
Após pedido de vista do ministro Flávio Dino, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem quatro votos a três para manter separada a análise das ações de Alexandre de Moraes e André Mendonça no caso Master. Não há previsão para retomada da sessão já que o prazo do pedido de vista é de até 90 dias.
Os magistrados debateram o pedido de ordem do decano Gilmar Mendes, que solicitou análise conjunta dos casos envolvendo os magistrados da Corte. O mérito da sessão desta terça — em que o STF analisaria se autorizaria investigação contra Moraes — não foi analisado.
Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram para que os casos de Moraes e Mendonça sejam debatidos separadamente. Já Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes votaram para uma sessão conjunta.
Dino chegou a proclamar seu voto seguindo o último grupo, mas a manifestação dele foi excluída da contagem provisória devido ao pedido de vista — que ocorreu após bate-boca de Gilmar Mendes e André Mendonça:
— Eu tenho que interromper esta situação porque nós temos uma questão de ordem. Nós não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior, e a sociedade está assistindo a algo diferente do rito que a lei manda.
"Não há tênue conexão entre essas duas PETs": os votos a favor da separação dos casos
Relator do caso, o presidente Edson Fachin foi o primeiro a votar na questão de ordem de Gilmar Mendes. Ele defendeu manter a sessão desta terça e analisar, de forma independente, os casos Moraes e Mendonça:
— Me permito, desde logo, me manifestar no sentido de manter, não apenas a separação entre os julgamentos da PET e, portanto, voto no sentido de prosseguir o julgamento de hoje.
Mendonça abriu o voto afirmando que acompanha Edson Fachin — assim como Luiz Fux.
— Nos casos omissos, como aqui se alegou, que não há precedente nos casos. Por outro lado, senhor presidente, eu entendo que não há a mais tênue conexão entre essas duas PETs. Uma alega abuso de autoridade, a outra alega atos supostamente ilícitos praticados por um membro da corte. Então, não há mais, tendo impossibilidade, decisões contraditórias. Uma coisa é a abuso de autoridade, outra coisa é essa investigação — afirmou Fux.
Cármen Lúcia abriu o voto pela separação dos casos afirmando estar "em estado de profunda consternação e tristeza":
— Me sinto um pouco até envergonhada, presidente, de, no momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarem todos voltados a questões do Supremo — declarou.
"Risco concreto de decisões contraditórias": os votos para análise conjunta dos casos
Flávio Dino acompanhou o posicionamento de Gilmar Mendes e abriu divergência. O ministro rebateu Fachin e votou por análise conjunta dos casos dos dois ministros. Na fala, argumentou que o presidente da Corte não tem rito e questionou:
— Então por que um vai abrir processo hoje, outro na próxima semana e os outros, sabe-se Deus quando? Não tem data. Qual é o problema? O que acontecerá se não há rito?
Em seguida, sentenciou:
— Então, eu me valho, presidente, no meu voto, acompanhando o ministro Gilmar. (...) Eu acredito que nós devemos adotar um rito que seja baseado na lei e um rito coerente.
O voto dele, no entanto, foi excluído devido ao pedido de vista.
Cristiano Zanin afirmou que a lógica dos atos processuais nesta sessão foi invertida:
— Não é possível deliberarmos sobre algo que está, digamos assim, ainda sujeito a verificação se esses atos foram praticados de forma legítima.
Moraes também se manifestou pela análise conjunta da situação:
— Nós estamos com um risco concreto de decisões contraditórias e de tumulto processual, julgando as mesmas coisas, só que com o sinal invertido, os mesmos fundamentos, cada qual de um lado, com sinal invertido hoje (caso Moraes) e na próxima quarta-feira (sobre Mendonça). Então presidente com essas com essas considerações, pedindo todas as vênias a Vossa Excelência, acompanho a questão de ordem do ministro Gilmar — disse Moraes.
