
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino derrubou nesta quinta-feira (10) o sigilo da ação sobre o filme Dark Horse, que conta a história de Jair Bolsonaro. A investigação da Polícia Federal (PF) apura se houve desvio de emendas parlamentares para financiar o longa.
O relatório da PF faz parte da decisão do ministro que autorizou a operação para o cumprimento de mandados de busca e apreensão contra o deputado Mario Frias, a produtora do filme, Karina Gama, e outros investigados.
Coincidências de movimentações financeiras
No relatório, a PF aponta a existência de coincidências nas movimentações financeiras envolvendo a empresa responsável pelo filme, a Go Up Entertainment, e o envio de recursos de emendas parlamentares pelo deputado federal Mario Frias (PL-RJ) a duas ONGs chefiadas por Karina Gama, produtora do filme e dona da Go Up.
Os investigadores apontam suspeitas de que até R$ 2 milhões de verbas de emendas parlamentares podem ter sido usadas para custear hospedagem em hotel de alto padrão, refeições e pagamentos a outras produtoras ligadas ao longa.
Segundo o relatório, Frias "teria direcionado verbas federais, via termos de fomento custeados por emendas parlamentares, repassadas às Organizações Sociais denominadas Instituto Conhecer Brasil (ICB) e Academia Nacional de Cultura (ANC) — ambas presididas por Karina Ferreira da Gama, pessoa com registro de vínculos com o parlamentar federal — para custear contratos celebrados de forma fraudulenta e cuja execução não atendeu às finalidades previstas nos instrumentos contratuais".
"Tais fatos chamam a atenção porque, como cediço, a Go Up Entertainment é a empresa responsável pelo filme Dark Horse, acerca da trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, que tem como produtor executivo o Deputado Federal Mario Frias. Nesse sentido, segundo fontes abertas, o filme foi gravado justamente em São Paulo, entre 20 de outubro e 07 de dezembro de 2025. Assim, chama a atenção a coincidência temporal das gravações com o período da referida comunicação (10/11/2025 a 30/12/2025), bem como a natureza das despesas, que envolvem hotel de alto padrão e refeições, além de despesas com produtoras", diz o relatório da PF.
O longa se tornou alvo de suspeitas em maio, após virem à tona conversas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), envolvendo pagamentos para viabilizar a produção cinematográfica.
Dark Horse teve mais de 90% de seu orçamento bancado com recursos de Vorcaro. O financiamento secreto foi tratado com Flávio mesmo depois da prisão do banqueiro por fraudes bilionárias, em novembro de 2025, segundo mensagens encontradas pela Polícia Federal em um dos celulares do empresário.
Proibição de deixar o país
Flávio Dino também proibiu Mario Frias de deixar o país e manter contato com outros investigados. A determinação recai também sobre todos os 29 alvos da operação desta quinta-feira.
"A medida mostra-se especialmente necessária diante dos indícios de atuação coordenada entre os investigados, evidenciada pelos fluxos financeiros identificados entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Academia Nacional de Cultura (ANC) e as empresas relacionadas à execução dos Termos de Fomento investigados, bem como pela existência de vínculos operacionais, financeiros e pessoais entre diversos dos envolvidos", diz trecho da decisão.
Mario Frias se manifestou
O deputado se pronunciou nas redes sociais nesta quinta-feira (10) e classificou a operação da PF como uma "cortina de fumaça".
— A investigação é sobre uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões que eu destinei para contemplar um projeto esportivo e outro de letramento digital para tirar crianças da rua, para ensinar crianças, jovens e adolescentes a se desenvolverem intelectualmente. Emenda pública, registrada, transparente, que qualquer um pode consultar no portal da transparência — disse.
— Se há alguma nota que a CGU quer ver, isso se resolve com documento, não com operação em ano de eleição, cortina de fumaça — completou.
Deputados Marcos Pollon e Bia Kicis também são apontados em relatório
A investigação da PF aponta também, segundo o g1, que os deputados federais Marcos Pollon (PL-MS) e Bia Kicis (PL-DF) também assinaram emendas para uma organização presidida por Karina. Contudo, a verba não chegou a ser repassada por conta de problemas no contrato que garantiria o pagamento.
Os parlamentares são citados no relatório da Polícia Federal usado para embasar a decisão de Dino.
A operação
No âmbito da Make Up, ação da Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), foram cumpridos 49 mandados. Além de Frias e Karina, são alvo da investigação ex-assessores parlamentares e pessoas contratadas para supostas prestações de serviços pelo instituto da produtora. Um deles é Raphael Augusto Azevedo, que foi chefe de gabinete do parlamentar.
A apuração identificou indícios de elaboração posterior e retrodatação de contratos, orçamentos e notas fiscais, para conferir aparência de legalidade às operações com emendas perante a CGU. Os investigadores apontam ainda a existência de um fluxo financeiro circular entre o parlamentar, as entidades, as empresas contratadas e a Go Up Entertainment. As movimentações somaram R$ 19 milhões entre novembro e dezembro de 2025.
Em agosto, o ministro Dino autorizou o compartilhamento, com a Polícia Federal, de dados apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo na Operação Wi-Fi, que teve Karina como um dos alvos. A investigação apura suspeitas de fraude, desvios em contratos e aditivos firmados entre a prefeitura de São Paulo e o ICB.
Investigações no STF
Há dois inquéritos em curso na Corte envolvendo a produção de Dark Horse. O da operação atual é relatado por Dino e investiga suspeitas de uso irregular de emendas parlamentares por empresas e entidades ligadas à produtora do longa.
O segundo é supervisionado por Mendonça e apura os repasses do dono do Banco Master a Flávio e o caminho do dinheiro.



