
Por trás da briga pública entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro está uma disputa pela maior riqueza da família: o sobrenome. Com Bolsonaro preso, inelegível e ainda padecendo por sequelas do atentado sofrido na eleição de 2018, madrasta e enteados travam uma batalha pelo espólio eleitoral do chefe do clã.
O litígio político ganhou novo capítulo nesta sexta-feira (3), após Michelle elogiar uma iniciativa do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Em um story publicado no Instagram, ela comenta o lançamento da Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, anunciada pelo Ministério da Educação. “É um sonho realizado”, escreveu a ex-primeira-dama, irritando o grupo do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
As desavenças entre Michelle e Flávio ultrapassaram a esfera privada e ganharam exposição nacional na quarta-feira da semana passada (24), quando ela publicou dois vídeos em que dizia ter sido humilhada e maltratada pelo senador.
— Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone — disse a ex-primeira-dama, sem jamais citar o nome do Flávio, tratado apenas como “meu enteado” ou “pré-candidato”.
Michelle não falou o sobrenome Bolsonaro em nenhum momento dos 27 minutos dos vídeos. A gravação ocorreu sem o conhecimento do ex-presidente. Segundo interlocutores de Bolsonaro, ele apenas teria sido avisado pela esposa de que ela faria uma manifestação em tom de desabafo, após vários ataques sofridos de aliados dos filhos, como o blogueiro Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira radicado nos Estados Unidos.
Abalo antes do apito
Bolsonaro, todavia, não sabia que seria um vídeo longo, produzido e direcionado aos seus filhos. A divulgação, minutos antes do jogo entre Brasil e Escócia pela fase de grupos da Copa do Mundo, deixou o comando de campanha presidencial de Flávio desnorteado.
— Bolsonaro ficou muito irritado. Imagina a pessoa gravar um vídeo desses e não contar para o marido, a pessoa que dorme com ela todas as noites — comenta um interlocutor frequente do ex-presidente.
A saída de Michele da presidência do PL Mulher, cargo que ela ocupa desde 2023, teria sido ordem direta de Bolsonaro, incomodado com a visibilidade que a esposa ganhou após a publicação do vídeo.
Além da perda do cargo, Michelle não conseguiu emplacar sua aliada e vice-presidente do PL Mulher, a deputada Priscila Costa (PL-CE), no comando do núcleo feminino. O posto foi congelado pelo presidente do partido, Valdemar Costa Neto, em mais uma atitude creditada nos bastidores a Jair Bolsonaro.
Priscila era a indicação de Michelle para a disputa ao Senado pelo Ceará. O veto do partido à candidatura de Priscila é um dos pivôs do rompimento com Flávio e do estremecimento da relação com Valdemar.
Tão logo entregou a carta de renúncia a Valdemar, na terça-feira, Michelle rumou para o gabinete da governadora do Distrito Federal, Celina Leão, do PP. O gesto foi entendido como uma demonstração de que Michelle não está sozinha e tem amparo de um grupo político. Desde o episódio, ela se tornou alvo de milícias digitais bolsonaristas.
Além de Celina, fazem parte do círculo da ex-primeira-dama a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a deputada Bia Kicis (PL-DF). Nos bastidores, há desconfiança de que é Damares quem municia Michelle com informações sobre Flávio, seu colega de plenário no Senado, inclusive sobre eventuais denúncias que poderiam surgir e abalar a campanha.
Candidatura incerta
Incomodado com o vídeo e com a saída de Michelle do PL Mulher, Valdemar deu prazo de uma semana para que ela decida se vai manter a candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, considerada estratégica para o PL. Michelle ainda está em dúvida sobre seu futuro político, mas ciente da influência e da penetração que possui entre dois setores importantes do eleitorado: as mulheres e os evangélicos. Mesmo com o afastamento de Michelle, o PL pretende usar a imagem dela em comerciais já gravados para a campanha eleitoral.
Diante desse cenário, o Republicanos — ligado à Igreja Universal do Reino de Deus — abriu as portas para a ex-primeira-dama. O partido ainda não fechou apoio a Flávio na eleição presidencial e vê Michelle como um ativo importantíssimo para o crescimento do partido.
Caso troque de legenda, Michelle não poderia mais concorrer em 2026, mas seria um forte cabo eleitoral nos palanques do Republicanos. Esse movimento teria como foco sobretudo as eleições de 2030, quando Michelle e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também do Republicanos, poderiam formar uma chapa considerada muito competitiva, principalmente em caso de derrota de Flávio na eleição deste ano.
Desconfiança em família
No PL, a briga entre Michelle e Flávio não surpreendeu ninguém. É de conhecimento de toda a direita que a ex-primeira-dama nunca simpatizou com os filhos do marido, a ponto de vetar a presença de Carlos Bolsonaro no Palácio da Alvorada e reclamar de que o caçula Jair Renan frequentava a residência oficial sempre no horário do almoço.
Já os quatro filhos tampouco demonstram afeto pela madrasta, exceto em cima de palanques. Em conversas reservadas, eles dizem que Michelle viu no pai uma forma de rápida ascensão social, após uma infância e juventude humilde no entorno de Brasília.
O quarteto vê com desconfiança não só as movimentações políticas de Michelle como as econômicas. Desde 2024, ela já pediu o registro de marca do nome da família ou variações, como “Bolsomito” ou “Bolsonaro Mito” para mais de 70 produtos. O próprio nome Michelle Bolsonaro já foi registrado pela ex-primeira-dama para comercialização de artigos de joalheria.
Para o grupo de Flávio, Michelle age agora movida por ressentimento, por ter sido preterida por Jair na escolha de quem seria seu sucessor na eleição presidencial deste ano. Desde o primeiro momento ela vinha manifestando contrariedade com a decisão. Nas rápidas visitas de Flávio ao pai, em prisão domiciliar, ele sequer falava com a madrasta.
— Flávio já sabia que teria uma inimiga dentro de casa. Quando ele foi reclamar para o pai, ele mandou que ele esquecesse os ruídos e tocasse a campanha — diz um amigo do senador.
Evangélica fervorosa, Michelle enxerga sua caminhada como uma missão, como se estivesse ungida de um propósito divino. Ela conta com apoio de um séquito de 10 assessores, inclusive militares, além dos aliados políticos e do irmão Carlos Eduardo Torres, pré-candidato a deputado distrital pelo PL.
Nos bastidores, os estrategistas do PL temem que a exposição pública das intrigas entre os Bolsonaro possa trazer um desfecho trágico para o clã, com todos ficando sem mandato a partir de 2027.
Para além dos eventuais prejuízos eleitorais a Michelle e Flávio, a briga tem poder de afetar a candidatura a senador de Carlos Bolsonaro por Santa Catarina, onde sua chegada após anos de domicílio eleitoral no Rio de Janeiro dividiu a direita. Para culminar, Jair está preso e inelegível, e Eduardo em autoexílio nos Estados Unidos.




