Desde 28 de outubro, táxis e lotações estão autorizados a trafegar pelas faixas exclusivas para ônibus em Porto Alegre. A medida tem como objetivo melhorar a circulação para os veículos nos horários de pico (das 6h às 9h e das 16h às 20h). Para ver qual é o impacto da novidade na prática, GaúchaZH realizou viagens em horários distintos nesta segunda-feira (4).
Por volta das 7h, a repórter Bruna Vargas solicitou um táxi e Tiago Boff, um veículo de app, para percorrer cerca de 12 quilômetros da Zona Sul até a Avenida Erico Verissimo. O trajeto passava pelas faixas exclusivas das avenidas da Cavalhada e Nonoai.
Às 18h, foram dois percursos na Zona Norte, onde os táxis podem trafegar pelas faixas exclusivas das avenidas Brasil e Assis Brasil. O repórter Vitor Rosa foi de táxi e a repórter Jéssica Rebeca Weber usou um app de transporte.
Em ambos os casos, a mudança resultou em economia de tempo para quem utilizou o táxi. Pela manhã, a corrida foi cinco minutos mais rápida do que pelo app — porém custou mais caro.
À tarde, foram 15 minutos de diferença, mas o táxi levou a melhor também no preço: a corrida custou R$ 5,25 a menos que pelo aplicativo. Veja como foi:
Manhã congestionada na saída da Zona Sul
Eram perto de 7h20min quando o táxi de Cesar Augusto Michel chegou ao ponto indicado, um posto de gasolina na Avenida Juca Batista. Por ter sido solicitada através do app do Sintáxi, a viagem teria 30% de desconto. O carro estava limpo e bem cuidado, e o motorista ficou satisfeito ao saber que o trajeto passaria pelas faixas exclusivas para ônibus. Taxista há quase três décadas, Cesar comemora a permissão para a circulação nas faixas, que, segundo ele, é reivindicação antiga da categoria.
— Nesse horário é sempre trancado. Assim, a gente ganha tempo, né. É muito melhor — sorri.
Não demorou para que a impressão do motorista fosse confirmada na prática. Ao deixar a Avenida Eduardo Prado para ingressar na Avenida da Cavalhada, onde o trânsito estava carregado em direção ao Centro, observamos uma fila de carros ficar para trás enquanto seguíamos a linha 211 Restinga Velha — mesmo com as paradas do coletivo, o táxi levava vantagem em relação às outras pistas.

Apesar da boa fluidez, durante o trajeto, pelo menos três condutores de carros particulares circularam pela faixa exclusiva por longos trechos. Segundo o taxista, a infração é comum. Ele relata que, desde a mudança, observou diversos veículos trafegando na área reservada aos ônibus, táxis e lotações.
Ainda assim, o acesso às faixas exclusivas poupou tempo. Mesmo sem realizar ultrapassagens — Cesar optou por manter-se atrás dos coletivos —, o táxi chegou à Avenida Erico Verissimo às 7h54min, cinco minutos antes do transporte por aplicativo. A desvantagem ficou no preço. Com o desconto, custou R$ 36,60, R$ 7,32 a mais que a corrida feita pelo app. Na tabela regular, o valor teria ultrapassado os R$ 50.
Táxi
Veículo: Chevrolet Prisma
Duração da viagem: 34 minutos
Distância percorrida: 12,2 quilômetros
Valor: R$ 36,60 (em Bandeira 1, com desconto de 30%)
A viagem via transporte de aplicativo iniciou às 7h20min. Logo de início, o uruguaio Juan Mário Saccone Frias, 65 anos — desde 2018 na Uber —, reclamou dos buracos no asfalto da Avenida Eduardo Prado.
— Pagamos impostos de primeiro mundo e temos um serviço de terceiro (mundo) — disse, em tom cordial.
Ao chegar à Avenida da Cavalhada, o estreitamento das faixas da direita para a esquerda gerou lentidão. Na faixa azul, ônibus e táxis seguiam livres, enquanto o carro chamado por app ficou quase cinco minutos na tranqueira — circulava com velocidade entre 20 km/h e 40 km/h, intercalando trechos de arranca e para.
— O trânsito aqui sempre foi muito ruim no horário de pico. Eu gostaria de poder usar a faixa, afinal prestamos um serviço ao público — argumentou o condutor, que, ao longo do trecho engarrafado, o motorista chegou a sugerir desvios pela Doutor Campos Velho e pela Otto Niemeyer.
