
A rejeição do nome de Jorge Messias para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado, ocorrida na quarta-feira (29), não foi um evento isolado, mas o desfecho de um processo de desgaste na relação entre o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
O episódio expõe a fragilidade da articulação política do Palácio do Planalto com Davi Alcolumbre (União-AP), que passou de facilitador das pautas governistas a principal articulador de uma derrota histórica para o Executivo.
Da cooperação ao confronto
A trajetória entre Lula e o atual presidente do Senado pode ser dividida em três fases.
1. Pragmatismo (2023-2024)
No início do terceiro mandato do petista, Alcolumbre foi o pilar da governabilidade no Senado. Como presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), viabilizou as aprovações de Cristiano Zanin e Flávio Dino. Em troca, manteve influência direta em ministérios, como o da Integração e o do Desenvolvimento Regional.
2. Consolidação de poder e o distanciamento (2024-2025)
Alcolumbre, que venceu a eleição para presidir o Senado pela segunda vez — fevereiro de 2025 — contou na ocasião com o apoio de senadores do governo. Mas, após eleito, o senador passou a adotar uma postura mais independente em relação ao Planalto, com o avanço de pautas mais ligadas ao grupo conservador e bolsonarista do Senado , gerando as primeiras rusgas públicas com o governo.
- Pautas de costumes e institucionais: Alcolumbre permitiu o avanço de propostas que limitam decisões monocráticas do STF e a PEC que extingue a reeleição para cargos executivos, temas vistos com ressalvas pelo governo.
- Guerra das Emendas: o impasse sobre as "emendas Pix" e a transparência orçamentária gerou as primeiras rusgas públicas, com o Senado acusando o governo de tentar reduzir a autonomia do Legislativo via Judiciário.
- Decreto do IOF: em maio de 2025, Alcolumbre criticou o aumento do IOF pelo governo federal, defendendo a autonomia do Legislativo e o diálogo entre os poderes. O presidente do Senado reagiu com dureza, acusando o Executivo de "usurpar as atribuições do Legislativo".
3. A indicação de Jorge Messias (2025-2026)
A indicação de Jorge Messias para a vaga aberta no STF com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, em novembro do ano passado, evidenciou a cisão entre Lula e Alcolumbre. O presidente do Congresso Nacional sempre defendeu que o indicado fosse o senador Rodrigo Pacheco. O governo manteve a indicação de Messias, e em abril deste ano, enviou ao Senado o documento com a indicação. Alcolumbre, então, pautou a sabatina e posterior votação no plenário. Nos bastidores, a informação é de que o presidente do Senado atuou até os últimos instantes pela rejeição do nome de Jorge Messias.
Derrota no plenário
Foram 42 votos para rejeitar e 34 para aprovar o nome de Messias. O resultado é a maior derrota política do governo Lula no Legislativo.
Os motivos para a rejeição de Messias
- O recado das urnas e do plenário: analistas apontam que a rejeição foi um movimento calculado para demonstrar que o Planalto não detém mais a maioria absoluta na Casa.
- Pressão de Alcolumbre: o presidente do Senado atuou diretamente para consolidar sua autoridade e sinalizar independência total ao Planalto.
- Traições e clima eleitoral: o governo foi surpreendido por traições em bancadas que considerava aliadas, como MDB e PSD, influenciadas pelo cálculo político das eleições que se aproximam.
- Caso Master: o fundo de previdência do Amapá fez negócios com Daniel Vorcaro. O presidente da Amapá Previdência, Jocildo Silva Lemos, foi indicado ao cargo por Alcolumbre, que ficou desconfortável com a investigação da Polícia Federal sobre a relação da instituição com o Banco Master.
O que muda agora?
Com a vaga no STF ainda aberta, Lula enfrenta o desafio de indicar um nome que consiga ser aprovado por um Senado empoderado e liderado, agora, por um desafeto político.




