
Confirmado pré-candidato do PSD à Presidência da República, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, terá como um dos principais desafios engajar o próprio partido na sua campanha. Na maioria dos Estados, o PSD já afiançou palanque para os principais antagonistas da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
No Rio Grande do Sul, a revolta com a decisão que tirou o governador Eduardo Leite da disputa coloca em dúvida a adesão a Caiado. Em nota pública, os 11 parlamentares da legenda — oito deputados estaduais e três federais, nove deles levados ao partido por Leite — não asseguraram apoio ao candidato do partido. "Escolhemos o PSD porque escolhemos Eduardo Leite", diz a nota.
Mais cedo, o próprio governador divulgou vídeo no qual critica a escolha do PSD e, em nenhum momento, cita o nome de Caiado. Para Leite, a escolha do correligionário goiano "tende a manter esse ambiente de polarização radicalizada que tanto limita o nosso país".
Divisão nos Estados
Durante todo o processo de escolha interna do PSD, que se estendeu por mais de nove meses, o presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, jamais buscou alianças com outros partidos e sempre deixou claro que havia liberado os diretórios estaduais. Dessa forma, em ao menos sete Estados, o PSD apoia a reeleição de Lula. Entre estes territórios, estão Rio de Janeiro e Bahia, dois dos maiores colégios eleitorais do país, Pernambuco e Sergipe, além de Estados do Norte, como o Amazonas, e do Centro-Oeste, como Tocantins e Mato Grosso do Sul, ambos com eleitorado predominantemente bolsonarista.
Em contrapartida, Flávio Bolsonaro é aliado do PSD em São Paulo, que concentra 22% dos eleitores do país, e tenta formar aliança em Minas Gerais, segundo maior eleitorado nacional. No Estado, o PSD apoia a candidatura presidencial de Romeu Zema (Novo), cotado para ser vice de Flávio.
A rigor, por enquanto, Caiado só tem o apoio declarado do PSD de Goiás, sua terra natal, do Paraná, onde o governador Ratinho Júnior prometeu suporte, e de Santa Catarina. Somados, esses Estados concentram 12,5% das pessoas aptas a votar em outubro.

Alinhamento ideológico
Outro desafio imposto ao governador será apresentar um discurso que o diferencie de Flávio Bolsonaro. Representante de uma oligarquia rural que historicamente manteve forte influência na política de Goiás, Caiado sempre se manteve à direita do espectro político. Embora tenha rompido com o então presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia, logo buscou reconciliação.
Nos últimos meses, faz da anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro e pela trama golpista uma de suas principais promessas de campanha. A segurança pública, com maior rigor penal, também se assemelha à plataforma eleitoral do PL.
Caiado buscou o PSD após pressentir que não conseguiria ser candidato pelo União Brasil, partido que sucedera o DEM e o PFL, legendas às quais esteve atrelado por mais de 30 anos. Por coincidência, em 1989 havia concorrido à Presidência por outro PSD, partido que existiu de 1987 a 2003 — a atual sigla foi refundada por Kassab em 2011.
Embora tenha anunciado a nova filiação em janeiro, só oficializou a mudança há duas semanas, em 14 de março. Nos bastidores, a demora era justificada pela desconfiança de que não fosse o escolhido Kassab. Neste caso, poderia buscar um terceiro abrigo partidário em sua empreitada presidencial.
Cálculo eleitoral

Ao anunciar Caiado como o representante do PSD nas urnas, Kassab estima que ele tem condições de unir o partido no Centro-Oeste, a partir de sua liderança em Goiás, e de que tem forte penetração no agronegócio, setor capaz de irrigar a campanha com recursos financeiros e materiais.
Nos bastidores, porém, circulam rumores no Palácio do Planalto, no Palácio Piratini e no Palácio Iguaçu, sede do governo paranaense, de que a escolha de Caiado passou por uma conversa de Kassab com Lula. Célebre pelo pragmatismo com que conduz suas decisões, Kassab teria atendido a um pedido do presidente, que preferiria ter Caiado a Leite como adversário no PSD.
Na visão do mandatário, Caiado tiraria votos de Flávio Bolsonaro, enquanto o gaúcho teria condições de atrair eleitores tanto do PT como do PL, tornando-se uma alternativa de centro numa disputa até então polarizada. Com Caiado, Lula almejaria transformar a eleição em um plebiscito entre direita e esquerda, lulismo e bolsonarismo, panorama que, no entorno presidente, é visto como meio para pavimentar eventual vitória já no primeiro turno.




