
O restaurante Dei Fratelli, no Centro Histórico de Porto Alegre, acaba de expandir sua operação para um imóvel ao lado, na Rua Caldas Júnior. Além de somar 50 novos lugares para os clientes, a novidade chama atenção por outro motivo: neste espaço, há 19 anos, um grupo de criminosos cavou um túnel para assaltar dois bancos localizados no bairro (relembre o caso abaixo).
A poucos dias do assalto, a Polícia Federal frustrou o plano dos criminosos, que, um ano antes, conseguiram roubar o Banco Central, em Fortaleza, utilizando a mesma estratégia. O caminho do túnel de Porto Alegre foi tapado com cimento, mas a entrada para ele segue intacta e está mantida no novo espaço do restaurante. Uma placa de vidro foi colocada por cima para que os frequentadores possam vê-la.
O prédio onde os criminosos cavaram o buraco fica na Rua Caldas Júnior, na esquina com a Avenida Mauá. Em 2022, começou a ser reformado pela empresa Recons. A obra ficou pronta no ano passado.
— Quando vimos o buraco para o túnel, tivemos que manter, é história. Fizemos uma comunicação visual em volta, explicando do que se trata, e instalamos iluminação. Depois, o Pacheco (um dos sócios do restaurante) veio com a ideia de colocar notas falsas de dinheiro por cima — diz Kleber Sobrinho, dono do imóvel.
O Dei Fratelli está no local há 29 anos. Jandir Anselmini, sócio do restaurante junto com Lindonei Pacheco, lembra do dia em que a polícia prendeu os criminosos.
— Nunca desconfiei de nada. Ficavam martelando aqui do lado, mas eu achava que era a reforma do prédio. Um dia, antes de abrir o restaurante, veio um cara encapuzado me abordar. Achei que era um assalto, mas era a polícia. A quadra ficou tomada de viaturas. No dia seguinte, eu vendi 900 almoços. Todo mundo queria ver o prédio — lembra Anselmini.
Ainda este ano, o Dei Fratelli passará por uma nova ampliação. Será construída uma varanda na frente do restaurante, onde hoje funciona um pequeno estacionamento. Segundo os sócios, no local, será cavado um buraco para mostrar até onde o túnel dos criminosos avançou. O projeto tramita na prefeitura de Porto Alegre.
O assalto
Um ano após um assalto bem-sucedido ao Banco Central, em 2005, um grupo de criminosos ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) colocou em prática novos planos para roubar outras instituições financeiras no Brasil. Os próximos alvos seriam agências do Banrisul e da Caixa Econômica Federal, em Porto Alegre.
Um prédio desativado na esquina da Rua Caldas Júnior com a Avenida Mauá foi comprado por mais de R$ 4 milhões — dos quais R$ 1,2 milhão já havia sido pago com dinheiro do roubo em Fortaleza. Da estrutura de sete andares, sairia um túnel com ramificações para as duas agências — ambas localizadas a menos de 100 metros da base do bando. Seria um furto duplo com lucro inestimável.
Para disfarçar, o grupo anunciou que ali seria feita uma grande reforma do prédio. No dia a dia, os criminosos usavam uniformes compostos por macacões azuis e capacetes amarelos. Entulho era retirado esporadicamente, pois ali eles começaram a cavar o túnel.
No dia 1º de setembro de 2006, a Polícia Federal deflagrou a Operação Facção Toupeira, resultado de meses de investigação. Nas primeiras horas daquela manhã, viaturas cercaram o prédio e desativaram a energia do local. Sem o sistema de resfriamento, os bandidos que trabalhavam no interior do túnel não suportaram o calor e a falta de ar e saíram debaixo da terra, dando de cara com os agentes. Foram colocados no chão, vendados e algemados. Ao todo, 26 homens acabaram detidos.
O prédio
Construído para ser moradia social em 1946, o edifício chegou a receber ocupações com cerca de 40 famílias. O número 11 da Caldas Júnior passou décadas abandonado. Entre 2005 e 2006, foi comprado e usado pelo grupo de criminosos ligado ao PCC na tentativa de assaltar dois bancos.
Depois, entre 2011 e 2014, famílias de trabalhadores sem-teto ocuparam o local. A chamada Ocupação Saraí travou batalhas judiciais tentando garantir o uso do imóvel. Um decreto do então governador Tarso Genro transformou o imóvel em moradia social em 2014. Porém, durante o mandato de José Ivo Sartori, a reintegração de posse foi pedida na Justiça pelo proprietário. A desocupação definitiva aconteceu em agosto de 2014.

Em 2022, o corretor de imóveis Kleber Sobrinho comprou o imóvel e começou a reforma completa do edifício. Durante a obra, foram investidos R$ 20 milhões, com geração de 30 empregos. O edifício tem 48 apartamentos, salão de festas, academia e em julho receberá a operação do restaurante Tetto, de São Paulo.
Kleber também arrematou, em leilão da prefeitura, o prédio ao lado, onde fica o Dei Fratelli. O imóvel, que antes tinha salas comerciais, está sendo reformado para receber moradias, assim como o Cais Rooftop.





