
Lutando contra a gravidade sobre uma fita elástica suspensa, Emanuel Iriarte tem uma visão privilegiada do trânsito da Capital. No slackline instalado a 1m50cm do chão, o argentino de 24 anos faz piruetas sob o semáforo, em busca de qualquer trocado. O seu palco é uma das esquinas mais movimentadas de Porto Alegre, no encontro das avenidas João Pessoa e Ipiranga, ao lado do prédio do Palácio da Polícia.
— Meus pais me chamaram de doido quando saí de casa, mas faço o que gosto e estou desfrutando minha vida. Podem falar o que quiserem de mim — diz o artista, enquanto descansa, escorado na árvore que sustenta uma das pontas da corda.
O picadeiro é erguido em poucos segundos, a partir de um ritual cronometrado: quando o sinal fecha para os automóveis, o jovem sai correndo com um mosquetão (espécie de gancho de alpinista) na mão direita, atravessando as três faixas até o outro lado da via. Com a mão esquerda, a ponta solta da corda — entrelaçada a uma das tantas palmeiras-reais do canteiro central da avenida — é enganchada. Enquanto caminha pé ante pé em uma altura rente ao teto dos veículos, o argentino arremessa ao alto três pinos de malabarismo. A performance era acompanhada pelos atentos motoristas em uma engarrafada manhã de sexta-feira (7).
— Bacana né? Corajoso ele — define o promotor de vendas Marcel Freitas, 33 anos, na arquibancada de asfalto.
O tempo de apresentação é de um minuto, nem mais, nem menos. O período é definido pelo semáforo de pedestres. Por vezes, sobram menos de 10 segundos para Emanuel recolher o dinheiro do público motorizado, o que não parece preocupá-lo.
— Vivo com pouco. Saí da Argentina com o equivalente a R$ 200 (em pesos) e às vezes fico com R$ 20, R$ 30. Para mim, o slackline é tudo que importa, desde que eu vi, quando ainda era adolescente — explica.
Nos sinais, o artista diz receber elogios pela habilidade demonstrada e jura nunca ter tido qualquer ferimento por eventuais quedas. A fita elástica também o diferencia dos demais malabaristas das ruas da Capital. O reflexo é sentido no bolso: chega a juntar R$ 100 em apenas um turno na rua.
— Um senhor me deu R$ 50 uma vez e disse que minha arte não tinha preço. Isso foi em Florianópolis. Aqui em Porto Alegre, nunca passou de R$ 5 — relata, com um sorriso amarelo após a leve cutucada nos gaúchos pães-duros.
Destino é festival de slackline no Uruguai
Emanuel saiu da Patagônia em novembro e chegou a Porto Alegre após dois meses de apresentações em Florianópolis. De carona ou em viagens de ônibus financiadas pelas gorjetas, o jovem chegou do país vizinho pelo Paraná, onde também teve uma breve passagem.

Em uma surrada mochila cinza, carrega uma garrafa com água gelada, banana, biscoito e o almoço: um pão com salsicha que prepara na casa que o acolheu, indicação de um amigo gaúcho que conheceu em Santa Catarina. Com a hospedagem gratuita, seus gastos se resumem a alimentação.
— Meu objetivo é ter o suficiente para ir de ônibus ou Blablacar (aplicativo de corridas de longa distância com preço combinado diretamente com os passageiros) até Pelotas. De lá vou tentando carona até Montevidéu — explica.
No Uruguai, Emanuel vai participar do festival Stay High 4Life, de 21 a 25 de fevereiro, no Cerro Arequita, departamento de Lavalleja. O torneio reúne competidores do mundo inteiro, em modalidades que vão do tradicional slackline ao highline, travessia realizada entre montanhas.
Como vai chegar, e onde vai ficar até seu destino, são trechos de um roteiro ainda não escrito.
— Não perco tempo pensando no futuro. Agradeço e vivo todos os dias feliz — finaliza, correndo para não perder os preciosos segundos do sinal, verde para suas acrobacias.


