
Qual é o caráter político das manifestações que tomaram as ruas do país no último domingo, dia 15? Um gigante que finalmente acordou para lutar contra a corrupção ou uma "elite branca" festiva que inaugura a nova série de "marchas gourmet"? Nem ao céu, nem ao inferno - parece-me razoável concluir.
Alguns vídeos estão circulando nas redes sociais, selecionados com precisão no intuito de fornecer uma prova cabal de que as pessoas que estavam lá são politicamente ignorantes.
"Quem assumiria a presidência, no caso de um impeachment?"
"Aécio Neves!"
Essa seria apenas uma pérola entre tantas outras que atestariam a falta de cultura política desse tipo de manifestação - e da população brasileira como um todo. Manifestantes, que aparecem com a camiseta da tão corrupta CBF, protestam contra a corrupção, levam o cachorro para passear, tomam uma champanhe na Rua Padre Chagas e até aparecem nas colunas sociais. É a indignação com glamour. Somam-se a isso cartazes fascistas, ufanistas, homofóbicos, misóginos e pobrefóbicos, que dão o tom de um evento da política do mal.
Por outro lado, penso que temos muito mais a dizer sobre o dia 15 de março. Essa narrativa reducionista e estereotipada é verdadeira, mas é apenas uma parte da história. Esse retrato não abrange a indignação de pessoas que usaram a marcha para expressar seu sentimento de BASTA. Eu, assim como a maioria dos porto-alegrenses, conheço muitas pessoas que se juntaram ao movimento, as quais, certamente, não se enquadram em nenhum desses rótulos "coxinha", "reacionário" ou mesmo de despolitizado. O que vi no dia 15 foram pessoas profundamente descrentes, que compartilhavam o sentimento de "não temos mais para onde correr". Trabalhadores de classe média que viram naquele ato uma oportunidade para dizer que não se está contente com os rumos da política (ou melhor, do circo) nacional. Todas as minhas tentativas de argumentar com essas pessoas no sentido de mostrar que se tratava de um evento da extrema-direita foram frustradas, no momento em que eu era questionada: mas o PT por acaso é ainda esquerda? Eu, sinceramente, fiquei sem argumentos.
Existe uma grande parte da população que está insatisfeita com a política nacional e que precisa ser respeitada. Traduzindo a angústia dessas pessoas, o sentimento parece ser bastante claro: pessoas cansadas de trabalhar todos os dias e, ao olhar para cima, só encontram acordos sórdidos que apenas beneficiam a classe política. Esse sentimento não apenas é legítimo, como igualmente positivo. E qual o papel do PT nessa história? O sentimento anti-PT é apenas um sentimento burguês, branco e classista, ou é também um sentimento de traição ante um partido que, a cada mandato, rasga suas bandeiras históricas, a começar pela principal delas, a luta contra a corrupção e contra o capital?
A desesperança e a falta de opções à esquerda faz com que esses grupos da massa sejam cooptados pelos piores setores políticos da população brasileira e se integrem à passeata gourmet. As pessoas vestem o nacionalismo verde-amarelo e reproduzem as mesmas frases que antecederam o golpe de 1964. Protegem-se de um golpe comunista que não existe e mandam todo mundo para Cuba. Esse tipo de atitude é, sem dúvida, vulgar e mal-intencionada politicamente. O seu poder reside simplesmente no fato de ser uma narrativa fácil, que se baseia em argumentos simplistas. São instrumentos manipulativos que fornecem explicações totalizantes para fatos políticos que são complexos e, principalmente, incompreensíveis. Afinal, como explicar que PT, PSDB, PMDB, PP e muitos outros morrem todos abraçados na praia na hora de dividir os lucros? Contra quem lutamos, quando todos aparecem na mesma lista da Lava-Jato?
Essas massas não representam a ausência de cultura política no Brasil. Cultura política todos nós temos, teoricamente. Bater panelas e marchar festivamente é uma forma legítima de fazer política. O que devemos discutir, então, é a qualidade dessa cultura política. E isso não significa dizer que lenços que escondem rostos são mais dignos do que panelas. É muito mais profundo que isso. A insatisfação, ainda que difusa, é legítima, mas é canalizada para argumentos simplistas que possuem tendências fascistas claras.
Os organizadores desse movimento conseguiram a atenção dessas massas insatisfeitas para a sua pauta, ao oferecer, por um lado, a narrativa simples de impeachment e anticomunismo e, por outro, a pauta vazia anticorrupção. Eu, particularmente, acho que marchas são rituais importantes de politização mas, neste caso, produzem o efeito inverso, são verdadeiras máquinas antipolíticas, que atuam por meio do niilismo nacionalista.
Ao pedir o impeachment, por exemplo, enfraquece-se a democracia e arruína-se a possibilidade de fortalecimento da sociedade civil, que deve ser um exercício diário. Nossa cultura participativa está ainda engatinhando. Corrupção se combate no dia a dia, por meio do engajamento nos diversos instrumentos de controle e transparência que hoje emergem dos movimentos sociais para regular a estrutura pública.
O desafio ainda é imenso. O sentimento de indignação é tão legítimo quanto necessário. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer para transformar panelas, camisetas da seleção brasileira e gritos raivosos, em uma prática cotidiana e contínua de controle das finanças públicas e de engajamento na sociedade civil.