
O escândalo do Banco Master revelou ao Brasil personagens até então pouco conhecidos do grande público, mas assíduos nas rodas políticas de Brasília e de grandes grupos econômicos do país. O dono da instituição, Daniel Vorcaro, mantém uma grande teia de contatos, que se estende a autoridades e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Nesta segunda-feira (9), o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, confirmou a existência de um contrato milionário com o Master. Segundo nota, a empresa produziu 36 pareceres para o banco e realizou 94 reuniões de trabalho com a empresa de Vorcaro.
Contudo, a advogada disse que nunca atuou em nenhuma causa do Banco Master no STF, o que poderia provocar a suspeição de Alexandre de Moraes — também citado como interlocutor de Vorcaro. No Congresso, um senador obteve assinaturas para instaurar uma CPI a fim de apurar a conduta do magistrado.
Confira, nesta reportagem, quem é quem no caso do Master:
Investigados:
Personagens da política
Banco Master
Investigados
Daniel Vorcaro

Banqueiro de 42 anos, Vorcaro ingressou no setor em 2016, quando adquiriu participação no Banco Máxima, então em dificuldades. Em 2018, assumiu o controle e, em 2021, rebatizou a instituição como Banco Master.
O banco de Vorcaro adotou uma estratégia agressiva no mercado financeiro, mas acabou em crise. A tentativa de venda da instituição para o Banco de Brasília (BRB) enfrentou resistência no Banco Central, que, mais tarde, decretou a liquidação do Master.
Em novembro de 2025, Vorcaro foi preso ao tentar deixar o país por suspeita de fraudes contra o sistema financeiro. O banqueiro voltou a ser preso em março de 2026.
Filho de Henrique Vorcaro, fundador da construtora Multipar, Daniel tem dois filhos.
Fabiano Zettel

Pastor evangélico vinculado à Igreja Batista da Lagoinha e cunhado de Vorcaro, seria o operador financeiro do grupo. Conforme a apuração policial, teria atuado na operacionalização de pagamentos ilícitos, na estruturação de contratos simulados para lavagem de dinheiro e no financiamento das atividades de vigilância. Foi preso em março de 2026.
Em 2022, Zettel foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro para presidente e de Tarcísio Gomes de Freitas para governador de São Paulo. Doou R$ 3 milhões para Bolsonaro e R$ 2 milhões para Tarcísio.
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário

Investigações apontam que ele integrava o "braço armado" da organização criminosa supostamente chefiada por Daniel Vorcaro. A investigação diz que Sicário executava ordens de intimidação física e moral, monitoramento de alvos e extração ilegal de dados em sistemas sigilosos.
Preso na Polícia Federal, tentou cometer suicídio. Morreu dias depois, em um hospital de Belo Horizonte.
De origem espanhola, o termo "sicário" é utilizado para designar executor de crimes sob encomenda, especialmente homicídios, associado à figura de mercenário ou matador contratado.
Paulo Sérgio Neves de Souza
Foi diretor de Fiscalização do Banco Central entre 2019 e 2023, na gestão de Roberto Campos Neto. Atuava como uma espécie de consultor informal de Vorcaro dentro da organização monetária, segundo as investigações. A suspeita é de que Paulo Sérgio forneceria informações antecipadas, sugerindo estratégias para interesses do Master junto ao BC.
Paulo Sérgio foi afastado do cargo por decisão do atual presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Belline Santana
Ex-chefe do departamento de Supervisão Bancária do BC, era responsável por ofícios e despachos enviados ao Ministério Público Federal relativos ao Master. De acordo com as investigações, teria prestado consultoria a Vorcaro e revisado documentos que o banco enviaria ao órgão regulador.
Outros investigados
- Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado: suspeito de obter informações sigilosas e monitorar clandestinamente alvos da organização
- Leonardo Augusto Furtado Palhares, advogado: suspeito de formalizar contratos fictícios usados para dar aparência de legalidade a pagamentos ilícitos
- Ana Claudia Queiroz de Paiva, diretora de empresa: investigada por operar transferências financeiras destinadas a sustentar o grupo
- João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos: empresa suspeita de ter cometido fraudes financeiras junto com o Banco Master
- Nelson Tanure, empresário: apontado como "sócio oculto" do Banco Master pela PF após ser descoberto que ele ganhou um relógio de luxo de Daniel Vorcaro. Além disso, aparece como beneficiário final de estruturas societárias ligadas ao Master.
Personagens da política
Alexandre de Moraes

O ministro do STF teria procurado o Banco Central, em meados de 2025, para tratar de interesses envolvendo o Master, de acordo com O Globo. Moraes negou as informações.
Já em março deste ano, foram reveladas supostas conversas entre Moraes e Vorcaro, no dia da primeira prisão do banqueiro, em 2025. Para manter o sigilo, eles teriam escrito textos em seus blocos de notas e enviado imagens de captura de tela com o recurso de visualização única.
Vorcaro teria questionado o magistrado se havia alguma novidade e chegou a perguntar diretamente: "Conseguiu bloquear?".
Moraes negou as conversas, dizendo, em nota, que as mensagens reproduzidas nas imagens não constariam como direcionadas a ele. O ministro ainda atribuiu o vazamento das informações à CPI do INSS no Congresso.
O jornal O Globo, responsável pela publicação dos supostos diálogos, reiterou que as mensagens foram extraídas e periciadas pela PF.
Viviane Barci de Moraes

