
Partido desgastado há anos por uma disputa interna, o PSB gaúcho escreveu, na noite desta quarta-feira (4), um provável desfecho para a crise. Presidente da comissão provisória que dirige o partido, o ex-deputado federal José Stédile anunciou, em reunião ordinária, que 10 dos 11 integrantes do seu grupo político estavam renunciando coletivamente às funções executivas partidárias.
O grupo de Stédile conta com os deputados federal Heitor Schuch e estadual Elton Weber. Stédile também teria anunciado a decisão de Schuch de deixar a sigla — a janela partidária para deputados trocarem de agremiação política se abre nesta quinta-feira (5). Não foram feitos mais anúncios sobre eventuais saídas do PSB, embora a migração de Elton para outra legenda seja considerada possível.
Com o movimento, quem herda o poder é o grupo do ex-deputado federal Beto Albuquerque, que tinha seis integrantes na comissão provisória.
"No RS vamos reconstruir o PSB, fazer as chapas para deputados federais e estaduais que disputarão as eleições em outubro, dialogar muito com os demais partidos que apoiam o governo Lula e e conduzir nosso PSB do lado certo e coerente da sua história e na defesa da democracia", escreveu o ex-deputado em post nas redes sociais.
Beto foi nomeado após a renúncia coletiva dos adversários internos para assumir a presidência do partido.
A principal divergência entre as alas era sobre a participação no governo Eduardo Leite. O grupo de Stédile apoiava a aliança, e ele próprio ocupa cargo no Estado, como presidente da Fase. Esse agrupamento teve maioria no partido nos últimos anos.
Já a organização em torno de Beto defendia o afastamento do Palácio Piratini.
Os remanescentes da direção do PSB solicitaram à executiva nacional que nomeasse uma nova comissão provisória, sob a liderança de Beto, para conduzir o partido na eleição de 2026. O pleito foi atendido. Uma das providências será alinhar o diretório regional com a aliança nacional de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
— Isso abre a possibilidade de nos reposicionarmos no campo da esquerda, na oposição ao governo Leite, e de tentarmos, num curto espaço de tempo, recompor as nominatas que vão concorrer a deputado estadual e federal. É uma volta do PSB às suas origens, de onde nunca deveria ter saído. O PSB não tem mais nenhum compromisso com o governo Leite. Quem quiser permanecer, deverá ficar em cota pessoal — diz Juliano Paz, dirigente do PSB e aliado de Beto.
O grupo que assume a sigla no Rio Grande do Sul tenta atrair para suas fileiras a deputada estadual Bruna Rodrigues (PCdoB) nesta janela partidária. Com a anunciada saída do governo Leite e o alinhamento nacional a Lula, isso se torna mais viável. No Estado, o PSB deverá se reaproximar da esquerda e do PT.
Stédile, que renunciou à presidência da comissão provisória da sigla, se manifestou em nota e criticou o grupo de Beto. Confira a íntegra:
"Na noite desta quarta-feira (4/3), comunicamos ao presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro, João Campos, nossa renúncia da Comissão Provisória do PSB no Rio Grande do Sul. A decisão foi adotada por dez dos 17 membros da comissão.
A decisão foi tomada após um longo período de reflexões e debates em nosso grupo, uma vez que as arbitrariedades praticadas pelo grupo minoritário de dirigentes tornaram insustentável a nossa permanência à frente da direção partidária.
A recente manifestação do ex-deputado Beto Albuquerque, feita durante um evento do PT e amplamente repercutida na imprensa, é o exemplo mais recente do desgaste que enfrentamos desde a realização do nosso congresso — que foi legítimo e contou com a participação de centenas de lideranças de todo o Rio Grande do Sul.
Desde então, jamais houve, por parte do grupo derrotado, disposição real para o diálogo, a unificação e a construção coletiva. Pelo contrário, optaram por agir de forma isolada, unilateral e arbitrária, ignorando a vontade da maioria do partido e desrespeitando a base partidária. Nessas condições, a continuidade do nosso trabalho político tornou-se inviável.
Acreditamos na política construída de forma coletiva, com respeito aos fóruns partidários, à militância e aos princípios democráticos. Reafirmamos, também, nosso compromisso com uma ação baseada na coerência e no respeito à democracia.
Seguiremos guiando nossa caminhada não pelo discurso fácil ou pelo mundo quase fictício das redes sociais, mas pela prática cotidiana da política, feita com diálogo, responsabilidade e compromisso público.
José Luiz Stédile."




