
As repercussões um dia após a divulgação do áudio entre o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, e Daniel Vorcaro dividiram manchetes com uma nova operação contra o entorno do empresário, preso desde março.
Nesta quinta-feira (14), Flávio Bolsonaro manteve reuniões de emergência para calcular os próximos passos da pré-campanha. O áudio divulgado pelo The Intercept Brasil, cujo conteúdo foi confirmado pelo senador, mostra um pedido dinheiro a Vorcaro para o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio, contudo, nega irregularidades.
A Polícia Federal deve investigar o destino do pagamento de R$ 61 milhões feito por Vorcaro. Uma das suspeitas é o suposto financiamento das ações do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos por intermédio de um fundo, que teria recebido os valores. Em entrevista à GloboNews, o senador negou que o dinheiro tenha ido para Eduardo, mas confirmou que o gestor do fundo era um advogado de confiança do irmão:
— O advogado é de confiança do Eduardo Bolsonaro. O advogado é gestor do fundo também. Minha participação nisso foi buscar investidores. Dinheiro privado.
Mais cedo, no início do dia, a Polícia Federal prendeu Henrique Vorcaro, pai do banqueiro e suspeito de operar financeiramente parte do esquema do Master. O dinheiro angariado seria destinado para o grupo chamado "A Turma", suposto braço armado da organização comandada por Vorcaro para ameaçar inimigos. Um núcleo tecnológico, apelidado de "Os Meninos", seria responsável por ataques cibernéticos em prol do empresário.
Confira, nesta reportagem, os principais fatos do dia após as novas descobertas do caso Master:
As respostas de Flávio Bolsonaro
À GloboNews, Flávio Bolsonaro repetiu suas justificativas apresentadas na quarta (13), de que o pedido de dinheiro a Vorcaro foi uma negociação "privada".
— Eu conheci ele (Vorcaro) em dezembro de 2024, exclusivamente para tratar disso (o filme). Qualquer mensagem que apareça daqui para frente, qualquer mensagem que já apareceu, os meus contatos, sejam por telefone ou pessoalmente com ele, foram exclusivamente para falar do filme — alegou o senador.
Questionado sobre o motivo de, antes da divulgação do áudio, ter negado contatos com Vorcaro, Flávio respondeu que o acordo com o banqueiro tinha uma "cláusula de confidencialidade". O senador ainda reafirmou que o dinheiro não foi para o irmão.
— Não é, como querem induzir, um investimento que faz algum caminho para depois chegar lá nos Estados Unidos, para financiar Eduardo Bolsonaro. Isso é mentira, isso é criminoso, isso é ilação, isso é torcida contra a gente — disse.
Ao ser perguntado sobre a forma pela qual tratava Vorcaro nas conversas, o pré-candidato à Presidência negou proximidade com o banqueiro preso:
— "Irmão" e "irmãozinho" não significa intimidade, é o meu linguajar, é meu modo de falar com as pessoas (...) "Irmão", "mermão", é uma expressão que a gente usa para cumprimentar, até para pedir um coco na praia. É igual "guri" no Rio Grande do Sul, "piá" no Paraná, "mano" em São Paulo.
Também durante o dia, a produtora do filme sobre Bolsonaro, a GOUP Entertainment, negou ter recebido valores de Vorcaro.
Após a entrevista na GloboNews, Flávio emitiu uma nova nota (leia íntegra abaixo) e disse que "não houve doação, favor, empréstimo pessoal, camaradagem ou vantagem política".
Ainda conforme o senador, "é falsa a insinuação de que recursos tenham sido destinados a Eduardo Bolsonaro".
Veja detalhes na reportagem: Flávio confirma que advogado que cuidou de fundo de filme "é de confiança de Eduardo Bolsonaro"
Repercussões políticas
Apesar de ter sua pré-candidatura questionada no campo da direita, Flávio Bolsonaro demonstrou ter recebido apoio do pai.
"Ele (Jair Bolsonaro) me disse pra ficar firme, pois não havia absolutamente nada de errado com o filme e que nada melhor do que a verdade para esclarecer os fatos", escreveu Flávio em mensagem divulgada pela CNN Brasil.
O senador ainda afastou a possibilidade de a madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, assumir a chapa:
"(Jair) Disse ainda que não existe nenhuma possibilidade de Michelle ser candidata à Presidência, como alguns veículos de comunicação começaram a ventilar."
Após a divulgação do áudio, Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) condenaram Flávio Bolsonaro, enquanto Ronaldo Caiado (PSD) cobrou transparência no desenrolar do caso.
— Jamais vou endossar proximidade de um candidato com um criminoso — disse Zema, nesta quinta, após sofrer críticas de correligionários do Novo.
Aliado da família Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, reconheceu que o caso é uma "questão que preocupa", mas afastou possíveis impactos na campanha eleitoral:
— O Flávio imediatamente procurou dar todos os esclarecimentos.
No governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — principal adversário de Flávio Bolsonaro nas eleições — evitou emitir opinião sobre o episódio.
— Eu não vou comentar. É um caso de polícia, não é meu — disse durante uma visita a uma fábrica de fertilizantes da Petrobas em Camaçari, na Bahia.
Impactos eleitorais no RS

No Rio Grande do Sul, as três principais pré-candidaturas ao governo do Estado reagiram de diferentes formas ao envolvimento de Flávio Bolsonaro no caso. Do mesmo partido, Luciano Zucco repetiu o discurso utilizado pelo senador quando da revelação das conversas com Vorcaro.
