
A semana começou com o reconhecimento, por parte do presidente venezuelano, Nicolas Maduro, de uma derrota acachapante nas eleições legislativas do país. Pela primeira vez em 17 anos, o Partido Socialista Unido e sua Coalizão Bolivariana perderam a maioria no parlamento. A Mesa de la Unidad Democrática, coalizão oposicionista que agrupa partidos social-democratas, de centro-esquerda, de centro-direita e trabalhistas, elegeu 112 deputados, contra 55 do governo. As eleições se encerraram com Nicolas Maduro admitindo a derrota mas atribuindo-a a um complô do grande capital. De acordo com a escritora e jornalista venezuelana Milagros Socorro, a reação do governo à derrota eleitoral vai pautar o futuro do país.
Como a senhora analisa o atual momento posterior à eleição legislativa venezuelana?
A primeira análise é que os resultados foram completamente inesperados para todos. Ninguém esperava: nem a oposição, nem o governo, nem mesmo as pesquisas que davam uma pequena vantagem para a oposição. Foi uma autêntica avalanche. Um aspecto que se deve levar sempre em conta é que cada voto da oposição precisou superar a vantagem material do governo e, em alguns centros de votação, a violência de pessoas e do Estado. De modo que este triunfo da oposição é duplamente assombroso.
Vitória da oposição nas eleições legislativas acaba com hegemonia chavista na Venezuela
E quais foram as razões?
Creio que houve uma constelação de fatores. Houve a influência efetiva do colapso dos preços do petróleo. Os governos socialistas só podem funcionar quando podem distribuir a riqueza que outro produz. O governo bolivariano, analisado como um só, já que Chávez e Maduro são basicamente a mesma coisa, é inepto, sumamente corrupto e mafioso. E uma vez que não houve excedente petrolífero a distribuir, e no contexto de uma terrível e constante perseguição à produção local venezuelana, não houve mais o que repartir. O contexto econômico interno é de prostração, com a baixa dos preços do petróleo, com um terrível desabastecimento, não apenas de alimentos, mas, sobretudo, e de modo mais angustiante, de medicamentos. Porque se não há bananas, você pode comer batatas, mas se precisa de remédios para câncer, não adianta tomar os para tuberculose. Houve também a inflação como nunca havia ocorrido na história do país, racionamento, filas de horas para adquirir alimentos e remédios. A crise na Venezuela é humanitária, e isso deteriorou as intenções de voto para o governo. Essa foi a semente da vitória da oposição, mas se não tivesse havido unidade das oposições não teria havido a colheita.
Ao mesmo tempo, os governos chavistas sempre foram acusados de fraudes eleitorais. Esta vitória massacrante da oposição comprova a validade do sistema eleitoral local?
Isso tem de ser visto em um contexto. Um dos trabalhos da Unidad Democrática, a coalizão de oposição, foi voltar-se para o Exterior, dedicando-se a fazer lobby no estrangeiro, não apenas junto a governos, mas a organizações de direitos humanos, pressionando para que as eleições fossem legítimas. E a própria realização das eleições já foi uma luta. O governo, sentindo que poderia perder, retardou-as o quanto pôde, e quero lembrar que houve aqui greve de fome de líderes exigindo uma data para as eleições. E embora tenha havido denúncias tremendas de irregularidades durante todas as eleições do chavismo, esta pode ter sido a com o maior número de irregularidades. Até a véspera da eleição, Maduro estava entrando no ar em cadeias audiovisuais para inaugurar obras e chamar votos ao seu partido. A lei também determina que as seções eleitorais sejam fechadas às 18h, a não ser as que ainda tenham eleitores. No entanto, o governo obrigou centros de votação onde não havia nenhum eleitor a permanecer abertos até 23h. Essa vitória não foi a prova da disposição democrática do governo, mas da determinação que tem a sociedade venezuela em renovar suas instituições.
Maduro pede saída de ministros após derrota nas eleições legislativas
A derrota da situação e as declarações de Maduro geraram tensão após o pleito. A senhora acha que essa tensão vai sofrer uma escalada ou será administrada de modo sensato até a posse dos novos parlamentares?
O que vimos até agora foi não somente uma negativa assombrosa do governo em reconhecer seus erros, mas também agressões ao eleitorado. Maduro se permitiu dizer na televisão, sabendo que a falta de moradia é um problema central: "Eu ia construir 500 mil moradias, mas como vocês não votaram por mim, agora vou pensar". Como um amante fazendo birra: "como você me deixou, nunca mais vou falar contigo". Uma das características mais proeminentes de Chávez é que ele crescia na derrota. Ele irrompe na cena nacional com um falido golpe de Estado, e conseguiu converter esse fracasso no lançamento de seu nome como alternativa política. Já para Maduro, esta derrota, que poderia ter sido uma simples derrota, prenuncia seu fim político. As eleições põem em conflito naturalmente as tensões que circulam em uma sociedade, mas depois da eleição os perdedores se recolhem e, como vão seguir na política, sabem que sua conduta na derrota será tomada em conta. Maduro fez o contrário.
Vitória expressiva da oposição deixa Nicolás Maduro emparedado
Com a ascensão da oposição, o que deve mudar?
Podemos ver que o governo deve aumentar o confronto para evitar que a oposição chegue ao parlamento fazendo o que tem de fazer, e a primeira coisa seria pedir auditorias nas contas públicas, porque há na Venezuela uma opacidade como só nas ditaduras da África. A oposição vai pedir contas do Banco Central, que há mais de um ano não apresenta números de inflação. Também não sabemos com quanto o país conta, onde está, em que fundos... Mas também, lembre-se, a oposição ganhou dois terços do congresso nacional com uma promessa muito simples: mudança. Bom, então terá que honrar essa promessa. Adianto que uma das principais ações tomadas pela oposição será pedir que se declare crise humanitária na Venezuela, e que a Unicef ou a ONU venham ao país para distribuir comida e medicamentos. Uma pesquisa recente divulgada por três universidades aponta que 73% dos venezuelanos vivem em situação de pobreza, e desses, 49% em extrema pobreza. Isso significa que essa parcela não tem acesso diário ao mínimo de calorias para se manter vivo, é o momento mais trágico desde a fundação do país.




