
Em depoimento à Polícia Federal (PF) nesta quarta-feira (30), Daniel Vorcaro negou ter ordenado atos de violência contra desafetos e afirmou que não tentou fugir do Brasil para escapar da prisão. As informações são dos jornais O Globo e Estadão.
O ex-dono do Banco Master foi ouvido no âmbito do inquérito que investiga a atuação da chamada "A Turma", coordenada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de Sicário, que morreu em março deste ano.
Segundo os investigadores, o grupo funcionaria como uma milícia privada a serviço do banqueiro. Entre as suspeitas estão ameaças e agressões contra desafetos, acesso indevido a investigações sigilosas e obstrução da Justiça.
Durante o interrogatório, Vorcaro afirmou que não houve vítimas relacionadas ao grupo e classificou como "desabafo" conversas em que mencionou "ir para cima" de desafetos.
A defesa, representada pelos advogados Sergio Leonardo e Daniel Bialski, afirmou que Vorcaro "jamais praticou, determinou ou se envolveu" em atos de violência, intimidação, perseguição ou ameaça, e que ele tem "perfil pacífico".
"O investigado jamais praticou, determinou ou se envolveu em qualquer ato de violência, intimidação, perseguição ou ameaça contra quem quer que seja, fato que é reconhecido nos autos pelos próprios investigadores e pelas testemunhas já ouvidas", diz a nota divulgada pela defesa.
"Ressalta-se que após 8 meses de investigações, não há nenhuma vítima dos supostos fatos citados na portaria inaugural do Inquérito Policial", acrescenta a defesa sobre o assunto.
Além de Vorcaro, o pai dele, Henrique Vorcaro, também prestou depoimento à Polícia Federal. As oitivas foram realizadas por videoconferência. O ex-banqueiro está preso no 19º Batalhão da Polícia Militar, a Papudinha, em Brasília enquanto o pai dele está em Minas Gerais.
Tentativa de fuga
A defesa de Vorcaro também afirmou que ele negou, em depoimento, que a tentativa de embarcar em uma aeronave privada, às vésperas da prisão, tenha sido uma tentativa de fuga após receber informações sigilosas sobre as investigações.
"Ficou demonstrada também a inexistência de qualquer plano de fuga, uma vez que há provas cabais de que Daniel Vorcaro havia feito prévia comunicação da viagem a diversas autoridades, bem como reservas antecipadas de hotel e salas de reunião e registro de plano de voo. Vale rememorar que a ordem de prisão só foi expedida bem após tais providências, às 15h29 do dia 17 de novembro de 2025", diz o texto.
"Foi esclarecido que a ciência sobre procedimentos investigatórios era legítima e decorria do acompanhamento prestado por seus advogados e assessores, além de notícias veiculadas pela imprensa, no interesse de esclarecer quaisquer fatos de forma proativa. Causa enorme perplexidade que mensagens protegidas por sigilo legal, entre Daniel Vorcaro e seus advogados, sejam ilegalmente devassadas, vazadas e utilizadas para narrativas fantasiosas”, complementa a nota.
Os advogados também pediram ao Supremo Tribunal Federal (STF) a "imediata soltura" de Vorcaro.
"Diante do conjunto de esclarecimentos prestados, a Defesa ratifica a possibilidade, nos termos da legislação vigente e do entendimento pacífico do STF, que Daniel Vorcaro possa, mediante condições, aguardar o desfecho das investigações em liberdade, sobretudo porque está preso sem qualquer acusação formal ou denúncia em seu desfavor, após quase um ano do início da Operação Compliance Zero. Não resta dúvida de que os motivos que ensejaram a prisão não mais persistem", conclui o texto.
Relembre o caso
Daniel Vorcaro deveria ter prestado depoimento na semana passada, mas a oitiva foi adiada a pedido da defesa. Os advogados alegaram que ainda não haviam recebido a versão atualizada dos autos e solicitaram mais tempo para analisar o material. Na ocasião, afirmaram que o banqueiro tinha "total interesse" em depor e que o pedido buscava garantir acesso prévio aos elementos já reunidos na investigação.
A investigação da PF apura a atuação de dois grupos que seriam utilizados por Vorcaro para monitorar e intimidar pessoas contrárias a seus interesses e obter informações sigilosas. Batizados de "A Turma" e "Os Meninos", os núcleos teriam funções complementares.
Segundo a PF, "A Turma" seria responsável por ameaças, intimidações presenciais, coerções, levantamentos clandestinos e acessos indevidos a sistemas governamentais. Já "Os Meninos" atuariam na área tecnológica, com suspeitas de ataques cibernéticos, invasões de dispositivos e sistemas, derrubada de perfis e monitoramento ilegal de comunicações telefônicas e telemáticas.
Conforme as investigações, hackers contratados pelo grupo receberiam R$ 75 mil mensais para realizar ataques e invasões cibernéticas.
Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro, é apontado pelos investigadores como operador financeiro de "A Turma", que seria comandada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário. Preso por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), Mourão tentou se matar na carceragem da Polícia Federal em Minas Gerais e morreu dias depois, no hospital, em decorrência do ato.

