A investigação da Polícia Federal que apura suspeitas de fraude em licitações e contratos públicos com recursos federais no Vale do Taquari avançou nesta quarta-feira (4) com novos depoimentos prestados. Entre os investigados ouvidos está a vereadora de Encantado, Joanete Cardoso, que prestou esclarecimentos à Polícia Federal. Ela segue afastada da Câmara de Vereadores do município.
Segundo a corporação, as declarações da parlamentar ajudaram a elucidar alguns pontos da apuração. No entanto, os investigadores analisam ainda uma possível incompatibilidade entre a atuação dela em uma empresa e o exercício do mandato, situação que poderia indicar eventual favorecimento da companhia em contratos com o poder público.
A Polícia Federal não divulgou a identidade do outro investigado que também prestou esclarecimentos nesta quarta-feira.
Outro ponto abordado na investigação envolve o ex-prefeito de Lajeado, Marcelo Caumo, que prestou depoimento no início da semana. Conforme a Polícia Federal, durante a oitiva, ele apresentou respostas consideradas evasivas em diversos questionamentos feitos pelos investigadores.
Entre os pontos que não teriam sido esclarecidos estão a origem de R$ 411 mil encontrados em um cofre de um escritório de advocacia, o pagamento de R$ 51 mil em dinheiro na compra de um carro e a utilização de aplicativos de comunicação que apagam mensagens, usados para conversar com outros investigados.
Os investigadores também apontam que ainda não ficou claro a origem dos valores recebidos por meio de uma empresa criada pouco antes de Caumo deixar o cargo de prefeito, além da capacidade financeira para a compra de uma casa avaliada em cerca de R$ 4 milhões no Litoral.
Segundo o delegado da Polícia Federal Marcone Silva, responsável pela investigação, ainda não há definição sobre eventual indiciamento do ex-prefeito.
— Neste momento ainda estamos verificando a parte da autoria. Não posso afirmar se haverá ou não indiciamento. Isso só será possível após o avanço das investigações e a análise do material apreendido — afirmou.
Além da vereadora e do ex-prefeito, também aparecem entre os investigados Elisete Mayer, atual secretária de Serviços Urbanos de Lajeado, e a empresária Lorena Mercalli, gestora da empresa Arki. Conforme a investigação, a empresária e a secretária foram chamadas para prestar depoimento nos últimos dias, mas optaram por permanecer em silêncio durante as oitivas.
Um novo depoimento de outro investigado está previsto para sexta-feira (6), enquanto a equipe responsável continua a análise do material coletado durante a operação. O nome não foi divulgado.
A operação
A Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), deflagrou na semana passada a segunda fase da Operação Lamaçal para investigar suspeitas de desvio de recursos federais do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS) repassados à prefeitura de Lajeado após a enchente de maio de 2024. A primeira fase da ação foi deflagrada em novembro de 2025.
Os desvios, segundo a PF, somam cerca de R$ 5 milhões, considerando três contratos firmados entre 2020 e 2024. Alguns deles envolvem recursos do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS).
Foram apurados contratos acordados durante a gestão de Caumo em Lajeado. A investigação aponta possível direcionamento e sobrepreço na contratação emergencial de empresa para serviços na área social, sob justificativa de calamidade pública.

O que dizem as defesas
Em conversa com a reportagem, o advogado Ronaldo Eckhardt, que representa a secretária de Serviços Urbanos de Lajeado, Elisete Mayer, disse que a equipe de defesa foi contratada apenas no final da sexta-feira anterior ao depoimento. Como o acesso completo aos autos do inquérito não teria sido liberado a tempo, Elisete Mayer optou por permanecer em silêncio durante a oitiva realizada na segunda-feira (2).
De acordo com o advogado, a decisão foi tomada para que a defesa possa analisar o conteúdo da investigação antes de apresentar esclarecimentos detalhados. Eckhardt afirma que, após a análise do material do inquérito, a defesa poderá se manifestar sobre os fatos investigados.
Em nota, a defesa do ex-prefeito Marcelo Caumo afirmou que os esclarecimentos sobre os fatos investigados serão apresentados diretamente no processo. Segundo o advogado Jair Alves Pereira, advogado de Caumo, as informações relacionadas aos valores e ao patrimônio citados na investigação estão sob sigilo em inquérito que tramita no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). A defesa também lamenta a divulgação pública de elementos que, segundo o documento, fariam parte de um procedimento sigiloso.
O advogado afirma ainda que todos os esclarecimentos necessários serão apresentados nos autos do processo, que considera o local adequado para tratar do caso.
A reportagem tentou contato com as defesas da vereadora de Encantado, Joanete Cardoso a da empresária Lorena Mercalli, mas não obteve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.