
A trajetória jurídica do Caso Master, desde a liquidação em novembro de 2025, é marcada por uma sucessão de fatos envolvendo a Corte máxima do país, sobretudo na figura dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. A relação do banqueiro Daniel Vorcaro colocaram o Supremo no centro do palco de uma crise que extrapolou o aspecto financeiro.
Veja, abaixo, a cronologia do Banco Master com o STF
1. A fase do sigilo (Novembro 2025 - Janeiro 2026)
Logo após a liquidação determinada pelo Banco Central, o caso chegou ao STF sob a relatoria do ministro Dias Toffoli. Toffoli se tornou relator após sorteio. O caso foi enviado ao STF, ação que na época foi justificado por uma citação nas investigações ao deputado federal João Carlos Bacelar (PL -BA). Porém, segundo a PF, o parlamentar não é alvo nas investigações de fraudes financeiras.
Toffoli impôs sigilo rigoroso aos autos, suspendeu perícias e interrogatórios.
2. Alexandre de Moraes entra em cena (Fevereiro 2026)
Alexandre de Moraes entrou no cenário quando a imprensa descobriu que a esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master. Moraes teria discutido a venda do Master ao BRB com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. Ambos confirmaram o encontro, mas negaram terem conversado sobre o tema.

3. Sai Toffoli, entra André Mendonça (Fevereiro - Março 2026)
O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, pediu a suspeição de Dias Toffoli após encontrar menções ao magistrado no celular de Daniel Vorcaro.
Por conta do novo achado a partir de perícias nos aparelhos de Vorcaro, a direção da PF optou por entregar um relatório ao presidente do Supremo, Edson Fachin.
Negócios com parentes do ministro
José Carlos e José Eugênio, irmãos do ministro do STF, cederam uma fatia milionária no resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no Paraná, a um fundo da Reag Investimentos, investigada por abrigar teias de fundos ligados ao Banco Master e suspeitos de sonegação bilionária no mercado de combustíveis.
José Carlos Dias Toffoli é padre na cidade de Marília, reduto do ministro, e José Eugênio é engenheiro.
Documentos da Junta Comercial do Paraná mostram que a fatia dos irmãos chegou a ser de R$ 1,37 milhão na Tayayá Administração e de outros R$ 5,4 milhões na DGEP Empreendimentos.
Os dois aparecem como sócios na Maridt Participações, que detinha parte do resort no interior do Paraná. Toffoli confirmou ser sócio de empresa ligada ao resort, mas negou relação direta com Vorcaro.

O negócio foi intermediado por fundos de investimentos geridos pela Reag. Reportagens mostraram que os irmãos do ministro tinham patrimônio de R$ 380 mil quando compraram cotas no valor de R$ 4,55 milhões do resort.
No dia 12 de fevereiro, os ministros do STF se reuniram para discutir o caso. Após o encontro, ficou acertado que Toffoli deixaria a relatoria. No mesmo dia, o ministro André Mendonça assumiu o caso no STF.
Em nota, o STF afirmou que o ministro — "considerados os altos interesses institucionais" — pediu que o tema fosse redistribuído para outro magistrado relatar o caso.
O documento foi assinado pelos outros 10 ministros da Corte que demonstraram apoio pessoal ao ministro Dias Toffoli e defenderam as ações do magistrado, declarando "não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição".
No dia seguinte surgiu a suspeita de que a reunião que selou a saída de Toffoli do caso foi gravada clandestinamente.
Sorteado pelo STF para assumir ação sobre a CPI do Master, em 11 de março, Toffoli se declarou suspeito. O ministro alegou "motivo de foro íntimo" para não analisar o pedido que cobra a instalação da comissão na Câmara, feito pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF).
Mendonça assume a relatoria

O desdobramento jurídico do caso envolvendo o Banco Master atingiu um novo patamar na semana passada. Sob determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal deflagrou a terceira fase da Operação Compliance Zero, que resultou em uma nova prisão do dono da instituição, Daniel Vorcaro, e de outros investigados.
Diante do que classificou como "risco concreto à ordem pública, à instrução criminal e à aplicação da lei penal", o ministro decretou também a prisão preventiva de:
- Fabiano Campos Zettel, descrito como operador financeiro e cunhado do banqueiro
- Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado como responsável pelo núcleo de intimidação
- Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado e integrante do grupo "A Turma"
Além das prisões, foram determinadas medidas cautelares diversas, entre elas:
- Uso de tornozeleira eletrônica e afastamento de funções públicas para os servidores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana
- Medidas restritivas contra Leonardo Palhares, ligado a empresa apontada como de fachada, e Ana Claudia Paiva, funcionária de Vorcaro responsável pela operacionalização de pagamentos
- Suspensão das atividades de cinco empresas utilizadas, segundo a investigação, para lavagem de dinheiro, incluindo Varajo Consultoria, King Participações e Super Empreendimentos
O embasamento das prisões
A decisão do STF fundamenta-se em novas provas obtidas após a perícia de aparelhos celulares apreendidos em fases anteriores. A investigação aponta para a existência de uma estrutura criminosa descrita pela Polícia Federal como uma "milícia privada", utilizada para monitorar e intimidar adversários, autoridades e profissionais de imprensa.
A defesa de Daniel Vorcaro protocolou pedidos de habeas corpus e questiona a divulgação de mensagens sigilosas extraídas dos celulares apreendidos.
4. Moraes volta a ficar sob os holofotes
Alexandre de Moraes negou uma suposta troca de mensagens com Daniel Vorcaro. A nota foi divulgada pela Secretaria de Comunicação do STF a pedido do gabinete de Moraes
De acordo com informações da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, o banqueiro e o ministro trocaram mensagens pelo WhatsApp durante todo o dia 17 de novembro de 2025, data em que o dono do Banco Master foi preso pela Polícia Federal.
Dados extraídos do celular do executivo revelaram que ele prestava contas ao ministro sobre as negociações de venda do banco e sugerem diálogos a respeito do inquérito sigiloso que tramitava na Justiça Federal de Brasília.
A apuração detalhou que as conversas ocorreram entre 7h19min e 20h48min, pouco antes da abordagem policial no aeroporto de Guarulhos. Para manter o sigilo, tanto Vorcaro quanto Moraes escreviam textos em seus blocos de notas, capturavam a tela e enviavam as imagens com o recurso de visualização única. Por essa razão, as respostas do ministro não estão disponíveis, mas as notas de Vorcaro permaneceram acessíveis no histórico do aparelho.

Bloqueio bilionário e medidas cautelares
Para garantir o ressarcimento do Sistema Financeiro Nacional e de credores, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 22 bilhões em bens e ativos vinculados ao grupo.
A medida também atingiu o quadro funcional do órgão regulador: dois servidores do Banco Central (BC) foram afastados de suas funções e estão sob monitoramento eletrônico (tornozeleira), sob suspeita de fornecerem informações privilegiadas e orientarem a cúpula do Master sobre como proceder em reuniões oficiais com a diretoria do BC.
O STF deve analisar, em plenário virtual a partir do dia 13 de março, se referenda a manutenção das prisões preventivas.

