
O embaixador Celso Amorim, chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, afirmou nesta quarta-feira (12) que a diplomacia dos Estados Unidos mira também o Brasil e tenta relativizar a soberania brasileira com o vídeo do Departamento de Estado sobre seu domínio na América Latina.
Divulgado pelo Departamento de Estado na terça-feira (11) nas redes sociais, o vídeo retoma a origem da Doutrina Monroe e anuncia que "o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado".
— Quem tiver visto o vídeo que foi divulgado ontem pelo Departamento de Estado verá que o que se quer fazer é justamente relativizar a soberania dos países latino-americanos em geral, inclusive, naturalmente, o Brasil. Não é mencionado especificamente, mas é assim — disse Celso Amorim.
O ex-chanceler brasileiro, mais influente conselheiro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre política externa, compareceu em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (Creden) da Câmara dos Deputados, a convite da oposição.
O ex-ministro das Relações Exteriores disse também que o foco da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos é uma grande "novidade" na diplomacia, com a centralidade dada ao chamado "Hemisfério Ocidental" — termo usado pelos americanos para se referir às Américas.
— O documento afirma expressamente que os Estados Unidos reafirmarão e implementarão os princípios da Doutrina Monroe, apresentados como instrumento para restaurar a preeminência americana na região e assegurar interesses estratégicos dos Estados Unidos em nosso continente — disse o ex-ministro.
— Entre os objetivos elencados, destacam-se o fortalecimento da segurança nacional contra ameaças regionais, a ampliação do acesso a recursos considerados críticos e a contenção da influência de potências extrarregionais — completou Amorim.
O diplomata citou, mais uma vez, que o vídeo apresentado pelo embaixador americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera, revela "o amplo significado dessa decisão". Amorim disse que o vídeo é "educativo" sobre os riscos de uma ação militar americana em outros países, inclusive no Brasil, porque Cabrera indica que algo similar pode ocorrer em outros países.
Exemplo de Maduro
Entre os casos mencionados, está a Operação Resolução Absoluta, de 3 de janeiro, que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro. A operação militar autorizada por Trump foi citada como exemplar no vídeo promocional do Departamento de Estado.
Amorim chamou o episódio de "sequestro" e "prisão" do presidente venezuelano e chamou a atenção para o posterior controle sobre recursos naturais da Venezuela, sobretudo, a exploração de petróleo e gás.
— Existe hoje uma opacidade total do lado norte-americano para uma conversa. Eles têm objetivos muito determinados. Não digo todos, mas muitos têm. O secretário de Estado tem reafirmado uma hegemonia sobre a América Latina. Os documentos falam da necessidade de ter o Hemisfério Ocidental como um quintal. Não usam a palavra quintal, mas como se fosse um quintal norte-americano. Isso nós não queremos — falou Amorim.
O assessor especial afirmou que a política externa do atual governo visa a manter a autonomia e independência, dialongando com todos as potências, e não aceita dividir o mundo em "esferas de influência". Amorim afirmou que o país rejeita "alinhamentos automáticos ou parcerias excludentes".
Aprovação de embaixador Daniel Perez

Celso Amorim também confirmou que o presidente Lula está decidido a não conceder aprovação a nenhum novo embaixador estrangeiro até o fim das eleições.
Segundo Amorim, os americanos agiram "bizarramente" e violaram as regras diplomáticas ao dar publicidade, antes do consentimento brasileiro, à escolha do deputado Daniel Perez como novo embaixador em Brasília e enviar a nomeação ao Senado — ele foi aprovado na sexta-feira passada.
Para Amorim, a situação é "absurda" e vem sendo omitida no debate.
— O agrément não foi recusado. A decisão do presidente Lula é que ele não vai aceitar nenhum pedido de agrément de nenhum país. Nem da Rússia, nem da China, nem dos Estados Unidos, nem da França, nem de quem quer que seja. Essa é uma decisão política — afirmou o embaixador.
A demora na aprovação de Daniel Perez foi mencionada pelo governo Trump como razão para uma represália sem precedentes que virou mais um embate com os EUA: a revogação parcial do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti.
Celso Amorim ainda mencionou que existe em curso uma tentativa de intervenção em assuntos internos do Brasil e negou que o governo tenha abandonado as negociações em qualquer momento.
Amorim classificou a relação atual com o governo Trump como uma "escalada de hostilidades" contra o Brasil.
— Percebe-se uma série de medidas motivadas politicamente, que não contribuem para aprofundar a cooperação entre os países — disse.
Quem é Celso Amorim
Um dos cinco brasileiros a ocupar por duas vezes o cargo de ministro das Relações Exteriores durante a República, Celso Amorim foi o que ficou por mais tempo no cargo.
Computados os 18 meses sob a presidência de Itamar Franco e os oito anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, o embaixador nascido em Santos (SP) permaneceu por quase uma década à frente do Itamaraty. Deixa para trás até mesmo José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, patriarca da diplomacia brasileira.
O diplomata, que também foi ministro da Defesa no primeiro governo de Dilma Rousseff, foi nomeado chefe da Assessoria Especial da Presidência da República no terceiro governo Lula, iniciado em 2023.


