O nível do Guaíba alcançou 3m1cm em Porto Alegre, no início da noite desta quarta-feira (25), conforme a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema). A medida foi registrada no Cais Mauá, onde a cota de inundação é de 3m — a marca foi ultrapassada em dois momentos, pela manhã e de tarde.
Com a elevação do Guaíba, mesmo sem chuva, a cidade voltou a viver um dia de apreensão, com cenas semelhantes às vistas na enchente de maio de 2024. Na região central e no 4º Distrito, houve acúmulo de água em ruas (veja mais abaixo).
Na Zona Norte, o dique do bairro Sarandi sofreu um vazamento em razão de uma infiltração. A situação assustou moradores, já que a estrutura rompeu-se no ano passado, provocando o alagamento da região.
Moradores questionam prefeito sobre situação do dique
— Tem chance de estourar de novo aqui? — questionou uma moradora, para a negativa das autoridades.
No local, o prefeito Sebastião Melo disse que não havia "nenhuma" orientação de evacuação do local.
— Nós podemos transmitir uma tranquilidade à cidade. (...) Esse vazamento que aconteceu aqui é real, é verdadeiro, mas não é uma quantidade de chuva enorme. Tomaremos todas as providências paliativas — disse.
Uma medida "paliativa" mencionada por Melo foi o uso de argila para conter a situação no dique.
O prefeito ainda falou que, mesmo com a decisão judicial que impede a remoção de famílias que ainda vivem sobre a estrutura, o município vai realizar a obra de reforço da barreira.
— O juiz que me processe — disparou.
Água nas ruas
Na região central de Porto Alegre, ruas do bairro Praia de Belas registraram acúmulo de água.
— Não digo que será igual, mas já estou em pânico. (...) Tá todo mundo em surto — disse Ana Paula Caixeiro, 57 anos, moradora do bairro.
De acordo com o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), o problema foi causado pela elevação do nível do Arroio Dilúvio. Não há sistema de bombeamento nesta área da cidade, e a drenagem das vias ocorre por gravidade.
Mesmo cobertos com sacos de areia, bueiros transbordaram no 4º Distrito. O Dmae afirma que o projeto de reforço nas estruturas de drenagem da região foi concluído em maio de 2025 e que o edital de licitação está em fase de formatação.
Projeção de nova alta no Guaíba
O Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) emitiu, na manhã desta quarta, o seu boletim diário sobre a atual cheia. No pior cenário projetado, o nível do Guaíba seguirá em alta por mais um dia, quando atinge o ponto mais elevado das águas.
O Guaíba pode chegar aos 3m60cm na Usina do Gasômetro. A medida representa a cota de inundação no ponto, localizado mais abaixo do Cais Mauá.
Apesar disso, a atual cheia do Guaíba não deve ultrapassar as inundações registradas em 2024 e 2023. Conforme levantamento do IPH, desde 1899, o Guaíba atingiu marcas acima de 3m no Cais Mauá apenas sete vezes.
Este é terceiro ano consecutivo com registros acima deste patamar. Antes da enchente histórica de 2024, houve cheias registradas em setembro e novembro de 2023.
Previsão de mais chuva
A trégua da chuva sobre o Rio Grande do Sul deve ser sucedida, nos próximos dias, por novos temporais capazes de fazer os cursos d'água igualarem ou superarem outra vez as cotas de inundação. O alerta vale para áreas recentemente castigadas, como nas regiões Metropolitana e dos vales do Caí e do Taquari — cujos rios desaguam na bacia do Guaíba.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) prevê o retorno da chuva nesta quinta-feira (26), e volumes ainda mais elevados durante o final de semana em locais como a Serra e os vales. Em razão disso, é esperado um repique no nível dos rios a partir do domingo (29).
Empresários focam em prevenção
Com o risco de elevação, empresários de Porto Alegre estão em atenção e reforçando planos de ação contra possíveis alagamentos, principalmente em bairros e regiões como Centro Histórico e o 4º Distrito.
— Alguns estão subindo alguns itens. Por enquanto, eu não tenho informação de alguém que esteja retirando do local, mas cada um vai tomar a medida que achar conveniente, achar possível tomar nesse momento — afirma o presidente da Associação dos Empresários do 4º Distrito, Arlei Romero.
Conforme o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre (Sindilojas), Arcione Piva, o foco do setor é em planos de ação contra possíveis pontos de alagamentos.
— Existem lojistas que estão preparados. Alguns que têm uma mercadoria maior já têm até um caminhão, um transportador, contatado para o caso de precisar retirar os produtos rapidamente.


