Durante a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF) desta terça-feira (15), o ministro Alexandre de Moraes chamou de "patética" a alegação do colega André Mendonça de que as suspeitas contra ele no caso Master são fruto de "monitoramento ilegal de ministros" por parte da Polícia Federal. Mendonça reagiu, afirmando que a declaração "não é verdade" (veja o momento no vídeo acima).
A discussão ocorreu no âmbito da votação da questão de ordem do ministro Gilmar Mendes que pede que os casos de Moraes e Mendonça sejam apreciados de forma conjunta.
— Todas as polícias têm relatórios de inteligência que são oficiais, não houve monitoramento algum. Com todo respeito, chega a ser patética essa alegação — diz Moraes.
— O documento fala isso — responde Mendonça.
— O que há é um documento que já estava registrado, e, como eu disse, presidente, é muito fácil saber se o que consta no relatório de inteligência é verdadeiro ou não. Basta intimar as testemunhas. E por que isso? No mundo todo, relatórios de inteligência são tratados como meios de obtenção de prova, assim como as colaborações premiadas. O ministro André tem total razão. O relatório de inteligência não é prova — destaca Moraes.
— E não é meio de obtenção de prova — dispara Mendonça.
— Basta chamar os policiais que participaram e que várias e várias vezes afirmaram que o ministro André indagou e solicitou que me colocasse na investigação — diz Moraes.
— Meu Deus do céu — reage Mendonça.
— E aqui, presidente, e aqui é importante também dizer, e aqui o fato é objetivo, o ministro André acabou de falar que a Polícia Federal mandou dados sobre, eventualmente, o Procurador-Geral e, a partir disso, surgiu uma... não é verdade, presidente — afirma Moraes.
— Está nas informações — diz Mendonça.

Antes disso, Moraes pediu a palavra e defendeu que o plenário do Supremo analise a solicitação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que pede a extinção da petição 16.662 (PET).
— O que o plenário tem que analisar? O pedido da Procuradoria, é um pedido expresso, não é um pedido tácito. É um pedido expresso. Qual o pedido? Extinção da PET. Se extinguir a PET, por qual motivo? Nulidade, mas o pedido é a extinção. Então, presidente, essa é uma questão que deve ser analisada, porque há um pedido expresso, há um pedido claro: extinção da PET. Chame-se como quiser, extinção, explosão, arquivamento — disse o magistrado.
Entenda o contexto da sessão
A sessão desta terça-feira (15) ocorre em meio a uma crise institucional sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF). Os ministros analisam, em plenário, o relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mais de 50 mensagens enviadas pelo ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a Alexandre de Moraes, que integra a Corte. Na sessão, o plenário decidirá se autoriza abertura de investigação de Moraes.
A polícia indica que Vorcaro se encontrou oito vezes com Moraes e pediu ajuda para conter ações contra o banco. O documento também cita a atuação do ministro na análise de um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
Presidida pelo ministro Edson Fachin, a sessão extraordinária desta terça é considerada inédita porque envolve a discussão sobre um relatório da PF que tem como suspeito um membro do Supremo. A crise entre ministros envolve as investigações sobre a fraude bilionária do Banco Master, que se tornou pública no final do ano passado, com a liquidação da instituição financeira e com a prisão do então dono Daniel Vorcaro.
O primeiro ministro a aparecer em suposto envolvimento com Vorcaro foi Dias Toffoli — sorteado para ser relator do caso. Por isso, em fevereiro de 2026, Toffoli deixa a relatoria após o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, entregar a Fachin um documento listando indícios de conexões entre Vorcaro e Toffoli. As investigações apontam para negócios envolvendo o resort Tayayá, no Paraná, que tinha participação de empresas ligadas à família de Toffoli.
Depois disso, o ministro André Mendonça assume a relatoria e pede para a PF produzir o relatório que é analisado nesta sessão. O documento apresenta metadados extraídos do celular de Vorcaro que indicam que Moraes teria editado uma versão do contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o ex-banqueiro e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
No dia 1º de setembro deste ano, Mendonça então derruba o sigilo do relatório da PF que reúne mensagens trocadas entre o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro do STF Alexandre de Moraes.
Em uma troca de mensagens, o ex-banqueiro teria perguntado ao ministro: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". O trecho teria sido enviado, conforme a PF, em 15 de novembro de 2025, um sábado. Em 17 de novembro, segunda-feira, Vorcaro foi preso pela PF quando tentava embarcar em um jato particular.
Em uma escalada da crise entre os ministros, em 3 de setembro, dois dias após seu nome aparecer no relatório, Moraes solicitou ao presidente da Corte, Edson Fachin, investigação contra André Mendonça na condução dos inquéritos sobre o Banco Master e fraude no INSS. Na decisão proferida no inquérito das fake news, Moraes afirma que há indícios da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça.
Na tentativa de intervir e amenizar os ânimos, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determina que o pedido de investigação de Mendonça feito por Moraes seja retirado do inquérito das fake news. Fachin abre um procedimento, sob sua relatoria, para apurar supostas irregularidades em investigações da PF que envolvem autoridades com foro na Corte.
O presidente também assume para si a relatoria de outras ações, como a que trata de conversas entre Moraes e Vorcaro. Além disso, Fachin determina que a sessão desta terça-feira trate apenas do caso envolvendo Moraes e marca para 23 de setembro a análise dos questionamentos sobre a atuação de Mendonça.



