
A crise em torno do Banco Master atravessou mais um dia sem dar sinais de trégua. Ao longo deste sábado (12), o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, assumiu a relatoria da discussão sobre a suposta relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro e determinou que o tema seja analisado separadamente dos questionamentos sobre a atuação de André Mendonça. O envolvimento de magistrados no caso está no centro de uma crise interna na Corte.
A decisão ocorre antes da sessão extraordinária marcada para terça-feira (15), quando os ministros deverão analisar o relatório da Polícia Federal (PF) sobre as mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro. Fachin deverá conduzir a sessão e, segundo a expectativa, apresentar o relatório e ser o primeiro a votar.
O sábado também foi marcado pela divulgação de uma segunda leva de materiais cujo sigilo havia sido retirado por Mendonça na sexta-feira (11). Ao todo, 53 procedimentos foram liberados para consulta, com informações sobre a produção de Dark Horse, negócios de Vorcaro e sua relação com políticos.
Fachin assume relatoria e separa análises sobre Moraes e Mendonça
A decisão de Fachin de tirar Mendonça da relatoria colocou o presidente do STF no comando da discussão que será levada ao plenário na terça-feira. O ministro determinou que a sessão trate exclusivamente da situação envolvendo Moraes. Já a ação que questiona a atuação de Mendonça como relator do caso Master foi marcada para 23 de setembro.
A medida contraria o pedido feito por Moraes para que os dois assuntos fossem analisados conjuntamente. Na sexta-feira (11), o ministro afirmou que a separação poderia prejudicar a apreciação do conjunto dos fatos e classificou como seletiva a retirada de sigilo de parte dos documentos. Também pediu que todos os procedimentos relacionados ao processo fossem tornados públicos.
Na nova decisão, Fachin também determinou a remessa à Presidência do STF dos processos relacionados às investigações sobre as fraudes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do Banco Master. Os procedimentos ficarão paralisados até nova decisão. Fachin poderá decidir se assume a relatoria dessas apurações ou se leva a questão para análise do plenário.
PF terá de informar situação dos dados do celular de Vorcaro
Em outra decisão neste sábado, Fachin deu prazo de 24 horas para que a Polícia Federal informe as condições de custódia e o estado do material extraído dos celulares de Daniel Vorcaro.
A medida veio depois que Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes pediram acesso à íntegra dos dados. Mendonça informou ao presidente do STF que mantém em seu gabinete uma cópia de segurança do material, lacrada e nunca manuseada. Segundo o relator, o conteúdo original permanece sob custódia da Polícia Federal.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) também defendeu que os ministros tenham acesso ao material antes da sessão de terça-feira.
O que mostram os documentos liberados
Produtora de Dark Horse pagou faturas de Mario Frias
Os documentos agora públicos acrescentaram informações à apuração sobre o financiamento de Dark Horse. Segundo material analisado pela PF, a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme, pagou pelo menos quatro faturas do cartão de crédito do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que atua como roteirista e produtor-executivo do longa.
Os pagamentos ocorreram entre agosto e novembro de 2025 e variaram de R$ 32,6 mil a R$ 36,8 mil. Mais de 90% do orçamento do filme teria sido bancado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, segundo informações que já haviam vindo a público.
A apuração busca identificar possíveis cruzamentos entre dinheiro privado, recursos de emendas parlamentares e a produção do longa. Frias foi alvo de uma operação da PF na quinta-feira (10), que investiga suspeitas de desvio de recursos públicos e de emendas para o financiamento do filme.
Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, também voltou a falar sobre o assunto neste sábado, durante um comício em Cabo Frio (RJ). Ele afirmou novamente que os repasses de Vorcaro estavam relacionados a um negócio privado e defendeu a divulgação de outros documentos das investigações.
— Eu sempre disse que não tem absolutamente nada de errado nesse filme. Estou muito tranquilo, o impacto é zero — afirmou.
Neste domingo (13), o ministro Flávio Dino, do STF, levantou o sigilo da investigação da Polícia Civil (PC) de São Paulo que apura o financiamento do filme e determinou que todo o material bruto extraído de celulares de pessoas físicas e jurídicas investigadas seja entregue à Polícia Federal (PF).
A investigação conduzida em São Paulo apura movimentações envolvendo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), empresas contratadas pela entidade e a produtora Go Up. Parte da apuração envolve recursos públicos destinados ao ICB.
Dino afirmou haver conexão entre essa investigação e outra apuração, já em andamento no STF, sobre supostos desvios de recursos provenientes de emendas parlamentares. Por isso, justifica a decisão de reunir as investigações sob uma única relatoria.
