
O Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta uma das mais agudas crises da sua história, cindido por grupos de disputa de poder entre ministros, em um jogo que se tornou explícito e tem como cabo de guerra as investigações das fraudes do Banco Master e do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Desde que o inquérito começou a tramitar na Corte, em dezembro de 2025, os ministros Dias Toffoli, primeiro relator do caso, e Alexandre de Moraes foram implicados em negociações com Vorcaro e seu grupo empresarial.
Um dia após revelações sobre contatos entre o investigado e Moraes, em que o ex-banqueiro supostamente pede conselhos para escapar da Polícia Federal, foi revelado que o atual relator do caso Master, o ministro André Mendonça, manteve encontro reservado com Vorcaro, em fevereiro de 2025.
A disputa irradia do STF para a Praça dos Três Poderes, com consequências e alinhamentos políticos que envolvem a eleição à Presidência da República deste ano e os interesses do Congresso Nacional.
Embora as alianças sejam móveis e difusas, o quadro mostra um lado capitaneado por Moraes e pelo ministro Gilmar Mendes, enquanto o outro tem Mendonça à frente. Os dois flancos reúnem outros ministros às órbitas.
— Parece existir dois grupos, mas eu não superestimaria o quão coesos eles são hoje ou serão em duas semanas. Diferentes núcleos se formaram e desformaram no tribunal ao longo dos anos e o que prevalece é o individualismo — afirma Ivar Hartmann, professor associado do Insper e pesquisador sobre o STF e o Poder Judiciário.
O analista destaca que a divisão da Corte acontece “sobre questões acessórias conjunturais de política e de disputa de poder individual”. Quando o tema é a investigação de um ministro do STF por suposto desvio de conduta, aponta Hartmann, o pleno costuma superar divergências e construir uma saída alternativa, mediante a coesão possível.
Os dois grupos não estão em desacordo sobre o papel do STF na democracia. Eles querem preservar a prerrogativa de não serem investigados. A primeira coisa que pensam é que, se votar pela investigação de um ministro agora, amanhã pode ser ele.
IVAR HARTMANN
Pprofessor associado do Insper e pesquisador sobre o Poder Judiciário
Para o pesquisador, o estado de equilíbrio se mantém porque os ministros do STF controlam os processos criminais dos senadores. E, no Senado, que tem responsabilidade de fiscalizar o STF, são exercidos os trâmites sobre os procedimentos de impeachment de magistrados da Corte.
— Existe um pacto implícito de não agressão — afirma Hartmann.
Um jurista com trânsito no STF ouvido sob anonimato aponta a existência de até quatro células no atual STF. Duas delas estão em conflito aberto. De um lado, o grupo de Moraes e Gilmar. O mesmo conjunto, em alguns momentos, ganha os reforços dos ministros Flávio Dino e Cristiano Zanin, ambos indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do lado oposto, estão Mendonça e Nunes Marques, os dois alçados ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, e o ministro Luiz Fux, cuja trajetória tem raízes no Rio de Janeiro.
No meio da disputa, essa visão alternativa aponta um grupo minoritário, de perfil discreto, cujo histórico é mais atrelado às discussões jurídicas, integrado por Fachin e pela ministra Cármen Lúcia. Desde o início do seu mandato na Presidência, Fachin tenta pautar a moralização da conduta com a adoção de um Código de Ética para os ministros, mas ele tem enfrentado resistências e críticas.
Nessa leitura, o ministro que resta no xadrez, Dias Toffoli, é descrito como uma figura desalinhada no atual curso da história. Ele não é identificado como parte sólida de nenhum dos grupos, está rompido com a esquerda desde a época da Lava Jato e ainda busca se recuperar após os desgastes no caso Master. Dois fatores são mencionados nos bastidores como merecedores de atenção: a previsão de que Moraes assuma a presidência do STF em 2027, pelo critério de antiguidade, e os inquéritos relatados por Dino sobre supostos desvios de recursos de emendas parlamentares, o que estaria catalisando insatisfação de parte do Congresso.
Caso Master e o STF, a cronologia:
- A investigação começou na Justiça Federal em Brasília, apurando a compra do Master pelo BRB. Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez, na Operação Compliance Zero, em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto de Guarulhos.
- Em dezembro de 2025, o caso subiu para o STF porque surgiram suspeitas sobre a participação de autoridades com foro privilegiado. Dias Toffoli foi sorteado relator.
- A primeira descoberta de grande impacto para o STF aconteceu ainda em dezembro de 2025: o escritório de advocacia de Viviani Barci, esposa do ministro Moraes, tinha um contrato assinado com o Banco Master válido por três anos, com pagamento total de R$ 129 milhões.
- Já no contexto de turbulência, Toffoli determinou acareações nos dias finais de 2025 e autorizou operação da Polícia Federal em janeiro para apurar esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e familiares de Vorcaro, como o pai, a irmã e o cunhado. Neste momento, a investigação já não tratava apenas da compra do banco pelo BRB.
- Em fevereiro, a Polícia Federal entregou a Fachin, presidente do STF, um relatório mostrando troca de mensagens entre Vorcaro e Fabiano Zettel, seu cunhado. Eles discutem pagamentos para a Maridt. A empresa tinha Toffoli entre os sócios e era administrada por irmãos do ministro. Os pagamentos foram originários de uma negociação empresarial: a Maridt era dona de 33% do Resort Tayayá, no Paraná, vendido parcialmente em 2021 para o fundo Arleen, parte do complexo de negócios de Vorcaro.
- A PF sustentou que Toffoli era suspeito para seguir na relatoria, enquanto o ministro defendeu que sua atuação como sócio em empresa, sem função de administração, era permitida pela Lei Orgânica da Magistratura.
- As pressões fizeram Toffoli deixar a relatoria das investigações sobre o Banco Master em 12 de fevereiro. Contudo, ministros da Corte divulgaram nota afirmando “não ver motivos” para a suspeição de Toffoli. Dez dias depois, Fachin arquivou o relatório da PF que colocou Toffoli sob desconfiança.
- O ministro Mendonça foi sorteado o novo relator do caso Master no STF, a mesma tarefa que ele já exercia na Operação Sem Desconto, que apura fraudes no INSS, cujos desdobramentos resultaram em investigações sobre Fábio Luis Lula da Silva, filho de Lula.
- Mendonça passou a dar andamento célere ao caso Master e aconteceram atritos com a PF, que teria apontado interferência na condução da investigação.
- Um encontro entre Mendonça e integrantes da PF teria acontecido em 24 de agosto, sob solicitação do ministro. Teria ocorrido a determinação para que identificassem, em 72 horas, todas as pessoas mencionadas em um conjunto de mensagens no celular de Vorcaro, inclusive detentores de foro no STF.
- Na terça-feira (1º), se tornaram públicas mensagens que teriam sido enviadas por Vorcaro a Moraes em que ele pergunta, entre outras coisas, sobre a viabilidade de um prazo para que ele saísse do Brasil antes de ser preso, em 2025.
- Mendonça retirou o sigilo do documento e sugeriu que o relatório da PF com as mensagens e outras informações seja analisado no plenário do STF. A Procuradoria-Geral da República (PGR), no mesmo dia, pede a nulidade do relatório sob justificativa de que uma autoridade foi investigada sem autorização.
- A crise se estendeu nesta quarta-feira (2), quando foi noticiado que Mendonça manteve um encontro fora da agenda, em fevereiro de 2025, em São Paulo, com Vorcaro. A pauta seria interesses do Master relacionados à atuação do Banco Central. Não ficou demonstrado que Mendonça tomou qualquer iniciativa após o encontro.


