
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato à Presidência da República, disse em entrevista à GloboNews na tarde desta quinta-feira (14) que o dinheiro pedido a Daniel Vorcaro não foi encaminhado para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Flávio foi questionado sobre o possível envio dos recursos ao irmão, que está nos Estados Unidos há mais de um ano. Ele confirmou que o advogado que cuidou de fundo de filme "é de confiança de Eduardo Bolsonaro":
— (O dinheiro) Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todo dinheiro que foi aportado nesse fundo é integralmente utilizado para fazer o filme. Para cuidar das questões legais, de burocracia, você tem que contratar um advogado e esse advogado é de confiança de Eduardo Bolsonaro. Alguém que cuidou de todo seu procedimento de green card, a pessoa que tem expertise de quase 30 anos na advocacia nos EUA.
O senador Flávio Bolsonaro pediu US$ 24 milhões (R$ 134 milhões, em valores da época) a Daniel Vorcaro. O banqueiro pagou US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) entre fevereiro e maio de 2025.
O Intercept, veículo que divulgou as mensagens trocadas entre Flávio e Vorcaro, diz que parte do dinheiro, ao menos US$ 2 milhões, foi transferido pela Entre Investimentos e Participações, suspeita de atuar em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas.
O fundo tem como agente legal o escritório "Law Offices of Paulo Calixto PLLC", de Paulo Calixto, advogado próximo ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
A Polícia Federal (PF) deve abrir uma investigação para apurar os acertos de pagamento entre o Vorcaro e Flávio Bolsonaro. A PF também deve verificar se os recursos foram desviados para um fundo sediado no Texas ligado a Eduardo Bolsonaro e usado para custear a permanência dele no país, já que o Supremo Tribunal Federal (STF) havia bloqueado contas e dificultado o recebimento de recursos nos EUA.
"Tinha uma cláusula de confidencialidade"
Durante a entrevista à GloboNews, Flávio completou que, na produção do filme Dark Horse, que fala da história da vida de Jair Bolsonaro, o seu papel era de "buscar investidores".
— Como foi minha participação? Eu consegui, conversamos, ele topou fazer investimento no filme, está formalizado. Eu estava achando que estava tudo tranquilo. As parcelas foram sendo pagas, conforme estava estabelecido nesse contrato. Chega um momento em que ele começa a parar de pagar estas parcelas. E eu questionava: "Olha só, você não vai cumprir sua parte no contrato?". Não é favor, não estou pedindo dinheiro, não é nenhuma extorsão como alguns levianos, criminosos, estão dizendo.
Questionado pelos jornalistas da GloboNews sobre por que Vorcaro financiou o filme, Flávio disse:
— Eu imagino que seja com expectativa de retorno deste investimento. Ele bota um dinheiro. Não fez doação, não está me fazendo favor. Eu não tinha absolutamente nada a oferecer em troca para ele.
Depois, quando perguntado por que negou inicialmente o pedido de dinheiro a Vorcaro, Flávio explicou:
— Quando eu nego que conhecia ou tinha contato com ele, é porque tinha uma cláusula de confidencialidade neste contrato. A minha relação com ele era exclusivamente para o filme.
Em um dos trechos das conversas que vazaram, Flávio chama Vorcaro de "irmão". Sobre o tratamento íntimo com o banqueiro, o senador alegou:
— Irmão e irmãozinho não significa intimidade, é o meu linguajar, é meu modo de falar com as pessoas. Irmão, mermão, é uma expressão que a gente usa para cumprimentar, até para pedir um coco na praia. É igual guri no Rio Grande do Sul, piá no Paraná, mano em São Paulo. Não tem por que querer empurrar goela abaixo uma intimidade que não tenho.
Após a entrevista na GloboNews, Flávio emitiu uma nova nota (leia íntegra abaixo) e disse que "não houve doação, favor, empréstimo pessoal, camaradagem ou vantagem política".
Ainda conforme o senador, "é falsa a insinuação de que recursos tenham sido destinados a Eduardo Bolsonaro".
As conversas
Os diálogos entre Flávio e Vorcaro foram divulgados na quarta-feira (13) pelo Intercept Brasil em reportagem que conta com áudio e trechos de conversas. Segundo o veículo, Vorcaro pagou R$ 61 milhões para a produção do filme Dark Horse, entre fevereiro e maio de 2025. O longa conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.
— Fico sem graça de ficar te cobrando, mas é que está em um momento muito decisivo do filme e como tem muita parcela para trás, está todo mundo tenso, preocupado — diz Flávio Bolsonaro no áudio divulgado.
