Um equipamento usado por agentes de segurança para neutralizar drones chamou a atenção nesta terça-feira (15), em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília. O chamado fuzil antidrone integrou o esquema montado para a sessão extraordinária em que a Corte analisa a abertura de uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, a partir de mensagens atribuídas a ele e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Apesar do nome e do formato, o aparelho não dispara balas. Ele emite ondas de rádio direcionadas que embaralham a comunicação do drone com quem o pilota. Sem receber comandos, a aeronave aciona os próprios protocolos de emergência e, na maioria dos casos, pousa ou retorna ao ponto de onde decolou.
A segurança da sessão foi coordenada pelo STF em conjunto com órgãos federais e do Distrito Federal, com revistas, bloqueios, restrições no espaço aéreo e monitoramento de drones.
A Polícia Militar do DF anunciou o uso de drones com câmera térmica sobre a Praça dos Três Poderes e avisou que aparelhos não autorizados que sobrevoassem a área poderiam ser abatidos.
O que se sabe sobre o equipamento

O modelo usado nesta terça-feira não foi divulgado. Nas imagens, um agente carrega no ombro um aparelho cinza, de corpo achatado e alça vazada. Em Brasília, o equipamento mais conhecido do gênero é o DroneGun Tactical, fabricado pela empresa australiana DroneShield.
A Polícia Federal (PF) usou o aparelho na posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 1º de janeiro de 2023, para neutralizar drones que sobrevoavam a Esplanada dos Ministérios sem autorização. O mesmo tipo de arma apareceu em novembro de 2025 na Superintendência da PF, após a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e foi empregado durante a COP30, em Belém.
O DroneGun Tactical pesa cerca de sete quilos e reúne antenas direcionais e um painel de controle com sinais visuais e sonoros que ajudam o operador a mirar. O uso do modelo foi homologado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em setembro de 2021.
Mira e antenas direcionais
O formato de fuzil tem função prática: o que parece ser o cano abriga antenas de alto ganho, que concentram o sinal em uma direção.
O operador aponta o equipamento para o drone e aciona o gatilho. O aparelho então emite ondas de rádio que interferem na comunicação entre a aeronave e o piloto.
O sinal fica concentrado em um cone à frente do equipamento, reduzindo a interferência no entorno — embora outros aparelhos que usem as mesmas frequências, como roteadores Wi-Fi, também possam ser afetados. Por isso, o equipamento deve ser operado por agentes treinados.
Frequências bloqueadas
Drones comerciais dependem de ondas de rádio para receber comandos, transmitir imagens e, em alguns casos, se comunicar com sistemas de navegação. O fuzil antidrone interfere nessas comunicações ao emitir um sinal mais forte, que encobre o original. Os principais alvos são:
- Canal de comando: permite ao piloto enviar instruções ao drone, como subir, descer e virar. Muitos modelos usam frequências de 2,4 e 5,8 gigahertz (GHz), também utilizadas pelo wi-fi doméstico
- Transmissão de vídeo: os mesmos canais podem enviar em tempo real as imagens da câmera para a tela ou os óculos do piloto. No sistema FPV (visão em primeira pessoa), a interferência pode fazer o piloto perder o controle e a imagem
- Sinais de satélite: podem ser bloqueados sinais de navegação, como GPS e Glonass. Sem essas referências, o drone perde parte da capacidade de determinar sua posição e executar funções de navegação
- Redes de telefonia: alguns bloqueadores também interferem em frequências móveis, como 4G e 5G, usadas por drones que recebem comandos pela internet e podem operar a grandes distâncias.
O que acontece com o drone
O bloqueador não passa a controlar o drone. Após a perda de sinal, a reação depende das configurações de segurança da própria aeronave.
Ao selecionar as frequências que serão bloqueadas, o operador pode provocar respostas previstas pelo sistema. No caso do DroneGun Tactical, por exemplo, é possível forçar o pouso ou fazer o drone retornar ao ponto de partida.
Quando os sinais de comando e de navegação por satélite são bloqueados ao mesmo tempo, o drone pode iniciar a descida no próprio local. Sem a referência de posição, pode ser levado pelo vento até o chão, mas a tendência é que pouse inteiro, permitindo a apreensão pelos agentes.
Se apenas o canal de comando for bloqueado e o GPS continuar funcionando, o drone pode acionar o retorno automático ao ponto de partida, registrado na memória da aeronave. Essa rota também pode ajudar os agentes a identificar de onde o drone decolou e, eventualmente, localizar o piloto.
Por que as forças de segurança preferem a tecnologia
Derrubar um drone a tiros em uma área com circulação de pessoas envolve riscos: a aeronave pode cair sobre alguém, e os disparos podem atingir terceiros.
Com o bloqueio de sinais, o drone pode executar uma rotina de segurança, como pousar ou retornar ao ponto de partida, reduzindo esses riscos.
Outro benefício é a preservação do equipamento, que pode ser apreendido inteiro e servir de fonte de informações para uma investigação, como dados armazenados, número de série e outros vestígios.
A tecnologia, porém, tem limitações. Drones programados para voar de forma autônoma, sem depender de sinais externos, podem não ser afetados. O mesmo vale para aeronaves controladas por cabo de fibra óptica, tecnologia que ganhou espaço na guerra da Ucrânia.
O alcance também é limitado: segundo a fabricante, o DroneGun pode atingir drones a mais de um quilômetro e funcionar por até duas horas seguidas.




