampando bueiros, diz, a situação estaria pior. A loja onde Janaína trabalha ficou fechada de maio a julho no ano passado e o medo de novos alagamentos inclui o seu serviço:

— Com previsão de mais chuva no fim de semana, a gente fica mais apreensiva. Tomara que não dê tudo de novo. A gente zela pelo nosso emprego.
Cartão postal de Porto Alegre, o Mercado Público da Capital alagado foi uma das cenas mais emblemáticas da enchente de 2024. O temor entre os permissionários é de que o pesadelo se repita.
Brenda Lamb, 23 anos, funcionária na Flora Hana Noka, lembra que no passado tudo foi perdido na loja.
Gian Ferreira, 29 anos, gerente da Banca 43, uma das mais tradicionais do mercado, diz que a equipe já prepara medidas preventivas. Cerca de 25% do faturamento de 2024 foi perdido no ano passado. A loja permaneceu totalmente fechada de maio a junho.
— Estamos nos mantendo sob aviso e tomando precauções, fazendo o mínimo de pedidos possíveis para não correr o risco de perder mercadoria. Esperamos que não tome a proporção do ano passado, mas o medo fica para sempre. Já deixamos o térreo menos ocupado e subimos equipamentos para o mezanino. Quanto mais medidas preventivas, melhor — diz Ferreira.



