
Intercalando resgate histórico com experiência pessoal e casos judiciais, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia atraiu centenas de pessoas ao festival Fronteiras do Pensamento, neste sábado (16), em Porto Alegre, para falar sobre igualdade de gênero e violência contra a mulher.
Aos 72 anos, a única mulher da mais alta Corte de Justiça do país praticamente lotou o auditório Osvaldo Stefanello, no Palácio de Justiça, tenda erguida em frente à Praça da Matriz, no Centro Histórico.

Abordando o tema O Poder ainda tem Gênero?, a ministra começou lembrando as origens do patriarcado. Ao referir que na Idade Média as feiticeiras eram queimadas e que ainda hoje o símbolo do pecado é uma mulher, Cármen Lúcia afirmou que a construção dos estereótipos começa dentro de casa, já nas histórias infantis.
— Era sempre uma Cinderela, uma Branca de Neve, e nos acostumamos a ouvir que havia um rei, um poder representado por um homem — lembrou.
A ministra criticou a invisibilidade da mulher no decorrer da história, citando personagens como Bárbara de Alencar, Maria Quitéria e Maria Felipa, cujo protagonismo foi encoberto pela presença masculina.
— Nós sempre fomos invisibilizadas, apagadas.
Cármen citou dados da violência contra a mulher — "é mais de uma agressão por minuto" —, e ressaltou que muitas vezes o homem não se limita a matar a companheira.
—Ele esfaqueia a face, joga álcool e bota fogo. É um apagar imagético, é para apagar a existência — desabafou.
A ministra contou um caso de feminicídio no qual o advogado de defesa arguiu a inocência do réu dizendo que a mulher não havia sido assassinada, mas vítima de "suicídio por mãos alheias".
— Ele foi absolvido. E saiu aplaudido. Teve festa à noite — contou a ministra.

Cármen falou durante 56 minutos, sendo interrompida diversas vezes por aplausos. Enquanto no auditório Osvaldo Stefanello o público era formado majoritariamente por magistrados e membros do sistema de Justiça, na tenda externa a plateia era de maioria feminina.
"Ícone de lucidez"
O sábado de sol e temperatura agradável ajudou a atrair as pessoas. Nas mesas montadas diante ao monunento a Julio de Castilhos, casais aproveitavam os 20°C de um sábado outonal para tomar chamarão ou até mesmo taças de vinho.
Sentada na fileira de cadeirqas da tenda externa, a advogada Dione Dick Vasconcellos, 77 anos, não tirava os olhos do telão onde a palestra da ministra era transmitida.
— Cármen Lúcia é um ícone de lucidez Eu sou advogada e fico constrangida com o papel de alguns ministros — comentou Dione, que ainda pretendia assistir a palestras do jornalista Caco Barcellos e um painel sobre a cantora Nina Simone.
No encerramento da palestra, Cármen Lúcia fez uma provocação para reforçar o machismo estrutural do poder no Brasil. Para ela, "vai chegar um dia em que o Supremo terá 10 mulheres e um homem. E haverá igualdade".
— Estamos aprendendo a cair e a levantar mais depressa ainda, porque nós não ficaremos no chão. É não nos deixaremos morrer — concluiu, sob aplausos efusivos.

