
A ministra Cármen Lúcia pediu desculpas ao povo brasileiro durante a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) desta terça-feira (15). Ela afirmou que gostaria de ter contribuído para "acalmar a crise" que atinge a Corte.
A ministra antecipou sua fala mesmo após o pedido de vista feito pelo ministro Flávio Dino no fim da tarde. Ela explicou que não costuma antecipar o voto em situações como essa, mas pediu licença para fazer suas considerações sobre o caso. Com o pedido de vista, os trabalhos foram interrompidos, sem previsão de retomada.
— Eu peço desculpa ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente. Mas acho que todos nós aqui queríamos a mesma coisa, que era tentar resolver, e as questões não foram resolvidas e foram crescendo demais. Portanto, estou pedindo desculpas ao presidente do Supremo, a todos os colegas, mas ao povo brasileiro, porque realmente queria ter sido melhor e poder ter ajudado a acalmar as coisas e não consegui — lamentou a ministra.
Cármen Lúcia disse que a sua tristeza não se restringia ao tema em análise na sessão, mas também ao momento institucional vivido pelo STF, que se intensificou no início de setembro de 2026, após o levantamento do sigilo de relatórios da Polícia Federal (PF) produzidos no âmbito das investigações sobre fraudes financeiras envolvendo o Banco Master.
Entre os documentos, um relatório da Polícia Federal identificou mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes entre dezembro de 2023 e novembro de 2025, data em que o empresário foi preso pela primeira vez.
— Eu me encontro, como talvez muitos de meus colegas, em estado de profunda consternação e tristeza. Hoje, um dos colegas me dizia se eu estava contrariada com alguma coisa. Não, eu disse: eu estou triste não apenas pelo tema que nos traz aqui, mas porque este Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição por determinação expressa dela, provocou um mal-estar cívico em todas as cidadãs e cidadãos brasileiros nesses últimos dias — afirmou.
Assista à íntegra do voto de Cármen Lúcia
Sessão interrompida
Após pedido de vista do ministro Flávio Dino, o STF tem quatro votos a três para manter separada a análise das ações de Alexandre de Moraes e André Mendonça no caso Master. Não há previsão para retomada da sessão.
Os magistrados debateram o pedido de ordem do decano Gilmar Mendes, que solicitou análise conjunta dos casos envolvendo os magistrados da Corte. O mérito da sessão desta terça — em que o STF analisaria se autorizaria investigação contra Moraes — não foi analisado.
Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram para que os casos de Moraes e Mendonça sejam debatidos separadamente. Já Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes votaram para uma sessão conjunta.
A opinião dos colunistas de GZH sobre a crise no STF
Crise no STF
A sessão desta terça-feira (15) ocorreu em meio a uma crise institucional sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF). Os ministros analisam em plenário o relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mais de 50 mensagens enviadas pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a Alexandre de Moraes, que integra a Corte. Na sessão, o plenário decidirá se autoriza abertura de investigação de Moraes.
A polícia indica que Vorcaro se encontrou oito vezes com Moraes e pediu ajuda para conter ações contra o banco. O documento também cita a atuação do ministro na análise de um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
Presidida pelo ministro Edson Fachin, a sessão extraordinária desta terça foi considerada inédita porque envolve a discussão sobre um relatório da PF que tem como suspeito um membro do Supremo. A crise entre ministros envolve as investigações sobre a fraude bilionária do Banco Master, que se tornou pública no final do ano passado, com a liquidação da instituição financeira e com a prisão de Vorcaro, então dono do banco.
O primeiro ministro a aparecer em suposto envolvimento com Vorcaro foi Dias Toffoli — sorteado para ser relator do caso. Por isso, em fevereiro de 2026, o magistrado deixou a relatoria após o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, entregar a Fachin um documento listando indícios de conexões entre Vorcaro e Toffoli. As investigações apontam para negócios envolvendo o resort Tayayá, no Paraná, que tinha participação de empresas ligadas à família do ministro.
Depois disso, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria e pediu para a PF produzir o relatório que é analisado nesta sessão. O documento apresenta metadados extraídos do celular de Vorcaro, que indicam que Moraes teria editado uma versão do contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o banqueiro e o escritório de advocacia de sua esposa.
Em 1º de setembro deste ano, Mendonça derrubou o sigilo do relatório da PF que reúne mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. Em uma delas, o banqueiro teria perguntado ao ministro: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". O trecho teria sido enviado, conforme a PF, em 15 de novembro de 2025, um sábado. Em 17 de novembro, segunda-feira, o banqueiro foi preso pela PF quando tentava embarcar em um jato particular.
Em uma escalada da crise entre os ministros, em 3 de setembro, dois dias após o seu nome aparecer no relatório, Moraes solicitou ao presidente da Corte, Edson Fachin, investigação contra André Mendonça na condução dos inquéritos sobre o Banco Master e fraude no INSS. Na decisão proferida no inquérito das fake news, Moraes afirma que há indícios da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça.
Na tentativa de intervir e amenizar os ânimos, Fachin determinou que o pedido de investigação de Mendonça feito por Moraes fosse retirado do inquérito das fake news. Fachin abriu um procedimento, sob sua relatoria, para apurar supostas irregularidades em investigações da PF que envolvem autoridades com foro na Corte.
O presidente também assumiu para si a relatoria de outras ações, como a que trata de conversas entre Moraes e Vorcaro. Além disso, Fachin determinou que a sessão desta terça-feira trate apenas do caso envolvendo Moraes e marcou para 23 de setembro a análise dos questionamentos sobre a atuação de Mendonça.













