
Em 5 de maio de 2024, o Guaíba atingiu o maior nível já registrado, de 5m37cm. Com o sistema de proteção contra cheias em colapso, Porto Alegre era tomada pela água. Pessoas evacuavam bairros inteiros, faltavam água e mantimentos, helicópteros rasgavam o céu em resgates, ruas e avenidas eram percorridas de barco.
Um ano depois, voltei aos mesmos lugares da Capital com algumas das fotos que produzi durante a tragédia. O objetivo era rever memórias de um trauma coletivo que não pode ser esquecido, diante do cenário de mudanças climáticas e eventos extremos que atingem o Estado cada vez com mais frequência.
Em dois dias, percorri os bairros Centro, Cidade Baixa, Arquipélago, Humaitá e Sarandi, quase sempre por áreas dentro da mancha de inundação. Passei por avenidas como Mauá e Assis Brasil, por vezes congestionadas na Capital — bem diferentes de um ano atrás, quando essas vias estavam tomadas por água e eram percorridas somente por embarcações.
No Centro, na esquina da Rua dos Andradas com a Rua da Ladeira, pedestres hoje caminham apressados. Há um ano, no mesmo local, voluntários de caiaque levavam mantimentos para hóspedes ilhados em um hotel inundado.

No bairro Humaitá, hoje parecia inacreditável percorrer as mesmas ruas que, há um ano, estavam quase bloqueadas por pilhas enormes de materiais descartados das moradias atingidas pela cheia.

Na Cidade Baixa, onde flagrei dois peixes sobre a calçada após o recuo da água em maio de 2024, um pedestre disparou, ao me ver com fazendo a foto:
— Estavam bem aí esses peixes! — e seguiu seu caminho.

Na Ilha da Pintada, na Rua Capitão Coelho, fotografei diversas roupas sujas de lama penduradas em uma cerca. Ao retornar ao mesmo local um ano depois, encontrei o dono das peças, Paulo Gilberto Cézar Alves, 82 anos. Soube que ele aguardou por dias pelo resgate no bairro Arquipélago, uma das regiões mais afetadas da Capital. Sobre o telhado da casa, ele acenava com uma toalha para os helicópteros que passavam. Acabou resgatado de barco por um pescador e conseguiu reencontrar o filho na Usina do Gasômetro.
Paulo voltou a morar na região das ilhas e conta que perdeu "tudo" dentro de casa, inclusive as roupas que fotografei na grade, que tiveram de ser descartadas. Conversamos brevemente sobre o que vivemos naquele maio de 2024 e, antes de ir, Paulo pediu para ficar com a foto das roupas que se foram, como lembrança. Agora, esta imagem é uma memória compartilhada entre nós em forma de fotografia.

Como diz Susan Sontag (1933-2004), no livro Diante da Dor dos Outros: "Quando se trata de recordar, a fotografia fere mais fundo."
"Numa era sobrecarregada de informação, a fotografia oferece um modo rápido de apreender algo e uma forma compacta de memorizá-lo. A foto é como uma citação ou uma máxima ou provérbio", acrescenta a escritora e ativista, na obra.







