A cooperação entre a China e a Rússia tem crescido e é considerada uma aliança antiamericana. Mas a situação não é bem essa. A nação mais populosa e a de território mais extenso do planeta possuem notável complementaridade. Ambas têm grande peso econômico. A China, como novo polo industrial do mundo e com acelerado crescimento tornar-se-á, em breve, a maior economia do planeta. Já a Rússia é uma potência energética, possui recursos naturais estratégicos e tecnologia de ponta na área militar, aeroespacial e nuclear (herdadas da antiga URSS), reemerge com peso regional.
Os dois Estados integram o Conselho de Segurança da ONU como membros permanentes, o BRICS e são potências nucleares. Militarmente, enquanto a China aumenta sua capacidade de dissuasão, a Rússia conserva, ainda, um arsenal estratégico capaz rivalizar com a superpotência americana. Além disso, ocupam a maior parte do espaço eurasiano e foram, no século 20, os protagonistas das duas maiores revoluções e regimes socialistas.
Curiosamente, essa identidade política, além das complementaridades materiais objetivas, em lugar de gerar convergência, produziu antagonismos de consequências globais. A aliança sino-americana dos anos 1970-80, por exemplo, contribuiu para a derrocada da União Soviética. Assim, a percepção que cada uma das elites dirigentes possui da outra é determinante, e a cooperação buscando evitar a intrusão do poder americano no coração da Eurásia é apenas reativa. As debilidades internacionais dos dois países contribuem decisivamente para tal convergência. Mas o que impede que evoluam para uma aliança estratégica?
Não objetivam articular uma oposição aberta aos EUA, pois uma aliança mais sólida entre Moscou e Pequim contra Washington traria mais custos do que benefícios. Mas o mais relevante é o descompasso entre ambos países, pois nunca houve condições necessárias para uma aliança equilibrada. Durante a Guerra Fria, a URSS era qualitativamente mais poderosa que a China, e hoje esta supera amplamente a Rússia.
Assim, historicamente, ambas buscaram evitar ser o lado menor da aliança, situação que persiste, apesar das novas condições vigentes. Além disso, Moscou e Pequim defendem a formação de um sistema mundial multipolar, o qual garantiria a autonomia de cada um. Por fim, existe uma disjuntiva sociopolítica entre ambas, na medida em que a Rússia abandonou a referencia socialista, possui uma frágil projeção internacional e apresenta traços de instabilidade estrutural no plano domestico. A China, por outro lado, apesar de forte projeção na economia mundial, mantém sua referencia socialista, com um projeto de longo prazo e um invejável grau de governabilidade interna.
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Paulo Fagundes Visentini: "China e Rússia, aliadas ma non troppo"
A nação mais populosa e a de território mais extenso do planeta possuem notável complementaridade
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