Mesmo com trânsito mais fluído na Avenida Nonoai, ainda haviam filas próximo aos cruzamentos, menores ou inexistentes na via beneficiada pela exclusividade no pico — ao todo, o trecho de faixa azul foi percorrido em 25 minutos.
A partir da Avenida Teresópolis, onde o corredor de ônibus é separado por muretas, todos os demais veículos devem trafegar nas mesmas faixas. Mas nós já havíamos ficado para trás: chegamos à Avenida Erico Verissimo às 7h59min, cinco minutos depois do táxi. Apesar disso, a viagem saiu mais em conta. O valor com tabela dinâmica — mais cara que o habitual — foi de R$ 29,28.
Uber
Veículo: Chevrolet Onix
Duração da viagem: 39 minutos
Distância percorrida: 12,2 quilômetros
Valor: R$ 29,28 (com tarifa dinâmica de 1.9)
Chuva e engarrafamento na Zona Norte
Solicitada através do aplicativo do Sintáxi, a viagem começou às 18h05min, em frente a uma empresa de gestão automotiva na Avenida Assis Brasil — lugar encontrado pela reportagem para se refugiar da chuva. O taxista Ricardo Dornelles Martins, 56, chegou em um Fiat Grand Siena limpo e em bom estado.
Logo no início da viagem, enquanto os carros estavam parados, o táxi avançou atrás de um ônibus até a Avenida Ceará, um trecho de aproximadamente quatro quadras. Ele precisou ter atenção em cruzamentos, já que sua faixa era a única livre e os motoristas das outras deixavam os veículos que vinham de outras ruas cruzar.
Mesmo assim, defende que o serviço melhorou depois da liberação da faixa azul para os táxis. Motorista desde 1989, disse que agora consegue ter um diferencial para os carros de aplicativo.
— Agilizou bastante a nossa vida. E o passageiro, que geralmente está com pressa quando entra no carro, também está gostando — avaliou.
Na Avenida Bejamin Constant e no início da Avenida Assis Brasil, sem a faixa exclusiva, deu-se o trecho mais longo da viagem: 13 minutos no para e arranca. Depois do terminal Triângulo, o táxi conseguiu novamente retornar para a faixa azul, mas, naquele ponto, o trânsito fluía melhor e a diferença não foi tão grande para as outras pistas.
A viagem durou 41 minutos, e o preço surpreendeu. Em geral mais caras que as corridas feitas por apps de transporte, com o desconto de 30%, custou R$ 28,90, R$ 5,25 a menos que o Uber.
Táxi
Veículo: Fiat Grand Siena
Duração da viagem: 41 minutos
Distância percorrida: 11 quilômetros
Valor: R$ 28,90 (em Bandeira 1, com desconto de 30%)
Horário de pico com chuva: as condições não eram nada vantajosas para quem precisava se deslocar de carro pela Zona Norte no final da tarde. O resultado foi uma viagem de 54 minutos para vencer os 11 quilômetros entre o Terminal Cairú (Avenida Brasil) e a Fiergs (Assis Brasil).
O Uber foi pedido às 17h57min, nove minutos depois do táxi, mas, ainda assim, chegou alguns segundos antes do outro. Acabaram por aí as vantagens do app, pelo menos no horário e no trajeto escolhidos.
O motorista Satir da Rocha Monteiro, 56 anos, não escondeu a frustração quando foi informado do percurso — o mais congestionado. De cara, o táxi em que estava o repórter Vitor Rosa disparou pela faixa azul. O trajeto de Uber pela Avenida Brasil foi sofrido: foram 18 minutos para vencer apenas seis quadras até a Avenida Benjamin Constant. A vantagem do táxi deu-se ali, porque até o Terminal Triângulo, onde não há faixas, os dois enfrentaram mesmo arranca e para — depois do terminal já não havia congestionamento.
Monteiro não é dos maiores entusiastas da faixa azul. Não por causa dos táxis, segundo ele, mas por um motivo prático: diz que os motoristas de aplicativo enfrentam dificuldade para embarque e desembarque dos passageiros.
— Estamos questionando isso, porque vai ficar ainda mais restrito o desembarque do pessoal.
A viagem encerrou em frente aos portões da Fiergs, às 19h, já no escuro. Em razão da tarifa dinâmica, a corrida custou R$ 34,15.
Uber
Veículo: Chevrolet Prisma
Duração da viagem: 54 minutos
Distância percorrida: 11 quilômetros
Valor: R$ 34,15 (com tarifa dinâmica)