Nas mensagens, Flávio Bolsonaro escreve ainda a Vorcaro: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs."
A mensagem teria sido enviada no dia 16 de novembro de 2025. No dia seguinte, Vorcaro foi preso por suspeita de operações fraudulentas envolvendo o banco. O Master foi liquidado no dia 18 de novembro de 2025.
Veja o que dizem as mensagens de Flávio e Vorcaro:
Produtora do filme negou recebimento de dinheiro
Notas divulgadas pelo deputado Mário Frias (PL-RJ), produtor-executivo do filme Dark Horse, e da empresa Goup, responsável pela execução do projeto cinematográfico asseguram que nenhum recurso de Vorcaro chegou até eles.
A versão contradiz a informação de Flávio Bolsonaro que declarou haver prestações em atraso da ajuda financeira do dono do Master e que por isso entrou em contato com Vorcaro pedindo os pagamentos.
"A Goup Entertainment afirma categoricamente que, dentre os mais de uma dezena de investidores que compõem o quadro de financiadores do longa-metragem Dark Horse, não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário", diz nota da produtora.
Quem é Daniel Vorcaro
Banqueiro de 42 anos, Vorcaro ingressou no setor em 2016, quando adquiriu participação no Banco Máxima, então em dificuldades. Em 2018, assumiu o controle e, em 2021, rebatizou a instituição como Banco Master.
O banco de Vorcaro adotou uma estratégia agressiva no mercado financeiro, mas acabou em crise. A tentativa de venda da instituição para o Banco de Brasília (BRB) enfrentou resistência no Banco Central, que, mais tarde, decretou a liquidação do Master.
Em novembro de 2025, Vorcaro foi preso ao tentar deixar o país por suspeita de fraudes contra o sistema financeiro. O banqueiro voltou a ser preso em março de 2026.
Atualmente, Vorcaro está preso preventivamente na Superintendência da Polícia Federal.
O pai de Daniel, Henrique Vorcaro, fundador da construtora Multipar, foi preso na manhã desta quinta-feira (14), em Nova Lima, Minas Gerais, em nova fase da Operação Compliance Zero, da PF. Henrique é suspeito de se beneficiar de desvios do Banco Master, por meio de operações fraudulentas com fundos de investimento. Segundo a investigação da PF, o dono do Master tentou esconder R$ 2 bilhões na conta do pai.
Nota de Flávio Bolsonaro divulgada na noite desta quinta-feira (14)
NOTA OFICIAL
É preciso restabelecer os fatos e separar investigação séria de tentativa de contaminação política.
Minha participação no projeto do filme sobre o presidente Jair Bolsonaro limitou-se à busca de investimento privado para uma obra cultural privada, produzida nos Estados Unidos, sem recurso público, sem Lei Rouanet, sem Embratur, sem prefeitura e sem qualquer contrapartida ligada ao meu mandato.
Me relacionei com Daniel Vorcaro estritamente no papel de um filho que buscava patrocínio de um empresário para o filme em homenagem ao pai. Não houve doação, favor, empréstimo pessoal, camaradagem ou vantagem política. Ele fez um investimento que previa retorno financeiro conforme o desempenho comercial da obra. Também é falsa a insinuação de que recursos tenham sido destinados a Eduardo Bolsonaro: os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos.
A linha do tempo é decisiva. O contato ocorreu em 2024 quando os fatos hoje atribuídos a Vorcaro não eram conhecidos publicamente. À época, ele circulava normalmente no mercado, patrocinava eventos, programas de TV e iniciativas empresariais, inclusive evento empresarial em Nova York, promovido por um grande grupo de comunicação braseiro, em maio de 2024, no qual foi apresentado ao mercado americano.
É nesse contexto que buscamos o investimento no filme.
Quando os aportes deixaram de ser cumpridos e as acusações vieram a público, a relação foi encerrada e outros investidores foram buscados.
Não vou aceitar que nos misturem com os bandidos do PT. As relações são completamente distintas. Não houve reunião fora de agenda com presidente da República, pagamento a ex-ministro por acesso ao governo, contrato milionário com o ministro da justiça, que é o chefe da PF, nem houve qualquer promessa de favorecimento ao banqueiro.
Tentar colocar todos na mesma vala é uma distorção política inaceitável.
Por isso, defendo que todos os fatos sejam investigados com rigor e transparência. Por isso, exigimos a CPI do Master já.


