Os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça trocaram farpas durante a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF), realizada no plenário da Corte nesta terça-feira (15).
O objetivo da sessão é avaliar se há elementos que justifiquem a abertura de uma investigação contra Alexandre de Moraes a partir do material produzido pela Polícia Federal (PF) no caso Master.
Mais cedo, Mendonça e Moraes já haviam protagonizado um debate acalorado no plenário. Às vésperas do intervalo da sessão, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a fala e afirmou não ter relacionamento e proximidade com o ex-banqueiro.
Na sequência, Mendonça iniciou uma manifestação, mas foi interrompido por Mendes, o que foi o estopim para um novo bate-boca na sessão:
— É impressionante que uma pessoa da estatura do Gonet sofra esse tipo de ilação. Isso sim é leviandade. Um sujeito investido de um sentimento pocialesco junto com seus delegados — disse Gilmar, ao interromper Mendonça.
Mendonça, então, reagiu:
— Presidente, agora sou eu quem estou com a palavra.
Gilmar rebateu:
— É impressionante a desfaçatez desse sujeito.
Mendonça, então, atacou:
— A desfaçatez de vossa excelência. Me respeite.
Após o bate-boca, o ministro Flávio Dino pediu vista às 17h48min.
— Eu tenho que interromper esta situação porque nós temos uma questão de ordem. Nós não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior, e a sociedade está assistindo a algo diferente do rito que a lei manda — disse Dino.
Apesar do pedido de vista, Fachin deu prosseguimento à sessão, que foi interrompida após as 18h sem definição sobre os casos de Moraes e Mendonça.
Crise no STF
A sessão desta terça-feira ocorre em meio a uma crise institucional sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF). Os ministros analisam em plenário o relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mais de 50 mensagens enviadas pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a Alexandre de Moraes, que integra a Corte. Na sessão, o plenário decidirá se autoriza abertura de investigação de Moraes.
A polícia indica que Vorcaro se encontrou oito vezes com Moraes e pediu ajuda para conter ações contra o banco. O documento também cita a atuação do ministro na análise de um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
Presidida pelo ministro Edson Fachin, a sessão extraordinária desta terça é considerada inédita porque envolve a discussão sobre um relatório da PF que tem como suspeito um membro do Supremo. A crise entre ministros envolve as investigações sobre a fraude bilionária do Banco Master, que se tornou pública no final do ano passado, com a liquidação da instituição financeira e com a prisão de Vorcaro, então dono do banco.
O primeiro ministro a aparecer em suposto envolvimento com Vorcaro foi Dias Toffoli — sorteado para ser relator do caso. Por isso, em fevereiro de 2026, o magistrado deixou a relatoria após o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, entregar a Fachin um documento listando indícios de conexões entre Vorcaro e Toffoli. As investigações apontam para negócios envolvendo o resort Tayayá, no Paraná, que tinha participação de empresas ligadas à família do ministro.
Depois disso, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria e pediu para a PF produzir o relatório que é analisado nesta sessão. O documento apresenta metadados extraídos do celular de Vorcaro, que indicam que Moraes teria editado uma versão do contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o banqueiro e o escritório de advocacia de sua esposa.
Em 1º de setembro deste ano, Mendonça derrubou o sigilo do relatório da PF que reúne mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. Em uma delas, o banqueiro teria perguntado ao ministro: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". O trecho teria sido enviado, conforme a PF, em 15 de novembro de 2025, um sábado. Em 17 de novembro, segunda-feira, o banqueiro foi preso pela PF quando tentava embarcar em um jato particular.
Em uma escalada da crise entre os ministros, em 3 de setembro, dois dias após o seu nome aparecer no relatório, Moraes solicitou ao presidente da Corte, Edson Fachin, investigação contra André Mendonça na condução dos inquéritos sobre o Banco Master e fraude no INSS. Na decisão proferida no inquérito das fake news, Moraes afirma que há indícios da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça.
Na tentativa de intervir e amenizar os ânimos, Fachin determinou que o pedido de investigação de Mendonça feito por Moraes fosse retirado do inquérito das fake news. Fachin abriu um procedimento, sob sua relatoria, para apurar supostas irregularidades em investigações da PF que envolvem autoridades com foro na Corte.
O presidente também assumiu para si a relatoria de outras ações, como a que trata de conversas entre Moraes e Vorcaro. Além disso, Fachin determinou que a sessão desta terça-feira trate apenas do caso envolvendo Moraes e marcou para 23 de setembro a análise dos questionamentos sobre a atuação de Mendonça.