— É um pedido de patrocínio privado para um filme privado. Não tem relação de dinheiro público e nem favor de governo envolvido. Mas vamos investigar tudo e todos — disse o pré-candidato do PL ao Piratini.
Entre os adversários, o MDB de Gabriel Souza adotou cautela. O presidente da sigla no RS, Vilmar Zanchin, disse que vai aguardar o avanço das investigações antes de qualquer declaração pública.
Já no PDT, que tem Juliana Brizola como pré-candidata, a interpretação é de que o tema será inevitável na campanha, reforçando a ligação de Zucco com Flávio.
Veja detalhes na reportagem: Como o pedido de dinheiro de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro repercute na campanha ao governo do RS
Prisão amplia cerco ao esquema de Vorcaro
A sexta fase da operação Compliance Zero prendeu Henrique Vorcaro quando ele se preparava para viajar a Brasília, onde visitaria o filho na carceragem da Superintendência da PF. Nas redes sociais, Henrique aparece como presidente do Grupo Multipar, empresa do ramo imobiliário com base em Minas Gerais, fundada há 35 anos.
Foram cumpridos outros seis mandados de prisão preventiva:
- Anderson Wander da Silva Lima: policial federal da ativa lotado na Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro
- Sebastião Monteiro Júnior: policial militar aposentado
- David Henrique Alves: segundo a decisão, figurava como "líder" do núcleo "Os Meninos"
- Manoel Mendes Rodrigues: descrito como "operador do jogo do bicho" e integrante do núcleo "A Turma"
- Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos: teria desempenhado papel de colaborador técnico e logístico do núcleo "Os Meninos"
- Victor Lima Sedlmaier: integrante do núcleo "Os Meninos"
Além disso, foram emitidas 17 ordens de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Também foram determinados afastamentos de cargos públicos, além de sequestros e bloqueios de bens.
Entre os alvos, estão a delegada da PF Valéria Vieira Pereira da Silva e o agente Francisco José Pereira da Silva. Segundo a investigação, eles atuavam no repasse de informações sigilosas para Marilson Roseno, escrivão aposentado da PF, a partir de consultas realizadas em uma plataforma interna utilizada pela corporação.

"A Turma" e "Os Meninos"
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), revelou uma estrutura criminosa complexa, com divisão de tarefas, infiltração em órgãos públicos e atuação simultânea no mundo físico e digital. O grupo investigado operava por meio de duas estruturas — conhecidas como "A Turma" e "Os Meninos" — responsáveis por executar ordens do núcleo central da organização ligada ao empresário Daniel Vorcaro.
- "A Turma": responsável por ações presenciais, como ameaças, intimidações, levantamentos clandestinos e obtenção de dados sigilosos.
- "Os Meninos": núcleo tecnológico, dedicado a ataques cibernéticos, invasões, derrubadas de perfis e monitoramento ilegal.
Ambos atuavam de forma coordenada e eram gerenciados por Felipe Mourão, o Sicário, apontado como operador central das ordens, com ligação direta com Daniel Vorcaro. Sicário morreu na superintendência da PF em Minas Gerais após ser preso em uma fase anterior.
Veja detalhes na reportagem: "A Turma": como funcionava o grupo investigado por ameaças que levou à prisão de pai de Daniel Vorcaro
Nota de Flávio Bolsonaro divulgada na noite desta quinta-feira (14)
NOTA OFICIAL
É preciso restabelecer os fatos e separar investigação séria de tentativa de contaminação política.
Minha participação no projeto do filme sobre o presidente Jair Bolsonaro limitou-se à busca de investimento privado para uma obra cultural privada, produzida nos Estados Unidos, sem recurso público, sem Lei Rouanet, sem Embratur, sem prefeitura e sem qualquer contrapartida ligada ao meu mandato.
Me relacionei com Daniel Vorcaro estritamente no papel de um filho que buscava patrocínio de um empresário para o filme em homenagem ao pai. Não houve doação, favor, empréstimo pessoal, camaradagem ou vantagem política. Ele fez um investimento que previa retorno financeiro conforme o desempenho comercial da obra. Também é falsa a insinuação de que recursos tenham sido destinados a Eduardo Bolsonaro: os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos.
A linha do tempo é decisiva. O contato ocorreu em 2024 quando os fatos hoje atribuídos a Vorcaro não eram conhecidos publicamente. À época, ele circulava normalmente no mercado, patrocinava eventos, programas de TV e iniciativas empresariais, inclusive evento empresarial em Nova York, promovido por um grande grupo de comunicação braseiro, em maio de 2024, no qual foi apresentado ao mercado americano.
É nesse contexto que buscamos o investimento no filme.
Quando os aportes deixaram de ser cumpridos e as acusações vieram a público, a relação foi encerrada e outros investidores foram buscados.
Não vou aceitar que nos misturem com os bandidos do PT. As relações são completamente distintas. Não houve reunião fora de agenda com presidente da República, pagamento a ex-ministro por acesso ao governo, contrato milionário com o ministro da justiça, que é o chefe da PF, nem houve qualquer promessa de favorecimento ao banqueiro.
Tentar colocar todos na mesma vala é uma distorção política inaceitável.
Por isso, defendo que todos os fatos sejam investigados com rigor e transparência. Por isso, exigimos a CPI do Master já.


