
O deputado federal Mario Frias (PL-SP) é alvo da Operação Make Up, que investiga o financiamento do filme Dark Horse, inspirado na vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Foram cumpridos 49 mandados na ação da Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU). Além do ex-secretário especial da Cultura, um dos alvos é Karina Ferreira da Gama, dona da Go UP Entertainment Ltd, produtora do longa.
Frias, Karina e os outros investigados estão proibidos de deixar o Brasil, conforme decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). O magistrado é responsável pelo caso na Corte e autorizou a operação. Os alvos também estão proibidos de falar entre si.
Conforme a PF, a operação apura indícios de desvios de recursos públicos de emendas parlamentares. São investigados os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios. As ordens de busca e apreensão ocorrem nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
O longa se tornou alvo de suspeitas em maio, após virem à tona conversas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), envolvendo pagamentos para viabilizar a produção cinematográfica.
Dark Horse teve mais de 90% de seu orçamento bancado com recursos de Vorcaro. O financiamento secreto foi tratado com Flávio mesmo depois da prisão do banqueiro por fraudes bilionárias, em novembro de 2025, segundo mensagens encontradas pela Polícia Federal em um dos celulares do empresário.
Mario Frias se manifestou
O deputado se pronunciou nas redes sociais nesta quinta-feira (10) e classificou a operação da PF da qual foi alvo como uma "cortina de fumaça".
— A investigação é sobre uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões que eu destinei para contemplar um projeto esportivo e outro de letramento digital para tirar crianças da rua, para ensinar crianças, jovens e adolescentes a se desenvolverem intelectualmente. Emenda pública, registrada, transparente, que qualquer um pode consultar no portal da transparência — disse.
— Se há alguma nota que a CGU quer ver, isso se resolve com documento, não com operação em ano de eleição, cortina de fumaça — completou.
Uso de emendas parlamentares
Em 2024, Mario Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina. A investigação da PF se debruçou sobre contratos celebrados pelo ICB e pela Academia Nacional de Cultura (ANC), também presidida por ela, com empresas ligadas a doadores de campanha de Frias, ex-assessores parlamentares e ao advogado do deputado. Segundo os investigadores, há suspeitas de que parte desses contratos tenha sido simulada ou fraudulenta.
A operação também mira outros alvos ligados a Frias e ao instituto, como ex-assessores parlamentares e pessoas contratadas para supostas prestações de serviços pelo instituto. Um dos alvos, por exemplo, é Raphael Augusto Azevedo, que foi chefe de gabinete do parlamentar.
A apuração identificou indícios de elaboração posterior e retrodatação de contratos, orçamentos e notas fiscais, para conferir aparência de legalidade às operações com emendas perante a CGU. Os investigadores apontam ainda a existência de um fluxo financeiro circular entre o parlamentar, as entidades, as empresas contratadas e a Go Up Entertainment. As movimentações somaram R$ 19 milhões entre novembro e dezembro de 2025.
Em agosto, o ministro Dino autorizou o compartilhamento, com a Polícia Federal, de dados apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo na Operação Wi-Fi, que teve Karina como um dos alvos. A investigação apura suspeitas de fraude, desvios em contratos e aditivos firmados entre a prefeitura de São Paulo e o ICB.
A própria Polícia Federal pediu acesso ao material para ampliar as investigações sobre suspeitas de desvio de recursos públicos, especialmente de emendas parlamentares, envolvendo a produtora de Karina. Segundo a corporação, "as investigações apontam a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados".
"As tentativas de dissimular os desvios teriam se estendidos até julho deste ano", frisam os investigadores. Levantamentos financeiros identificaram movimentação milionária entre as empresas que integram o esquema investigado.
Investigações no STF
Há dois inquéritos em curso na Corte envolvendo a produção de Dark Horse. O da operação atual é relatado por Dino e investiga suspeitas de uso irregular de emendas parlamentares por empresas e entidades ligadas à produtora do longa.
O segundo é supervisionado por Mendonça e apura os repasses do dono do Banco Master a Flávio e o caminho do dinheiro.
Delação premiada
A Procuradoria-Geral da República (PGR) fechou acordo de delação premiada recentemente com o empresário Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, dono da Entre Investimentos e Participações. A colaboração foi homologada na quarta-feira (9) pelo ministro André Mendonça.
A investigação aponta que a empresa teria sido usada como intermediária para repassar valores entre Vorcaro e a produção do filme. Os pagamentos eram feitos ao Havengate Development Fund, um fundo americano que administrava o dinheiro para o Dark Horse e encaminhava os recursos para a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa.



