
* Psicanalista
Swing, grupal, inter-racial, latinas, gordas, peitudas, orientais, morenas, negras, loiras, cum shot, pênis monstros, SM, teens, DP, moms, anal, incesto, marido corno olhando, a esposa com o amigo do marido, primo e prima, novinhas, coroas (sempre mulheres), casadas, ejaculação feminina, zoofilia, na cozinha, no trem, na van, no táxi, no avião, no escritório, no jardim, no barco, na praia, na sacada, no elevador, gays, transexuais, suruba, etc.
A lista de opções oferecidas nos sites sexuais ou pornôs é tão extensa e variada que dá a impressão de que ali se encontra democraticamente de tudo, mas, se conseguirmos segurar o "entusiasmo" fulminante que isso de início provoca, logo se percebe que não é bem assim.
Para começar, tentem descobrir, entre as categorias das variantes oferecidas, "na cama matrimonial" ou simplesmente "marido e esposa". Vai dar trabalho. Será que o sexo matrimonial está tão desprestigiado?
Embora encontremos a classe das "loiras", se formos procurar nas listas o conjunto "loiras americanas" ou "europeias", não tem. Fazendo contraste, no seu avesso lógico, sim tem "brasileiras" e "orientais" (devendo-se levar em conta que esse último termo condensa tipologia física com pertença continental), o que impõe a pergunta: quais os princípios - certamente inconscientes - que determinam tal classificação?
Não encontramos também: "francesas", "italianas", "espanholas", "holandesas", "belgas", nem outras mulheres européias. Possivelmente porque elas perderam a aura exótica necessária para alimentar o sexo clandestino; talvez elas representem algo da legalidade sexual (no fim das contas, o Papa mora na Europa).
Tampouco achamos categorias enunciadas segundo a origem geográfica e/ou étnica das populações que foram longamente vitimadas pelo colonialismo ou neocolonialismo: africanas, polinésias, vietnamitas, mexicanas, etc. Seguramente tem papel nisso o desejo dos amos ocultarem um sentimento recalcado de indignidade pelo fato de terem viabilizado sua prática sexual mediante abusos de poder. Um paradoxo se denota nisso: qualquer sombra de culpa, embora obstaculize sua inclusão no Catálogo Sex-Web, não é, porém, impedimento para que essas "peças de caça" figurem hoje no cardápio do "turismo sexual".
Há três categorias que merecem destaque pelos lugares privilegiados que ocupam tanto no catálogo quanto na preferência que se registra no número de acessos: "latinas", seguramente devido ao prestígio mítico de sua fogosidade; "orientais", seguramente valorizadas pela sua tradição de submissão ao sexo masculino que os homens acreditam continuar igual; "brasileiras", às quais se atribui fácil acessibilidade para as práticas sexuais mais diversas. Todas as três têm em comum um aparente exotismo na visão dos centros culturais ocidentais que estabelecem as classificações de categorias humanas (por exemplo, os Manuais de Psicopatologia tais como o DSM V ou o Manual Merck para Medicina do Lar, ou os índices de valores, de classificações de países segundo os níveis de risco para os investimentos de capitais e não pelas necessidades de suas populações etc.), um exotismo que lhes agrega uma aura de erotismo clandestino.
Já quanto às mulheres árabes, sua rara presença no catálogo de objetos do desejo sexual coletivo merece outra explicação: em primeiro lugar, pesa sobre elas, nos locais de origem, uma rígida proibição e um minucioso sistema de controle que inibe qualquer movimento na direção de participar ou não do espetáculo sexual planetário; em segundo lugar, nessas condições repressivas fica impossível consultá-las sobre seu próprio desejo acerca dessa questão e, portanto, incluí-las em qualquer categoria de um Catálogo Sex-Web constituiria uma imposição ofensiva e, provavelmente, com conseqüências tão perigosas e humilhantes quanto as provocadas pela sua atual privação de liberdade.
Com acessos que requerem um maior domínio da tecnologia internética e uma disposição para ultrapassar os limites da legalidade, encontramos a chamada Deep Web: sites necrofílicos, coprofílicos, zoofílicos, vampiristas, pedofílicos e de práticas sadomasô. Geralmente agrupados sob o título encobridor de Sexo Extremo, eles somam milhares e contam com uma clientela numerosa o suficiente para demonstrar que esses objetos sexuais fazem parte das formações inconscientes de uma boa porção dos humanos - embora na maior parte deles figurem só como fantasias recalcadas. Afortunadamente, apenas em um pequeno número de indivíduos essas fantasias logram vencer a barreira do recalque e se transformam em atos. Dizemos "afortunadamente" porque essas configurações sexuais costumam ser compulsivas e, como tais, determinam atos sintomáticos que produzem dor e satisfação simultaneamente (reivindicação do direito ao gozo e autopunição ao mesmo tempo), podendo causar danos irreparáveis tanto a si mesmos quanto ao entorno.