Esposa de Alexandre de Moraes, a advogada manteve um contrato de representação do Master, segundo revelou o jornal O Globo em dezembro de 2025.
Nesta segunda, após meses de desgaste, o escritório de Viviane afirmou que o contrato com o Master previa remuneração de R$ 129 milhões ao longo de três anos. O valor chamou a atenção porque a advogada aparecia em poucos processos judiciais envolvendo o Master.
Viviane afirmou ter produzido pareceres e opiniões legais sobre assuntos relacionados ao compliance do banco, disse ter ajudado a implementar o código de ética do Master e que ainda auxiliou na "análise consultiva e estratégica de inquéritos policiais", sem explicar quais foram esses inquéritos nem qual o serviço exato prestado.
Dias Toffoli

A primeira suspeita de interferência na investigação surgiu quando o ministro assumiu o caso, após os advogados de Vorcaro solicitarem que o processo tramitasse no STF. Dias Toffoli colocou a investigação sob sigilo.
Anteriormente, o magistrado havia viajado a Lima, no Peru, para assistir à final da Copa Libertadores, na companhia de um dos advogados do banqueiro.
Em 2026, vieram à tona negócios mantidos entre Vorcaro e parentes do ministro. José Carlos e José Eugênio, irmãos de Toffoli, cederam uma fatia milionária no resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no Paraná, a um fundo investigado por abrigar negócios ligados ao Master.
Depois, o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, pediu a suspeição do ministro após encontrar menções ao magistrado no celular de Daniel Vorcaro. Toffoli deixou a relatoria do caso no STF em fevereiro.
Em 11 de março, sorteado pelo STF para assumir ação sobre a CPI do Master, Toffoli se declarou suspeito e declinou da relatoria. O ministro alegou "motivo de foro íntimo" para não analisar o pedido apresentado pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), que cobra a instalação da comissão na Câmara.
Ciro Nogueira

A PF encontrou, no telefone de Daniel Vorcaro, diálogos com o senador e presidente do PP, além de ordens do empresário para pagamento a uma pessoa de nome "Ciro", citado sem o sobrenome.
O senador piauiense foi autor de uma emenda que buscava aumentar o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil por CPF para R$ 1 milhão. O fundo é utilizado para ressarcir investidores lesados após fraudes ou quebras de instituições financeiras. O caso Master é o maior da história do FGC, com ressarcimento próximo a R$ 47 bilhões.
Mais nomes
- Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal: defensor da compra do Master pelo BRB
- Antônio Rueda, presidente do União Brasil: chegou a participar de reuniões sobre a compra do Master pelo BRB
- Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro: Rioprevidência fez aportes em letras financeiras do banco de Vorcaro
- Lauro Jardim, jornalista de O Globo: alvo de ameaças em mensagens de Vorcaro
- Luiz Inácio Lula da Silva, presidente: procurado por Vorcaro para uma reunião em 2024, disse ter defendido atuação técnica do BC em assuntos relacionados ao Master
- Ricardo Lewandowski, ex-ministro da Justiça: integrou o comitê estratégico do Master e tinha contrato de assessoria jurídica desde agosto de 2023 estimado em R$ 6,5 milhões, do qual se afastou para assumir a pasta. Seu filho manteve a prestação de serviços até setembro de 2025
- Rui Costa, ministro da Casa Civil: quando governador da Bahia, privatizou a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), repassando a estatal a um ex-sócio de Vorcaro
- Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda: quem levou Vorcaro para uma reunião com Lula no Palácio do Planalto em 2024
- Augusto de Arruda Botelho, advogado de diretor do Master: viajou com Dias Toffoli em um avião privado
- Jair Bolsonaro, ex-presidente: alvo de críticas e ofensas de Vorcaro, recebeu doação de campanha do cunhado do banqueiro
- Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo: recebeu doação de campanha do cunhado do banqueiro
- Nikolas Ferreira, deputado federal: em 2022, viajou em um jato de Vorcaro para participar da campanha de Jair Bolsonaro
- Hugo Motta, presidente da Câmara: teria participado de jantar com Vorcaro e outros empresários, é apontado como "aliado" de Vorcaro
- Davi Alcolumbre, presidente do Senado: trava a criação de uma CPI sobre o caso Master, é apontado como "aliado" de Vorcaro
- Carlos Viana, senador: presidente da CPI do INSS, que investiga a relação do Banco Master com a fraude no sistema previdenciário
- Gabriel Galípolo, presidente do BC: sob sua gestão, aconteceu a liquidação do Master
- André Mendonça, ministro do STF: novo relator do caso, após a saída de Dias Toffoli da ação
- Paulo Gonet, procurador-geral da República: teve a atuação no caso crticada por Mendonça