A opinião dos colunistas de GZH sobre a crise no STF
PGR negou conexão com Vorcaro

Ao se manifestar na sessão desta terça-feira, o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet, afirmou que não teve proximidade com o dono do extinto Banco Master, Daniel Vorcaro, e que só esteve com o empresário em ocasião com outras autoridades em abril de 2024.
Gonet disse que só pode ser investigado com autorização de órgão próprio do Ministério Público Federal (MPF). Além disso, disse ficar "feliz" por, segundo ele, haver reconhecimento do ministro André Mendonça, do STF, de que "não havia nada que pudesse induzir a alguma prática de ilícito por parte do procurador-geral da República".
— Não existe, nem tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. O único encontro que eu tive com o senhor Vorcaro se deu com várias autoridades, em abril de 2024. A única ligação, intermediada por advogada, foi brevíssima e banal — pontuou Gonet.
O procurador disse ainda que a atuação do MPF "sempre foi pelo total esclarecimento dos fatos e pelo sucesso da persecução penal".
— Quem analisa os fatos, sem viés, verá que o Ministério Público, no exercício do papel de titular da ação penal, foi preciso e foi correto — salientou.
Crise no STF
A sessão desta terça-feira ocorre em meio a uma crise institucional sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF). Os ministros analisam em plenário o relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mais de 50 mensagens enviadas pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a Alexandre de Moraes, que integra a Corte. Na sessão, o plenário decidirá se autoriza abertura de investigação de Moraes.
A polícia indica que Vorcaro se encontrou oito vezes com Moraes e pediu ajuda para conter ações contra o banco. O documento também cita a atuação do ministro na análise de um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
Presidida pelo ministro Edson Fachin, a sessão extraordinária desta terça é considerada inédita porque envolve a discussão sobre um relatório da PF que tem como suspeito um membro do Supremo. A crise entre ministros envolve as investigações sobre a fraude bilionária do Banco Master, que se tornou pública no final do ano passado, com a liquidação da instituição financeira e com a prisão de Vorcaro, então dono do banco.
O primeiro ministro a aparecer em suposto envolvimento com Vorcaro foi Dias Toffoli — sorteado para ser relator do caso. Por isso, em fevereiro de 2026, o magistrado deixou a relatoria após o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, entregar a Fachin um documento listando indícios de conexões entre Vorcaro e Toffoli. As investigações apontam para negócios envolvendo o resort Tayayá, no Paraná, que tinha participação de empresas ligadas à família do ministro.
Depois disso, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria e pediu para a PF produzir o relatório que é analisado nesta sessão. O documento apresenta metadados extraídos do celular de Vorcaro, que indicam que Moraes teria editado uma versão do contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o banqueiro e o escritório de advocacia de sua esposa.
Em 1º de setembro deste ano, Mendonça derrubou o sigilo do relatório da PF que reúne mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. Em uma delas, o banqueiro teria perguntado ao ministro: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". O trecho teria sido enviado, conforme a PF, em 15 de novembro de 2025, um sábado. Em 17 de novembro, segunda-feira, o banqueiro foi preso pela PF quando tentava embarcar em um jato particular.
Em uma escalada da crise entre os ministros, em 3 de setembro, dois dias após o seu nome aparecer no relatório, Moraes solicitou ao presidente da Corte, Edson Fachin, investigação contra André Mendonça na condução dos inquéritos sobre o Banco Master e fraude no INSS. Na decisão proferida no inquérito das fake news, Moraes afirma que há indícios da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça.
Na tentativa de intervir e amenizar os ânimos, Fachin determinou que o pedido de investigação de Mendonça feito por Moraes fosse retirado do inquérito das fake news. Fachin abriu um procedimento, sob sua relatoria, para apurar supostas irregularidades em investigações da PF que envolvem autoridades com foro na Corte.
O presidente também assumiu para si a relatoria de outras ações, como a que trata de conversas entre Moraes e Vorcaro. Além disso, Fachin determinou que a sessão desta terça-feira trate apenas do caso envolvendo Moraes e marcou para 23 de setembro a análise dos questionamentos sobre a atuação de Mendonça.















