A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar como organizações terroristas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) tensiona o debate na pré-campanha à Presidência da República e altera a estratégia eleitoral dos dois principais candidatos: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Anunciada na noite de quinta-feira (28), a iniciativa permite à Casa Branca impor sanções a empresas, restringir a entrada de brasileiros nos Estados Unidos e limitar o compartilhamento de informações consideradas estratégicas na área de segurança.
A medida foi comemorada por Flávio Bolsonaro, que instigou o governo americano a adotar a nova classificação durante visita ao presidente Donald Trump.
Avisado no início da noite de quinta-feira, Lula pediu um estudo dos impactos econômicos e agendou reuniões para discutir as formas de reação. O governo busca tratar o tema com equilíbrio, por receio de passar a imagem de "defensor de bandido", rótulo que o bolsonarismo tenta grudar na esquerda a cada eleição.

Discurso de soberania nacional
Na seara eleitoral, PT e PL discutem como obter dividendos políticos e evitar prejuízos. No Planalto, os estrategistas da campanha de Lula querem resgatar o discurso da defesa da soberania nacional, usado com êxito após o tarifaço imposto por Trump no ano passado.
— Lula vai fazer a defesa do nacionalismo, até porque essa agenda era hegemonizada pela direita e permitiu que ele dispute esses símbolos com o bolsonarismo. Mas não pode passar a impressão de que estaria ao lado de grupos criminosos. Na defesa da soberania, deve explorar a possibilidade de os Estados Unidos tentarem interferir na discussão eleitoral brasileira — comenta o cientista político Carlos Borenstein.
Outra linha de ação é vincular Flávio Bolsonaro às milícias que atuam no Rio de Janeiro. Essa investida deve ser feita sobretudo pelo PT e por apoiadores digitais, numa campanha massiva nas redes sociais.
— Será que os EUA também vão classificar como terrorista a milícia do Rio de Janeiro ligada aos Bolsonaro? — provocou o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
Assim como por ocasião do tarifaço, o governo acredita que o tempo pode ser um aliado. Naquela ocasião, o desgaste inicial com a medida foi sendo revertido aos poucos, muito em função da reação dos setores econômicos atingidos pelo aumento das alíquotas de exportação, até a revogação de parte do tarifaço por Trump. Agora, o Planalto enxerga no episódio uma oportunidade para afastar do adversário setores do mercado financeiro que simpatizam com a candidatura bolsonarista.

Fato novo para Flávio
No entorno de Flávio, a notícia foi celebrada. Ao viajar para os Estados Unidos, o senador buscava um fato novo capaz de estancar o desgaste pela revelação de que havia pedido dinheiro para o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Segundo o pré-candidato do PL, a demanda foi debatida no encontro com Donald Trump, classificada como "um interesse compartilhado entre os dois países".
Ao ter um pedido atendido pela Casa Branca, Flávio recoloca no debate eleitoral a segurança pública, considerada a principal preocupação dos eleitores e ponto fraco do discurso governista. Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada há duas semanas, a violência foi citada por 31% dos entrevistados, quase o dobro do segundo tema mais aflitivo (corrupção, com 18%).
"O combate aos narcoterroristas precisa ser feito com a união entre os países afetados pela atuação criminosa deles! O povo brasileiro agradece!", disse Flávio, em mensagem ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, na rede social X.
Ainda assim, o cientista político André Pereira César pondera que o episódio pode trazer custos para o bolsonarismo no futuro:
— Ele tem um ganho eleitoral hoje, consegue apoio. Mas também há um custo político, afinal ele tem a pretensão de ser presidente. E, se ganhar a eleição, terá lidar com esse problema, mas é uma decisão que prejudica o país. E a questão Vorcaro pode voltar. Muita coisa nova pode aparecer.

Reflexos diplomáticos
Em nota oficial divulgada no início da tarde, o Planalto criticou a atitude da Casa Branca e a ação da família Bolsonaro. "É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil", diz o comunicado.
"A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos", complementa.
Nos bastidores, o Ministério das Relações Exteriores trabalha para manter contato com as autoridades norte-americanas. O objetivo é entender as justificativas para a decisão, apresentar argumentos contrários e tentar evitar a entrada em vigor da nova classificação, prevista para 5 de junho. Neste esforço, o Itamaraty busca agendar um telefonema de Lula para Trump.

