Geólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rualdo Menegat explica os motivos que levam a água da chuva que transborda os rios a ficar acumulada no entorno de Porto Alegre. Nesta segunda-feira (25), a prefeitura da Capital decidiu iniciar o processo de fechamento das comportas do muro do Cais Mauá, e sacos de areia empilhados serão colocados na região para evitar vazamentos para a área central da cidade. Na medição desta manhã no Guaíba, a régua mostrava 2m73cm, sendo que a cota de inundação é atingida em 3m.
Conforme contextualiza Menegat, a Região Metropolitana se situa exatamente no encontro de quatro grandes rios: Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí, que confluem para o Guaíba. Essa confluência gera o Delta do Jacuí, que são terras baixas e alagadiças no sopé de um planalto de 1,1m.
— Ciclones sequenciais com muita carga de água descarregam exatamente nas cabeceiras desses rios. Invertem então o planalto abaixo em um tobogã de 900 metros de elevação, e esta água vem em velocidade máxima para o sopé do planalto onde ficam concentradas as populações, como aquelas do Vale do Taquari — analisa.
De acordo com Menegat, essas águas estão chegando agora no Delta:
— O Delta funciona como uma rolha, está na desembocadura dos rios e não deixa a água fluir rapidamente para o lago.
Desse modo, essa região tende a alagar.
— Esses rios todos que foram carregados desde as cabeceiras, essas águas estão agora se acumulando neste baixio — detalha.
Ele diz que a região central de Porto Alegre se situa frontalmente a um canal deltaico.
— O Cais Mauá/Navegantes se situa frontalmente a um canal deltaico. É uma área que quando recebe uma grande carga de água tende a inundar — explica, arescentando que o vento também contribui para o cenário problemático. — Tem a função não só de represar água (no Guaíba), como elevar o nível de água na cabeceira oposta — diz.
Influência da Lagoa dos Patos
Outro fator que inibe o escoamento das águas da planície deltaica (toda região de desembocadura do Jacuí, Caí, Sinos e Gravataí, incluindo as ilhas e a região central, Navegantes e Humaitá de Porto Alegre) é a elevação do nível da Lagoa dos Patos.
— Se a maré está um pouco alta ou se há maré de tempestade no litoral onde está o emissário da Lagoa dos Patos, as águas não escoam. Se não há escoamento também na Lagoa dos Patos, forma-se um lago de inundação deltaica, cujo esvaziamento depende, também, do escoamento na desembocadura da Lagoa dos Patos — esclarece o geólogo.
Questionado sobre o porquê de a água não baixar às margens de estradas, perto de córregos e arroios, Menegat esclarece:
— Toda essa região do Gravataí é de banhados. A Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande e do Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, ao norte de Viamão e ao sul de Gravataí, é uma região de solos orgânicos — diz.
Isso ocasiona baixa infiltração e facilita a formação dos banhados.
O professor assistente do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS Gino Gehling, que também é doutor em Engenharia Ambiental pela Universidade Politécnica de Catalunha, destaca a obstrução das bocas de lobo e dos tubos de condução das águas como mais um fator que leva ao acúmulo tanto na área urbana como em regiões no entorno de Porto Alegre.
— Se qualquer um de nós fizer um percurso agora acompanhando as bocas de lobo, será possível ver que elas estão acumulando detritos.
Segundo Gehling, isso gera alagamentos em zonas urbanizadas onde não há muita declividade e em pontos mais baixos.
— Há mais de 20 anos, tínhamos na Avenida Goethe, por ocasiões de chuva, lâminas de água com mais de um metro de altura — lembra, citando que a municipalidade conseguiu atenuar o problema com depósitos de amortecimentos de cheias na Capital, espécies de piscinas subterrâneas, onde a saída da água acontece de forma distribuída.
Já os pontos de alagamentos nas regiões mais afastadas de Porto Alegre, perto de arroios, córregos e até de estradas, o docente atribui à saturação do solo.
— Em uma situação normal, o freático estaria a dois metros da superfície ou a um metro nessas zonas baixas. A água que inside e entra por capilaridade no solo não rola — detalha, acrescentando: — A água que inside fica acumulada na superfície. Ela não escoa pelos rios porque eles estão com cotas elevadas.
Para o professor do IPH Fernando Dornelles, a água que chega ao Guaíba não consegue escoar com facilidade porque a região é praticamente plana do Gasômetro a Itapuã. Dessa maneira, Guaíba funciona como um reservatório.
— Para ele (Guaíba) baixar, temos que ter a redução do ingresso de água, principalmente do Jacuí. O vento causa elevações momentâneas, ou seja, é capaz, sozinho, de elevar o nível sem entrada de mais água no Guaíba. E esta elevação depende da direção (sendo a pior no sentido sul para norte), além da intensidade e da duração que ele atua — explica Dornelles.
Segundo ressalta o especialista, está prevista para quarta-feira (27) a entrada de vento sul, em função do ciclone que está se formando em alto-mar, o que pode fazer o Guaíba subir rapidamente entre 15 e 20 centímetros.
— Temos que ter redução da vazão do Jacuí para a água baixar, o que não se observa agora. Inclusive, está subindo em Cachoeira do Sul. E em breve, em Rio Pardo, deve elevar, não ao nível que atingiu na semana passada, mas manterá a vazão alta até que as chuvas diminuam na bacia — conclui.




