
Terça-feira, 1º de julho, 15h, centro de Porto Alegre. O termômetro marca, apesar do sol, 9°C. Em uma lanchonete localizada próxima ao Complexo Hospitalar da Santa Casa, o vaivém de clientes se mistura ao dos pratos feitos e salgados servidos num ritmo frenético, vendidos a pessoas que passam pelo calçadão no encontro das avenidas Salgado Filho e Independência. Doze horas depois, o estabelecimento segue aberto, mas com outra cara e movimento. Na madrugada, a rua está vazia. Sobram poucos clientes — alguns vêm dos hospitais do entorno e outros são figuras conhecidas deste horário.
A Tropical Lanches é um dos poucos negócios de gastronomia que ainda opera durante 24 horas em Porto Alegre. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos (SMDET) de Porto Alegre diz que 2.015 estabelecimentos contam com alvará que permite funcionamento durante todas as horas do dia. No entanto, poucos usufruem dessa autorização.
Não existe um dado exato de quantos negócios operam, de fato, durante 24 horas. Na gélida madrugada de quarta-feira (2), a reportagem de Zero Hora percorreu a cidade para encontrar alguns desses lugares. Além de farmácias, hotéis e postos de combustíveis, destacam-se serviços, como clínicas e academias, além de bares e restaurantes.
— Mais setores têm interesse em funcionar 24 horas, mas o custo alto e o risco em função da segurança são fatores que dificultam que empresas operem neste modelo, além da baixa demanda — avalia o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Írio Piva.
Treino em turno inverso
Para quem só pode malhar de madrugada, Porto Alegre conta com academias que funcionam 24 horas por dia. Alguns exemplos são as redes Usina do Corpo e Moinhos Fitness, com unidades neste formato nas ruas 24 de Outubro e Silva Só.
Recentemente, a rede ProFit, de Uruguaiana, inaugurou sua primeira operação na Capital. Também aberta 24 horas por dia, ela foi instalada em um grande imóvel na Avenida Protásio Alves.
Por volta das 2h30min da madrugada de quarta-feira, o instrutor Daniel Ullmann Rochadel auxiliava seis alunos que estavam treinando no local para ganhar condicionamento físico e espantar o frio. Ele é o único professor da academia neste turno.
— É o horário que tem o público mais variado possível. São empresários, pessoas com insônia, pessoas que trabalham até tarde ou que saem muito cedo para o serviço. É um grupo muito diverso. Dependendo da demanda, a pessoa não conseguiu treinar de dia e vem de madrugada — conta o instrutor.
A ProFit de Porto Alegre está com 2,8 mil alunos matriculados. Durante a madrugada, a unidade costuma receber cerca de 50 alunos. Um deles é o fisioterapeuta Michael Beschorner, que estuda pela manhã e trabalha até a meia-noite. Antes de ir para casa, vai treinar.
— É um horário tranquilo. Não preciso revezar aparelho. Quando o ambiente é muito movimentado, acabo não focando muito no treino. Antes de ser aluno aqui, eu já optava por outras academias que também abrem na madrugada — conta.
Volta do mercado 24 horas
Mais um negócio que opera durante 24 horas abriu recentemente na Avenida Protásio Alves. É o mercado Uffa, com sede em Cruz Alta. A chegada em Porto Alegre se deu em um ponto de 120 metros quadrados, onde são vendidos alimentos, bebidas e até ração para cachorro a granel. Durante a madrugada, são atendidos, em média, de 10 a 15 clientes.
— Está começando a evoluir. Cada vez mais, aparecem clientes novos. Alguns já vêm todos os dias. Com a chegada de novos produtos, a expectativa é de que aumente cada vez mais — diz o funcionário Arthur Carvalho, que trabalha no período da madrugada junto com outros dois colegas.

