
Pouco se reconhece hoje da avenida que foi o principal elo entre o Centro e os bairros da Zona Norte, que hospedou casarões nos tempos áureos e que foi até reduto da noite porto-alegrense. A Avenida Independência, fixada numa crista de morro da geografia e da memória da Capital, vive dias diferentes. Sempre em transformação, se adapta aos novos tempos para dar lugar a outros tipos de negócios e perfis de consumo.
Entre moradores e comerciantes, um marco se coloca como crucial para as características atuais da avenida. Desde a pandemia, muitos estabelecimentos fecharam por não resistirem à redução de pedestres ou mesmo de trabalhadores que migraram para o teletrabalho. Algo que alterou totalmente a relação das pessoas com a via, relatam os frequentadores, citando ainda o trânsito de veículos cada vez mais carregado.
A mudança na paisagem comercial se traduz em número de lojas operando e no perfil de negócio das que permanecem. A reportagem de Zero Hora identificou pelo menos 20 espaços comerciais vagos para venda ou locação ao longo do cerca de 1,3 quilômetro de extensão da avenida. Neste traçado, quanto mais em direção ao Centro Histórico, mais espaços a ocupar.
Presidente do Secovi-RS, entidade que representa o mercado imobiliário gaúcho, Moacyr Schukster chama atenção para a metragem dos espaços. As salas e os conjuntos comerciais foram encolhendo de tamanho nos últimos anos, muitas vezes como estratégia para reduzir o valor da locação, o que impacta diretamente o tipo de estabelecimento que é capaz de se instalar em ambientes menores.
— Como as lojas ficaram pequenas para que fosse mais fácil alugar, não se pode colocar ali um negócio maciço, com grandes estoques. Lojas de móveis precisam de muito espaço, por exemplo, e a Independência está sujeita a isso — diz Schukster.
O Sindicato da Habitação não mapeia dados específicos da via, mas traz recortes dos quatro bairros que são delineados pela avenida: Centro Histórico, Independência, Moinhos de Vento e Rio Branco. Ainda que numa abrangência muito maior de ruas e polos de comércio, confirmam a tendência do pós pandemia. Somadas as ofertas nos bairros acima citados, o número de salas e conjuntos disponíveis para locação saltou de 1.423 em março de 2019 para 1.917 em março de 2025, um aumento de 34% em seis anos. Considerando somente lojas, as ofertas passaram de 275 no mesmo mês antes da crise sanitária para 459 em março deste ano.
Economista chefe da Fecomércio-RS, Patrícia Palermo observa que a Independência acompanha as características dos bairros que ela permeia. Onde está mais próxima do Moinhos de Vento, visto como pulsante e arborizado, os negócios estão mais vivos. Em direção ao Centro, a condição reflete o que o bairro sentiu na pandemia.
— É uma avenida de alto fluxo, que liga praticamente todo o eixo hospitalar da Capital, ou seja, tem muita potencialidade. Fora a oferta de transporte. Mas é uma via que perdeu muito o seu fôlego comercial e que vive uma condição de insegurança aumentada. Isso reduz o apetite de novos locatários — observa a economista.
— Ressuscitar é muito caro. Não se pode deixar morrer — acrescenta.
Olheiros de ponta a ponta
Instalados há mais de duas décadas na Independência, um em cada extremo da avenida, dois “olheiros” da rua traçam suas percepções com a propriedade de quem testemunhou muitas transformações ao longo dos anos.
Valdir Azevedo, 66 anos, sócio proprietário da Padaria e Lancheria Roquete, em frente ao complexo da Santa Casa de Porto Alegre, detalha que o público está mais rotativo.
Há 48 anos no mesmo ponto, dos quais pelo menos 25 sob administração de Azevedo, o negócio sentiu a diminuição de frequentadores fiéis depois que muitos deles passaram a trabalhar de casa. O que permanece agora é o “público de passagem”, que entra e sai da padaria em busca de lanches rápidos no sobe e desce da avenida.
Além disso, bancos, lojas e até um supermercado encerraram atividades no entorno nos últimos anos, movimento que Azevedo atribui ser “um reflexo do Centro”. A pandemia levou o serviço de buffet, mas trouxe outras modernizações no ambiente, como mobiliários novos. Tudo como estratégia de manter a tradição da operação em pé:
— Se ficar parado, não dura — diz Azevedo, saudoso dos velhos tempos, mas ainda otimista com os novos rumos.
Os ventos de mudança também sopram na outra ponta da Independência, onde Alan Henrique Silva, 48 anos, passa os dias a observar como zelador da Galeria Moinhos de Vento, na esquina com a Rua Ramiro Barcelos. Há 29 anos trabalhando no mesmo endereço, celebra a atual fase como um novo despertar da avenida, impulsionado sobretudo por uma variedade de negócios gastronômicos que se instalaram na região.
