
Após parar em frente a um monitor e ouvir uma mensagem gravada de boas-vindas, a professora Adriela Mariath, 40 anos, começou a obedecer as ordens ditadas pela máquina: escaneou o código de barras de cada compra, colocou os itens na sacola, digitou a senha do cartão de débito e validou o ticket de estacionamento. Ela já havia feito compras sozinha nos Estados Unidos, onde viu esse sistema espalhado por mercados e farmácias. Nesta terça-feira, utilizou o equipamento pela primeira vez em um supermercado de Porto Alegre.
– Achei muito divertido isso – disse, ao colocar o QR Code da sua nota fiscal em um leitor e uma portinha se abrir para ela deixar o espaço delimitado.
Muito usados em lojas da América do Norte e da Europa, os caixas de self-checkout ainda são poucos na capital gaúcha – um dos exemplos é o utilizado por Adriela, no Zaffari Higienópolis. A promessa, no entanto, é de crescimento.
Leia mais:
Preocupado com acidentes em cruzamento, morador elabora estatística informal
Falta de iluminação aumenta sensação de insegurança nas ruas de Porto Alegre
O Z Café pretende instalar nos próximos 90 dias totens de autoatendimento nas lojas do Tecnopuc e do Hospital São Lucas da PUCRS, ainda não inaugurada. No ponto da Avenida Soledade, bairro Três Figueiras, a empresa tem a tecnologia como opção de pagamento durante o dia, quando também há atendentes, e após o encerramento do expediente – à noite, os produtos seguem expostos em balcões e geladeiras, à disposição dos frequentadores do prédio comercial onde o café está localizado.
– É bom porque, às vezes, a gente fica até mais tarde trabalhando – diz o desenvolvedor de softwares Nicolas Peixoto dos Santos. – É mais ágil e super intuitivo. O único fator limitador é que só aceita cartão, mas eu quase nem levo dinheiro na carteira – acrescenta.
Quando tiveram a ideia do totem de autoatendimento nas unidades takeaway do café – modelo traduzido como "leve embora", que já tem um perfil mais cosmopolita –, os irmãos e sócios Carlo e Sandro Zanette foram desaconselhados por muitas pessoas: juravam que eles seriam roubados. Mas os empreendedores garantem que a experiência está sendo boa, sem furtos.
– Eles (os clientes) pensam: "o cara está deixando a casa aberta para mim". Sentem-se até donos, cuidam como se fosse deles – diz Sandro. – No outro dia, não tem nem sujeira nas mesas.
Faz sete meses que o Zaffari Higienópolis disponibiliza quatro caixas de self-checkout para compras de até 10 itens. Por meio da assessoria de imprensa, o grupo informou que "os equipamentos serão instalados nas maiores lojas da rede", mas ainda não há data prevista. A empresa garante que não houve casos de utilização do caixa com a tentativa de burlar o sistema e furtar mercadorias.
Adriela, que usou o equipamento pela primeira vez nesta terça, acredita que, além da habitual demora na chegada de tecnologias ao país, a concepção de que há um "jeitinho brasileiro", de tentar tirar vantagem, também pode ter atrasado a disseminação desse sistema no país. Fernanda Etchepare, diretora do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de POA e Região (Sindha), vê uma tendência de evolução, impulsionada justamente por um sentimento de repulsa à corrupção.
– É uma inovação bem apropriada. O Brasil está vivendo essa onda anticorrupção. É um bom momento para provar que a gente não é assim e começar provando isso nas pequenas coisas – opina.
As empresas que apostam nesse modelo não se valem apenas da confiança: também usam mecanismos para evitar fraudes. No Z Café, há câmeras de monitoramento e todos os dias é realizada a contagem dos produtos. Junto aos equipamentos do Zaffari, sempre há um funcionário no espaço dos caixas de self-checkout, que também auxilia quando ocorre algum problema ou o cliente tem alguma dúvida. Um dispositivo de conferência por peso verifica se a quantidade depositada nas sacolas é compatível ao item registrado, e o cliente ainda passa o código da nota em um leitor na saída.

Especialista afirma que mudança será rápida
Uma empresa de Gravataí tem apostado nas opções de self-checkout. A Perto – Tecnologia para Bancos e Varejo começou a trabalhar com o produto no final do ano passado e tem a meta de comercializar ao menos cem unidades até o final do ano – até agora, foram em torno de 35. Além de Porto Alegre, já foram realizadas vendas para Carazinho e Erechim, além do interior de Santa Catarina e São Paulo.
– Sempre olhamos o self-checkout como uma oportunidade. Quando algumas redes começaram a nos procurar, vimos que era hora de fazer essa tecnologia – conta André Figueiredo, diretor comercial da empresa.
Figueiredo ressalta que a empresa já viveu o autoatendimento bancário, a automação dos terminais para pagar ticket de estacionamento e dos terminais para recarga de cartões de transporte público. Ele acredita que a inovação em supermercados e lojas também deve se disseminar na região:
– É o tipo de coisa que vem e não volta mais.
Ricardo Sondermann, professor de marketing na pós-graduação da ESPM, opina que esse sistema vai ser uma realidade "mais rápido que se imagina". Ele vê o processo de automação sob o viés da economia do empregador, uma vez que pode abrir brecha para reduzir gastos com funcionários.
– O custo do emprego no Brasil é proibitivo. Nem pelos impostos incidentes, mas pelo risco trabalhista. Por uma necessidade de sobrevivência, aposta-se na digitalização do trabalho – diz.
Diretora do Sindha, Fernanda Etchepare não mostra preocupação com demissões. Ainda há poucos empresários apostando nisso na cidade, e utilizam o serviço como complemento, dando oportunidade de o cliente escolher como prefere ser atendido.
– Desde a Revolução Industrial, tem esse mito que as inovações tecnológicas tiram empregos. Historicamente, é comprovado que inovações não acabam com emprego: a economia cresce como um todo e se criam novas oportunidades em diferentes tarefas e diferentes qualificações – acrescenta.