Quando a reportagem esteve no local, por volta da 1h15min, um homem entrou, pediu um café e um salgado. Pagou em dinheiro e foi embora. Antes dele, um casal já estava na loja tomando cafés em mesas instaladas na parte da entrada.
— Recebemos muitos motoristas de aplicativo e o pessoal que faz plantão no Hospital de Clínicas, que fica aqui em frente. Pessoal vem muito à procura de café, pães e bebidas — acrescenta o funcionário.
A rede Uffa está com planos para mais lojas em Porto Alegre, mas ainda não definiu os locais. Antes, a rede Nacional já havia aberto um supermercado 24 horas no Shopping Iguatemi. Porém, devido ao custo elevado da operação somado ao baixo fluxo de clientes no horário, fechou a unidade em 2017.
Na avaliação do presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Antônio Cesa Longo, é muito difícil que este modelo de supermercados dê certo em Porto Alegre:
— É o sonho de todo consumidor. Mas, infelizmente, tem a questão da viabilidade. Se for operado por uma pequena empresa, sofre com segurança. Vivemos em um país que não proporciona esse conforto. No caso da empresa grande, não é viável economicamente, porque os custos são altos, como adicional noturno e adicional por insalubridade.
Flores na madrugada
Apesar da dificuldade apontada pelo setor, Marcio Bairros Rodrigues abriu, há 18 anos, uma floricultura que funciona durante 24 horas no bairro Menino Deus. Sozinho, ele comanda a Art Fashion Floricultura, instalada em uma casa na Rua General Caldwell. À noite, ele se mantém acordado. Pela manhã, tira cochilos entre uma venda e outra.
— Aqui, ninguém tem esse tipo de serviço. É concorrência zero. Existem outras floriculturas na região, mas que não funcionam na madrugada. Hoje, eu recebo mais gente na madrugada do que durante o dia — diz o empresário.
No turno, Marcio atende, em média, seis pessoas. Devido a questões de segurança, para fazer o pedido, o cliente precisa bater na porta. Marcio avalia pelo olho mágico: se confiar, abre.
— Recebo muita gente que perdeu um ente querido. Mas quem mais socorro é o cara que brigou com a mulher, que chegou tarde do futebol ou aprontou outra coisa. Tem cliente assim todas as noites — diz Marcus.
Na madrugada, as flores mais compradas são rosas.

Serviços à disposição
Em Porto Alegre, o setor de serviços conta com dezenas de estabelecimentos funcionando 24 horas.
Emergências de hospitais recebem pacientes em situações graves. O mesmo acontece em pet shops com clínicas veterinárias, que também ficam abertas na madrugada.
No bairro Farroupilha, uma clínica odontológica atende pacientes na madrugada há cinco décadas. O Pronto Socorro Dentário fica na Avenida Venâncio Aires, em frente ao Hospital Pronto Socorro (HPS). Em 2016, Andrea Catelan, André Bueno e Nathalia Chiaradia compraram o negócio e ampliaram as especialidades.
— Na madrugada, atendemos todos os tipos de público. Quem precisa de urgência aparece. Fratura dental de adultos e de crianças, dor de dente, inflamação da gengiva. Tem gente que não aguenta a dor e vem, pois não consegue esperar o atendimento no horário comercial — diz a dentista Dayane Rubin, que estava de plantão na clínica na madrugada de quarta-feira.

Na Avenida Bento Gonçalves, a borracharia Átila Pneus salvou a noite de muitos motoristas desde que foi criada, há 15 anos.
— Fazemos conserto de pneus e rodas de moto e de carro. Vêm muita ambulância, viatura. Já consertamos de tudo. É rapidinho — diz o funcionário Lucas Cavalheiro.
Enquanto a reportagem esteve no local, perto das 4h de quarta-feira, um homem chegou com o pneu de seu carro furado. Em poucos minutos, os funcionários da Átila Pneus fizeram um reparo provisório, que custou R$ 20.