É um novo polo para frequentadores da Independência, define Silva. A esquina concentra operações de culinárias diversas, que vão do tradicional boteco carioca ao sanduíche japonês, à focaccia italiana ou ao shawarma árabe.
O zelador diz que viu muitos altos e baixos da via ao longo das últimas três décadas, mas que o movimento atual é um “reflorescer da Independência”.
— Gosto muito de trabalhar aqui. Criei muitas amizades, de moradores dos prédios a mendigo. Muitas coisas mudaram, mas hoje está muito bom. O que é de comida sempre vai dar certo e vejo que a alimentação “deu um up” — diz Silva.
Nova cara nos negócios

Se os negócios tradicionais testemunham as mudanças ao longo do tempo, os novos empreendimentos ajudam a incrementar a história da avenida. E são muito bem-vindos, já que quanto mais pessoas circulando, mais viva a travessia.
Na montagem habilidosa de um cachorro-quente e outro, os funcionários da carrocinha do Rosário, instalada desde 1962 na esquina do tradicional colégio Marista, dizem que é especial permanecer na avenida, sem deixar de notar o quanto ela mudou.
— O público permanece fiel, mas já não é o das novas gerações. O que pega ainda é a nostalgia. Gente que vem comprar dizendo “eu vinha na barriga da minha mãe!” — conta Rodrigo Souza, 43 anos.

Ao lado do colega Vagner Oliveira, 44, os funcionários dizem ver crescer a presença de atletas corredores de rua, que usam a Independência como rota para a Redenção e o Parcão. O movimento relacionado ao esporte conversa com outro tipo de negócio que passa a ampliar espaço na avenida, como as lojas de suplementos.
Jorge Salami, 38, e Victor Marques, 28, da Fábrica de Suplementos, dão ainda outra explicação para o movimento. As lojas do ramo foram classificadas como negócios essenciais durante a pandemia, especialmente pela comercialização de creatina. Por isso, estavam entre os poucos estabelecimentos que podiam abrir as portas no período de restrições para conter a circulação do coronavírus.
— Isso nos manteve abertos e é uma presença que se mantém muito por conta da proximidade de hospitais e dos parques. E do Bom Fim, que tem ainda o perfil de pessoas que transitam a pé — diz Salami.
A presença na avenida, portanto, tem a ver com a mudança de hábitos:
— Nunca vi tanta gente que não necessariamente pratica esportes buscando a suplementação por qualidade de vida — acrescenta Marques.
Dos casarões ao retrofit
A presença imponente dos casarões que no passado abrigaram a nobreza porto-alegrense segue sendo uma das marcas da Independência. Dos oito imóveis listados como tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Porto Alegre, um fica na avenida. É o prédio do número 867, conhecido como Palacete Argentina.
Outras edificações históricas e tradicionais se somam ao legado da via: a Casa Godoy, a Casa Frasca e a Casa Torelly. A Independência ainda abriga alguns dos primeiros edifícios modernistas da cidade, como o Edifício Esplanada.
Marcas da arquitetura do passado, as construções são patrimônios no presente, e também passam por mudanças para acompanhar as transformações da avenida. Enquanto algumas têm suas fachadas mantidas para abrigar novos prédios, outras estão sendo reformadas a fim de preservar a memória.
Construída há 118 anos, a Casa Godoy é um dos poucos exemplares remanescentes da art nouveau. O imóvel tombado e administrado pela prefeitura da Capital está em obras para abrigar departamentos vinculados à Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, como a Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre (Epach) e a Diretoria de Patrimônio e Memória (DPM).
Em outro ponto, o casarão roxo que abrigou o Cabaret, point efervescente da vida noturna em meados de 2010, abrigará um empreendimento comercial e residencial. Já o Encouraçado Butikin, que marcou Porto Alegre nos anos de 1960 e 1970, reabriu no número 936 da avenida, que também foi casa do Beco 203.
Na avaliação do presidente do Secovi-RS, as construções históricas não afastam os novos negócios. Mas são um dificultador:
— Os casarões deixaram de ser habitações nobres quando a avenida virou local de muito trânsito. As mansões estão virando fachada para prédios, que estão virando escritórios. Isso afasta o investidor porque o custo da obra inclui a construção nova e o restauro do que é mantido na frente. É um dificultador — diz Schukster.
Da Estrada dos Moinhos de Vento a um dos principais eixos urbanos da Capital, a Independência segue em movimento, sem perder suas origens e o público fiel. Convidado pelos novos negócios, o consumidor que circula permanece impactado pelas joias arquitetônicas ao longo de quase toda a via, sem que se percam nos tempos atuais.