Contratos do escritório de Viviane Barci de Moraes
O material divulgado também detalha uma proposta de R$ 50 milhões entre a Viking Participações Ltda., controlada por Daniel Vorcaro, e a Barci de Advogados, escritório associado a Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Segundo a minuta, R$ 40 milhões dos honorários seriam pagos por meio de participações em empresas donas de um jato executivo Legacy 650 e de um helicóptero Airbus EC 155 B1. Os R$ 10 milhões restantes seriam destinados a despesas relacionadas às aeronaves.
O escritório afirma que a proposta não foi aceita e que nenhum contrato foi assinado. A Viking foi condenada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a pagar multa de R$ 10 milhões em um processo relacionado a fraudes com cotas do fundo imobiliário Brazil Realty.
O que está em jogo na próxima semana
Mais do que a análise do relatório da PF, a sessão de terça-feira definirá os próximos passos da apuração envolvendo Moraes. Entre as possibilidades estão a aceitação ou não do pedido de nulidade da Procuradoria-Geral da República e a decisão sobre abrir ou arquivar uma investigação envolvendo o ministro.
A PGR manifestou-se contra a apuração, defendendo que a ordem dada por André Mendonça para rastrear os interlocutores de Vorcaro é nula. O argumento é que Mendonça teria produzido provas por iniciativa própria, o que poderia violar o sistema acusatório, além de ter avançado sobre uma competência que seria do plenário do STF. Se os ministros concordarem com a PGR, as provas obtidas a partir dessa ordem, incluindo as mensagens que envolvem Moraes, poderão ser consideradas inválidas e retiradas da apuração.
Outro ponto que pode gerar desdobramentos é a resposta da Polícia Federal à solicitação de Fachin sobre a custódia e a situação dos dados extraídos do celular de Vorcaro. As informações podem influenciar a análise do material pelos ministros.
Já os questionamentos sobre a atuação de Mendonça ficaram formalmente separados por decisão de Fachin e deverão ser analisados em uma sessão específica, marcada para 23 de setembro.
Em linha do tempo, entenda a escalada da crise no STF
1º/9 — Metadados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, indicam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) editou uma versão do contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o banqueiro e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
1º/9 — O ministro André Mendonça derruba o sigilo do relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mensagens trocadas entre o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro do STF Alexandre de Moraes.
3/9 — Áudios divulgados revelam que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) manteve contato com o empresário Daniel Vorcaro, pedindo ajuda para a liberação de um ativo minerário e afirmando o desejo de estreitar laços políticos, embora o parlamentar negue irregularidades.
4/9 — A Procuradoria-Geral da República (PGR), chefiada por Paulo Gonet, anuncia que vai investigar a ocorrência de possível interferência externa ou irregularidades na elaboração de um relatório da Polícia Federal que tratava da relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
8/9 — O ministro André Mendonça determina o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal (PF), apontando supostas irregularidades em relatórios de inteligência e o monitoramento de autoridades da Corte.
9/9 — Um dia após o afastamento determinado por Mendonça, o ministro Flávio Dino atua para reintegrar Andrei Rodrigues ao comando da direção da Polícia Federal.
9/9 — No final do dia, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, suspende a decisão monocrática de André Mendonça que havia afastado o diretor-geral da PF, buscando conter a escalada de atritos institucionais na cúpula do Judiciário.
10/9 — O ministro André Mendonça atende ao pedido do presidente da Corte e retira o sigilo do caso Master. A solicitação de Fachin ocorre minutos após o presidente do Supremo passar a tarde em consultas internas na Corte.
11/9 — Uma nova leva de documentos revela, entre outros pontos, a investigação sobre Flávio Bolsonaro no financiamento de Dark Horse, suspeitas envolvendo Ciro Nogueira, Cláudio Castro e Jaques Wagner e novos elementos sobre as relações entre Vorcaro e integrantes do STF.
11/9 — A PGR e ministros do STF passam a pressionar pelo acesso integral aos dados extraídos dos celulares de Vorcaro antes da sessão de terça-feira.
11/9 — Mendonça afirma que divulgou todos os documentos que estavam disponíveis e informa que mantém uma cópia de segurança dos dados dos celulares de Vorcaro, lacrada em seu gabinete.
12/9 — Fachin determina que a sessão de terça-feira trate apenas do caso envolvendo Moraes e marca para 23 de setembro a análise dos questionamentos sobre a atuação de Mendonça.
12/9 — Fachin dá 24 horas para que a PF informe a situação e as condições de custódia dos dados extraídos dos celulares de Vorcaro.
12/9 — Fachin assume relatoria de ação sobre conversas entre Moraes e Vorcaro e pede para que o material dos casos Master e INSS seja enviado à Presidência da Corte.
13/9 — Flávio Dino derruba o sigilo sobre o material da Polícia Civil (PC) de São Paulo, que apura o financiamento do filme Dark Horse.