Perto do Aeroporto Internacional Salgado Filho, locadoras de carro também funcionam por 24 horas. Entre os clientes estão turistas que aterrissam na Capital e motoristas de aplicativo.
Chaveiros, acionados para abrir portas trancadas ou quebrar cadeados, também trabalham no formato 24h.
Lugares para comer
Dia e noite, fast-foods são uma opção fácil para quem deseja se alimentar. A rede Burguer King, por exemplo, conta com uma unidade 24 horas na Avenida Ipiranga. Porém, foi o McDonald's, rede rival, que implementou, há 32 anos, esse modelo na Capital. A loja da Rua Silva Só ganhou fama por receber pessoas que saem de festas e de shows durante a madrugada.
Em busca de um xis, a reportagem encontrou uma lanchonete aberta na esquina da Rua Demétrio Ribeiro com a Avenida Borges de Medeiros, no Centro Histórico. Apesar das luzes acesas, mesas foram colocadas na porta para impedir a passagem de clientes. A venda é feita apenas para o lado de fora durante a madrugada.
Na Avenida Salgado Filho, há outras três lanchonetes que ficam abertas 24 horas por dia. Mais adiante, a carrocinha de cachorro-quente Super Dog, estacionada em frente ao Hospital Nora Teixeira, também é uma opção.
Ao lado de uma banca de frutas, que também fica aberta na madrugada, está a lanchonete Tropical Lanches. Juarez Nascimento dos Santos trabalha no local há 10 anos. Da meia-noite às 6h, ele é o único funcionário no local. Além dos clientes fixos no horário, aparecem moradores do entorno e policiais militares.
— É muito difícil tu chegares aqui na madrugada e estar vazio. Com o frio, diminuiu o movimento. Mas é só aquecer um pouquinho que isso enche de novo. À noite, o que mais vendo é bebida — diz Juarez.

Opções diminuindo
Após a pandemia, alguns estabelecimentos que funcionavam 24 horas por dia deixaram de adotar o modelo. Alguns exemplos são a churrascaria Garcias, no bairro Praia de Belas, e o bar Alfredo's, no bairro Floresta.
Presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) no Rio Grande do Sul, Leonardo Dorneles, diz que o fenômeno pode estar ocorrendo por três fatores: pessoas cozinhando mais em casa, falta de mão de obra e até mudanças de hábito.
— Depois da pandemia, as pessoas passaram a aproveitar mais suas casas, cozinhando, desfrutando uma boa bebida e aproveitando um programa na TV. Também tem a questão da contratação. Já está difícil achar gente para trabalhar durante o dia, quem dirá para o turno da noite. Por fim, com os aplicativos de relacionamento, as pessoas passam a sair menos. Antes, para conhecer gente nova, tinha que sair, ir a bares, baladas etc — diz o presidente da Abrasel.
Já a economista-chefe da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), Patrícia Palermo, avalia que esse cenário também se deve à falta de demanda e à diminuição da população de Porto Alegre na última década.
— Os custos de operação à noite são muito mais altos. Se não tiver uma demanda significativa, não vale a pena. Quando olhamos para lugares que têm essa presença maior de negócios noturnos, são ambientes extremamente populosos, ao contrário de Porto Alegre, que está diminuindo sua população — analisa Patrícia.
No censo mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Porto Alegre e a Região Metropolitana tiveram uma redução populacional significativa. A Capital apresentou, no último levantamento, de 2022, redução de 76,7 mil habitantes — o quinto município que mais perdeu população em termos absolutos no Brasil.
Rua "24 Horas" não vingou
No final da década de 1990, houve a tentativa de criar uma rua onde os negócios instalados nela funcionariam 24 horas. O local escolhido foi a Travessa Engenheiro Acilino de Carvalho, no Centro Histórico.
Mesmo após uma obra de revitalização na época, a ideia de que os negócios operassem de forma ininterrupta nunca vingou.
Hoje, apenas nove dos 19 pontos comerciais estão ocupados. Os comerciantes que ainda restam no local reclamam de piso esburacado, telhado quebrado e da paralisação de uma nova obra de revitalização.


