
Com ramificações em todo o espectro político, o escândalo do Banco Master tensiona a preparação para a disputa presidencial entre governo e oposição. Os estrategistas das campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) estudam como neutralizar ataques e fragilizar o adversário usando a fraude bancária como munição.
Há um consenso em ambos os lados de que ainda é prematuro afirmar os efeitos que o caso terá no decorrer da campanha. A 30 semanas da eleição, a Polícia Federal recém extraiu 30% do material armazenado em um dos oito celulares apreendidos com o banqueiro Daniel Vorcaro. Outros sete telefones nem sequer foram analisados pelos peritos, ampliando a expectativa sobre o potencial do conteúdo armazenado.
Enquanto o Planalto tenta reorganizar sua comunicação e mirar figuras do bolsonarismo, a oposição investe em ampliar o alcance político das acusações ao governo e atingir ministros do STF. Entenda, nesta reportagem, as estratégias em jogo:
Estratégia do governo
No Planalto, há o temor de que a amplitude do escândalo deflagre no eleitorado uma repulsa ao sistema, movimento semelhante ao ocorrido durante a Lava-Jato. Nas eleições de 2016 e 2018, no auge das investigações, candidatos que se apresentaram com um discurso antipolítica acabaram se elegendo, entre eles Jair Bolsonaro.
— As denúncias de corrupção criam um sentimento antissistema. As pessoas não acreditam no Judiciário, no sistema político, no Congresso. E, quando cria o ambiente antissistema, quem perde é o status quo. E a representação máxima do status quo é o presidente — afirmou o presidente do PT, Edinho Silva, em entrevista ao jornal Valor Econômico.
Embora até agora ainda não tenha surgido nenhum indício de participação do governo nas fraudes bancárias do Master, o Planalto trabalha para tentar evitar que uma descrença generalizada nas instituições prejudique a candidatura de Lula. Essa visão foi compartilhada com os deputados do PT pelo ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, em reunião realizada semana passada.
A partir desse entendimento, o Planalto deflagrou dois movimentos. O primeiro é chamar os ministros para a linha de frente. Para tentar colar o escândalo na direita, o bloco governista vai lembrar que Fabiano Zettel, o cunhado e operador de Vorcaro, foi o maior doador como pessoa física das campanhas de Bolsonaro e do governador Tarcísio de Freitas (SP) em 2022.
O grupo também vai reforçar que o Master cresceu sob a chancela de Roberto Campos Neto no Banco Central, nomeado na gestão Bolsonaro, e beneficiou políticos ligados ao ex-presidente, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Nogueira apresentou uma emenda a uma PEC que atendia aos interesses do Master, e Nikolas fez campanha para a reeleição de Bolsonaro em 2022 em jatinho cedido por Vorcaro.
— Como o tema da corrupção é adverso para o governo, é natural que o Planalto busque pulverizar o desgaste. Ainda tem muita coisa para aparecer e não se sabe quem pode ser mais fortemente atingido — comenta o cientista político Carlos Eduardo Borenstein.
A segunda ação planejada por Sidônio é apresentar Lula como candidato antissistema. A ordem é rebater críticas da oposição e sustentar que as irregularidades no Master só foram descobertas porque Lula garantiu independência à Polícia Federal. O presidente dirá que investigou o sistema financeiro, revelando o conluio de organizações criminosas como o PCC com fintechs, bem como taxou as bets, os bilionários e barrou as fraudes no INSS.
Banco Master
Estratégia da oposição
Na oposição, o principal movimento é vincular personagens do escândalo ao Planalto. No fim de semana, o PL de Flávio Bolsonaro publicou um vídeo feito com inteligência artificial insinuando ligações de Lula com Daniel Vorcaro. O PT acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) denunciando suposta propaganda eleitoral antecipada irregular e negativa.
Além, disso, a oposição tem como alvo o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.
Costa privatizou a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) quando foi governador da Bahia, repassando a estatal a um ex-sócio de Vorcaro. Já o escritório de advocacia de Lewandowski recebeu R$ 5 milhões do Banco Master, contrato que foi mantido após ele ingressar no governo Lula. Mantega foi quem levou Vorcaro para uma reunião com o presidente no Palácio do Planalto em 2024.
Até agora, porém, a estratégia que mais surtiu efeito foi atacar os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Familiares de ambos mantiveram negócios com empresas ligadas a Vorcaro, com explicações pouco convincentes sobre a natureza das relações contratuais.
No núcleo bolsonarista, o desgaste do STF é visto como fundamental para deslegitimar o julgamento do ex-presidente, condenado pelos atos golpistas do 8 de Janeiro. Estrategistas da campanha de Flávio acreditam que podem galvanizar o antipetismo, atraindo de volta eleitores perdidos por Bolsonaro em 2022, ao mostrar que ministros do STF, aliados do governo Lula, receberam dinheiro de Vorcaro.
— Moraes foi um dos fiadores da narrativa da defesa da democracia, tão propagada por Lula na eleição de 2022. Quando ele é tragado pelo escândalo, fragiliza não só o discurso que é pilar da comunicação do governo, como permite à direita explorar de novo o tema da corrupção, vinculando os ministros ao PT — afirma Borenstein.
Enquanto não surgem novas informações, a oposição tenta ampliar o desgaste do STF criando uma CPI. Com o apoio de 35 senadores, oito a mais do que o necessário, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou requerimento para a instalação de uma comissão específica para investigar as condutas de Toffoli e Moraes no caso Master.
O pedido enfrenta resistência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), também citado por Vorcaro em mensagens encontradas no seu celular.









