
A democracia e a cidadania têm endereço fixo na Capital, na ponta da língua de qualquer porto-alegrense: Rua dos Andradas com Avenida Borges de Medeiros. Forjada durante as lutas contra a ditadura militar, a Esquina Democrática é patrimônio cultural de Porto Alegre há exatos 20 anos, além do ganha-pão de vendedores, autônomos e artistas de rua que aproveitam o movimento frenético de pedestres no Centro Histórico.
Tombada em 17 de setembro de 1997 — medida que condiciona à avaliação do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Cultural (Compahc) e da Equipe do Patrimônio Histórico Cultural (Epahc) modificações na área —, a Esquina Democrática foi eleita pelo povo para seus encontros e manifestações públicas há pelo menos 40 anos. O deputado estadual Pedro Ruas (PSOL) lembra que o ponto foi utilizado por Glênio Peres e Marcos Klassmann, vereadores cassados em razão do Ato Institucional 5 (AI-5) em 1977.
— Eles não tinham mais mandato e transferiram suas tribunas para lá. A minha tese é de que criaram a Esquina Democrática — conta.
Ainda estudante de Direito, Ruas ia vê-los discursar duas ou três vezes por semana, nos cantos do cruzamento ou no meio da via mesmo — que na época ainda era aberta para trânsito de veículos:
— Era tenso, era um período brabo da ditadura ainda. Mas uma pessoa protegia a outra.
A importância da Esquina Democrática aumentou no movimento Diretas Já. Deputado federal que apresentou, em 1983, a emenda constitucional que tentava restabelecer as eleições diretas para a Presidência da República, Dante de Oliveira também discursou no cruzamento, dias antes da votação da proposta.

Se hoje os protestos são organizados pelo Facebook, na época, eram os panfletos que convocavam os manifestantes. Grupos iam com cartazes, bandeiras do Brasil, camisetas verde-amarelas. Justamente nesse período, a esquina teria recebido o nome pelo qual é conhecida. Jussara Cony (PC do B), que era vereadora na época, reivindica a autoria.
— Pedi um caixote para as floristas, peguei o megafone e me veio: "Essa é a esquina democrática de Porto Alegre". E é mesmo, é uma esquina onde as lutas acontecem — relembra ela, acrescentando que a imprensa adotou a expressão.
A redemocratização não tardou a acontecer, e a esquina consagrou-se como epicentro na busca por votos. Nas campanhas, a Justiça Eleitoral precisa realizar sorteios para organizar a utilização do espaço.
A esquina foi também adotada por sindicalistas, feministas, protetores de animais, defensores de pautas LGBT, jovens contrários ao aumento da passagem e quem mais tem uma causa pela qual vale lutar.
— É um espaço fundamental do exercício da cidadania, é onde as pessoas se reúnem para dar sua opinião — diz Jair Krische, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH). — Acho que tem de ser utilizado nos 365 dias do ano, em todo e qualquer tipo de manifestação.
Clique e veja os cinco olhares:






