
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, conversaram por telefone no domingo (8) para tratar sobre a relação entre os dois países. Isso porque o governo americano teria sinalizado a intenção de que facções criminosas brasileiras sejam enquadradas como organizações terroristas.
O governo Trump voltou à carga sobre esta classificação, algo já rejeitado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, com base na legislação nacional e internacional sobre o tema. No foco de Washington, estão as principais organizações com raízes no Brasil e operação continental, além de elos na Europa, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Segundo noticiado pelo portal UOL no domingo, a burocracia estatal americana já solicitou a designação de ambas as facções brasileiras como grupos terroristas, o que poderia ocorrer em duas semanas. O processo de classificação passa por diferentes agências, como os departamentos de Estado e do Tesouro.
O telefonema ocorreu depois da reunião de Trump com presidentes latino-americanos na Flórida, na qual foram analisadas operações de combate ao crime organizado. O encontro, ao qual Lula não foi convidado, foi chamado de Escudo das Américas e tratava de segurança pública.
Integrantes do governo brasileiro temem que a classificação possa dar verniz legal a intervenções militares na América Latina e lembram da operação de captura do ditador Nicolás Maduro na Venezuela. Os Estados Unidos empregaram uma força aérea e naval militar numa suposta operação contra cartéis de drogas venezuelanos.
Além disso, o Executivo não vê respaldo para a classificação por entender que o crime de terrorismo, conforme a lei vigente no país, tem razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião.
Diplomatas que acompanham as discussões entendem que o vazamento da informação e o avanço da agenda, sobretudo nos escalões mais baixos da máquina burocrática americana, atende a clamores do lobby bolsonarista nos Estados Unidos, por opor os dois governos em ano eleitoral.
Encontro entre Lula e Trump
Vieira e Rubio também trataram da viagem do presidente Lula a Washington, adiada após o início dos conflitos com o Irã.
Lula pretende visitar a Casa Branca para tratar sobre a relação entre os países oficialmente. O encontro deve acontecer ainda neste mês, mas diante da dificuldade de agendas, uma data ainda não foi acertada.
O Palácio do Planalto tem buscado criar canais de confiança com a Casa Branca, mas sabe da objeção política de integrantes do Departamento de Estado próximos aos bolsonaristas, como o novo consultor de Políticas para o Brasil, Darren Beattie. O governo brasileiro, por isso, tem buscado discrição nos contatos.
A discussão sobre considerar PCC e CV grupos terroristas ganhou corpo no ano passado e pautou debates no Congresso Nacional, com clara adesão de parlamentares de direita e de oposição a Lula.
O Itamaraty não quis comentar o telefonema. Até a útlima atualização deste texto, o Departamento de Estado não havia respondido a um pedido de manifestação.