A internet tem inaugurado um campo de compartilhamento de tais fantasias em uma extensão antes inédita. Por um lado, isso facilita vias de realização anteriormente improváveis, mas, por outro, cria um coletivo ficcional que, pelo desvio ao simbólico, tenta barrar sua transformação em ato. A invenção genial da dramaturgia grega ensinou a desdobrar a tragédia num palco para nos pouparmos de sofrê-la de forma real. Porém, o discurso pós-moderno, com seu imperativo de gozar a qualquer custo, e com o apoio das tecnologias que dão corpo real às fantasias, empurram a balança em direção à sua realização. Tal o caso da abundante filmografia povoada de serial killers, do renascimento dos vampiros e dos lobisomens, dos videogames que premiam assassinatos em massa, assim como das preferências coletivas pelo gênero do terror. Em suma, uma convocatória pública à erotização da morte.
Outra particularidade da classificação web dos objetos do desejo sexual é a absoluta hegemonia do sexo feminino. Os enunciados parciais e polimorfos desses objetos têm como único fragmento corporal masculino o pênis, enquanto das mulheres há seios, bundas, vaginas, anus, bocas (quando se fala, nesses catálogos, de sexo oral, supõe-se o cunilíngua feito por uma mulher sobre o pênis de um homem, ou seja, a "oralidade" é feminina), a cor da pele, a cor do cabelo, a magreza ou a obesidade (não há uma categoria de "homens gordos", sim há uma de "gordas"), a idade (raramente a idade masculina aparece referenciada como componente erótico "necessário", mas a feminina sim). O interessante é que nos sites ou categorias de vídeos ou fotos destinados a gays também a figura privilegiada continua sendo o pênis.
Essa exploração preliminar nos permite perceber que o que propomos denominar Catálogo Sex-Web se organiza em três grandes agrupamentos: 1) material para voyeurs, 2) redes sex-sociais para solitários, 3) redes sex-sociais para práticas sexuais diferenciadas. Deixamos à parte as redes destinadas a encontrar o par ideal porque elas não têm como propósito explícito qualquer ato da vida erótica.
Todos esses três agrupamentos dividem-se em duas grandes linhas: amadores e profissionais - sendo que alguns dos serviços profissionais são pagos na hora de produção da cena (algumas ao vivo, sex webcam, camdolls e outras por vídeo ou fotografia) se for um encontro de prostituição (os menos abundantes nesse meio). Mas quase todos são gratuitos (seu custo acaba sendo insignificante porque está incluído no valor pago pelo uso da internet).
Toda essa descrição para demonstrar que um discurso sobre a sexualidade que se pretende neutro e objetivamente informativo carrega, em verdade, uma interpretação complexa acerca do objeto de desejo:
1) Seu corpo continua sendo prevalentemente feminino (na história da arte, são raros os nus masculinos - o Discóbolo, o David de Michelangelo - enquanto são incontáveis os nus femininos, assim como hoje na Web o acervo de imagens é feminino na sua quase totalidade).
2) As presenças e ausências nas categorias oferecidas não são aleatórias na medida em que obedecem a incidências ideológicas e representações sociais (como referimos antes).
3) Os trilhos organizadores do que se oferece ao consumo sexual público curiosamente protegem nas suas formas enunciativas (nos nomes das categorias de imagens disponíveis) as mulheres europeias e norte-americanas; não é que elas não protagonizem vídeos ou fotografias, mas que elas não estão incluídas em categorias massificantes como estão as latinas, as orientais, as brasileiras, as negras, as morenas, as gordas, as peitudas, as coroas, as lésbicas, etc. De que será que elas ficam preservadas?
4) Parece subjazer, então, apesar do livre acesso ao espaço virtual, certa continuidade do discurso do amo e do escravo; se registrando, entre outras formas de sua expressão, que a fantasia erótica continua a recriar a submissão da mulher, a insistência em devolver ao pênis seu valor fálico - talvez na esperança do retorno do "império patriarcal" -, negras e negros devolvidos mais uma vez ao cruel lugar dos escravos ao serem especialmente qualificados só como objetos de gozo.
Uma vez esgotados Haiti, Havaí e o Caribe, são convocadas latinas, orientais e brasileiras, com suas longas cabeleiras pretas, com seus quimonos entreabertos e seus passos de samba para preencher o vazio de uma exótica suficiente para estimular as glândulas masculinas estrangeiras.
Surgem então duas questões fundamentais para nos situarmos nessa nuvem:
- Que o espaço virtual seja infinito não quer dizer que não adote uma forma. Essa forma inevitavelmente é imposta pelo discurso social, seus valores, seus privilégios, seus poderes, suas subordinações, suas subversões. Essa forma impõe, para cada sujeito, particulares limitações, ordena e configura suas formas de gozar. Nesse dispositivo - o da internet - ele não encontra o Outro encarnado contra o qual se opor ou com o qual debater. Intui apenas uma nuvem que, pela sua inconsistência, oferece uma ilusão de poder e domínio.
- O espaço sexual contemporâneo está demarcado pela fantasia de poder realizar nossos sonhos eróticos pela via puramente imaginária: a de um conjunto de palavras pelas quais nenhum corpo tem o compromisso de responder e, por isso, tampouco logra se apropriar do que ele mesmo diz ou faz. Eis aí que caímos na armadilha da não realização. Viramos apenas bonecos através dos quais somente fala o ventríloquo da Web.

