Não é só o planeta que sofre com as mudanças climáticas. A saúde humana também será cada vez mais impactada.
Preocupados com a disseminação de doenças como malária, dengue e cólera a partir das inundações, secas e desabastecimento em diferentes regiões, duas agências da ONU anunciaram a criação de um gabinete conjunto para ajudar a combater a ameaça que as mudanças climáticas e os fenômenos climáticos extremos representam para a saúde.
Estudo publicado na revista Environmental Health Perspectives tamém comprovou a relação entre o aumento da temperatura e risco de pedras nos rins, associadas a casos de desidratação e sudorese. Liderada pelo urologista pediátrico e epidemiológico do Hospital Infantil da Filadélfia, Gregory Tasian, a pesquisa analisou dados de 60 mil pacientes. Numa comparação a 30°C versus 10°C, o aumento de risco foi de 38% em Atlanta, 37%, em Chicago, 36% em Dallas e 47% em Filadélfia. Em entrevista ao PrOA por email, o autor do estudo analisa os resultados e as implicações do aquecimento global para a saúde da população:
Como surgiu exatamente a ideia da pesquisa? Quando se começou a perceber a relação entre o aumento das temperaturas e os casos de pedras nos rins?
Tasian - Por duas razões. A associação entre a climas quentes e prevalência de pedra nos rins tem sido sugerida há muitos anos. Por exemplo, "o cinturão da pedra nos rins", que geralmente é a área mais quente do país, vai do Sudeste para o Oeste dos Estados Unidos. As pessoas que vivem nestas áreas são relatadas como as mais propensas a ter pedras nos rins. No entanto, a relação exata entre a temperatura diária e o risco de apresentar uma pedra não era conhecida. Queríamos definir essa relação. Sou um urologista que trata de crianças com pedras nos rins. Em 2012, tratei dois adolescentes sem história prévia de cálculos renais que se apresentaram com pedras no mesmo dia, durante uma onda de calor intenso na Filadélfia. Um deles tinha uma tomografia feita semanas antes que não mostrou pedras nos rins, o que indicava que esta era uma nova pedra que se formou ao longo de semanas. Comecei a me perguntar como exatamente as altas temperaturas aumentaram o seu risco de apresentar pedras nos rins. Foi demonstrado que, em geral, o risco de os pacientes apresentarem o problema aumenta à medida que a média das temperaturas diárias se eleva. Estimamos um aumento dos riscos em altas temperaturas em Atlanta, Chicago, Dallas e Filadélfia. Não se observou qualquer associação entre temperatura e risco de pedra, em Los Angeles.
As conclusões do estudo mostram que as ocorrências de pedra nos rins aumentam com maiores temperaturas médias diárias. O que se sabe até agora sobre a relação entre a temperatura e a ocorrência de pedra nos rins? Esse cenário é agravado pela seca que atinge os Estados Unidos?
Tasian - Observou-se que, na maioria dos casos, o risco relativo para os pacientes que se apresentam com pedras nos rins aumentou para temperaturas acima do valor de referência de 10°C. A 30 °C, o risco de complicações foi de 38% em Atlanta, 37%, em Chicago, 36% em Dallas, 11% em Los Angeles (não significativa), e 47% em Filadélfia. Nós não estudamos o efeito de condições climáticas, como a seca, sobre o risco de pedra. É provável que as temperaturas elevadas aumentem o risco de pedras nos rins através de desidratação - mas a água potável pode compensar este risco. Eu acho que é pouco provável que a seca afetaria o risco de pedras, enquanto aqueles que são suscetíveis à formação de pedra tenham acesso à água e formas de atenuar os efeitos do calor (ambientes fechados, ar condicionado).
As conclusões da pesquisa podem ser aplicadas a outros lugares do mundo?
Tasian - Neste momento, nós não sabemos. É possível que as pessoas que vivem em diferentes lugares do mundo tenham diferentes suscetibilidade ao calor e risco de pedra e diferentes capacidades de adaptação às altas temperaturas.
O senhor disse que as descobertas apontam para possíveis impactos de saúde pública relacionados com a mudança climática, e, recentemente, duas agências da ONU anunciaram a criação de um gabinete conjunto para ajudar a combater os riscos da mudança climática à saúde. Qual a sua principal preocupação em relação a isso?
Tasian - Pedras nos rins são muito dolorosas, de caro tratamento, e podem se repetir ao longo da vida. Como médico e pesquisador, espero desenvolver intervenções que diminuam a ocorrência de pedra nos rins. Dado o impacto global das alterações climáticas, é fundamental que sejamos capazes de medir os efeitos adversos das mudanças climáticas sobre a saúde humana. É imperativo que trabalhemos juntos, como uma comunidade global, para ajudar a combater os riscos à saúde humana das mudanças climáticas. Eu apoio os esforços de base ampla para melhor compreender e combater os riscos da mudança climática sobre a saúde humana, entre os quais pedras nos rins é uma doença importante a incluir.
Qual é a sua expectativa para o futuro? Como podemos reduzir o impacto das mudanças climáticas para a saúde?
Tasian - Esta é uma ótima pergunta. Temos que trabalhar em vários níveis. Primeiro, precisamos de fortes políticas internacionais que diminuam as emissões que levam ao aumento da temperatura global. Eu não sou cientista do clima, nem um político, então não posso comentar diretamente sobre as propostas específicas que podem melhor realizar este objetivo. Em segundo lugar, precisamos de mais pesquisas sobre intervenções que reduzam os efeitos danosos do calor sobre a saúde humana. Este é um assunto complicado, mas de grande importância. Minha pesquisa está atualmente buscando identificar barreiras à ingestão de água entre adolescentes e encontrar maneiras de aumentar a ingestão de água em crianças com risco de formação de pedra.




