
A janela de migração partidária, período em que parlamentares podem trocar de sigla sem correr o risco de perda de mandato por infidelidade, está aberta desde esta quinta-feira (5) até o dia 3 de abril.
A definição consta em resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e determina que, dentro do prazo estabelecido, os deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de legenda por justa causa, sem penalização, para concorrer às eleições majoritária e proporcional de outubro de 2026.
Nas bancadas estadual e federal do Rio Grande do Sul, a janela começa com a possibilidade de nove a 12 trocas de agremiações, pelo menos. Em geral, as mudanças são motivadas por cálculos sobre em qual partido os parlamentares terão melhor chance de se reeleger, reposicionamentos políticos e resolução de desavenças internas.
Mudanças na base de Leite
A maioria das modificações irá acontecer em legendas que participam ou já compuseram a base aliada do governo Eduardo Leite. O principal beneficiado será o PSD, sigla que recebeu Leite após a saída dele do PSDB.
A migração do governador, realizada em maio de 2025, deverá ser acompanhada na atual janela pelo deputado federal Lucas Redecker e pelos estaduais Delegada Nadine, Pedro Pereira e Neri, O Carteiro, todos do PSDB. O deputado estadual Professor Bonatto já tinha deixado o tucanato antes mesmo da janela, igualmente com filiação ao PSD.
Também da bancada estadual do PSDB, Kaká D’Ávila é outro de saída, mas seu destino é o Podemos.

O PSD ainda pode contar com a adesão de outros dois nomes. Embora envoltas em indecisão, são consideradas prováveis as saídas do PSB do deputado federal Heitor Schuch e do estadual Elton Weber. Nos bastidores, o PSD é considerado um dos destinos pavimentados, apesar de eles terem convites do MDB, do PP e do União Brasil.
— Conversamos com Heitor e Elton e acreditamos que o PSD é um bom caminho. A decisão deles deve ocorrer ao longo de março — diz Artur Lemos, chefe da Casa Civil do Palácio Piratini e 1º vice-presidente do PSD gaúcho.
Com o advento da janela, o PSD, que havia eleito um deputado federal e um estadual em 2022, deverá saltar para dois a três federais e cinco a seis estaduais.
— O movimento do governador tem peso preponderante, mas também temos o posicionamento partidário. Hoje, quem está na centro-direita é o PSD — diz Lemos, apontando um possível alinhamento das demais siglas "com a direita radical ou com a esquerda".
Reflexos no PSDB
O inchaço do PSD levará à desidratação do PSDB, legenda mais prejudicada da janela. Dos sete parlamentares eleitos em 2022 — cinco estaduais e dois federais —, os tucanos tendem a manter apenas um, o deputado federal Daniel Trzeciak.
— Ele (Daniel) manifestou que fica, acreditamos nisso e temos todo um trabalho partidário para confirmar. Vamos fazer um plano de nominata para que ele seja reeleito deputado federal e buscarmos a segunda cadeira — afirma Moisés Barboza, presidente estadual do PSDB.
Barboza realça a expectativa tucana de resgatar uma cadeira na Assembleia Legislativa: como Bonatto migrou para o PSD antes da abertura da janela, o PSDB está requisitando na Justiça Eleitoral a retomada do mandato por infidelidade partidária. O líder tucano não perde a esperança de manter outros deputados estaduais.
— Existem parlamentares do PSDB que já tinham anunciado que iriam com o governador e estão recalculando a rota. Estamos conversando — diz Barboza, sem mencionar os nomes dos possíveis arrependidos.
Outras trocas em jogo
A deputada federal Any Ortiz, nome lembrado para disputar a prefeitura de Porto Alegre em 2028, encaminhou a migração do Cidadania para o PP. O deputado federal Covatti Filho, presidente regional do Progressistas, sinaliza a hipótese de ampliação dos reforços: ele afirma ter diálogo com dois deputados federais, incluindo Any, e mais dois estaduais.
— A situação com a Any está muito avançada e já é pública. Os demais ainda não posso falar quem são, existem construções em andamento, mas digo que um deles tem debate avançado e outros dois estão na metade do caminho — afirma Covattinho.

As derradeiras trocas do cenário gaúcho tendem a ser pontuais. A bancada do PL na Assembleia Legislativa recebe a filiação de Claudio Branchieri, de saída do Podemos. O deputado estadual Elizandro Sabino deverá deixar o PRD, sigla de pequena estrutura eleitoral, rumo ao Republicanos.
— Não temos ninguém saindo. E, nas perspectivas de chegadas, a conversa avançada é com o Sabino — afirma o deputado federal Carlos Gomes, presidente estadual do Republicanos.
O deputado estadual Thiago Duarte (União Brasil) avalia a hipótese de retorno ao PDT.
— Conversamos, ele tem antiga simpatia trabalhista, mas não há nada definido. Depende da vontade dele e da estratégia — diz Romildo Bolzan Júnior, presidente estadual do PDT.
Poucas mudanças na esquerda
É cogitada apenas uma troca nas bancadas de esquerda que fazem oposição ao governo Leite: a saída da deputada estadual Bruna Rodrigues do PCdoB. As direções de PT e PSOL afirmam não ter interlocução com Bruna sobre o tema. Os destinos mencionados são a Rede, que tem federação com o PSOL, ou o PSB.
Embora tenha apoiado o governo Leite, o PSB gaúcho enfrenta uma penosa disputa interna cujo desfecho pode ser a devolução do poder partidário regional para o grupo do ex-deputado federal Beto Albuquerque.
Caso o movimento se confirme, Beto irá alinhar o diretório do PSB à aliança nacional de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No Estado, a legenda deixaria a base aliada de Leite. Com os reposicionamentos, estaria aberta a porta para o ingresso de Bruna. Isso levaria o PSB a manter ao menos um deputado estadual, ante as iminentes saídas de Heitor Schuch e Elton Weber.
Presidente estadual do PCdoB, Edison Puchalski afirma que "especulações" circulam sobre o futuro da parlamentar. Ele manifestou expectativa de permanência.
— A deputada Bruna Rodrigues é uma importante liderança do PCdoB e do campo progressista. Construiu sua trajetória em sintonia com o projeto político do partido. Nos orgulhamos do seu mandato e temos diálogo permanente com ela — disse Puchalski.
Infidelidade partidária e janela
- A janela partidária, aberta entre 5 de março e 3 de abril de 2026, permite trocas de partidos para os deputados federais, estaduais e distritais.
- Os vereadores não poderão se beneficiar do prazo neste ano. Para eles, a janela de mudança de legenda sem configuração de infidelidade se abrirá somente em 2028, quando acontecerão eleições municipais.
- O entendimento da Justiça Eleitoral é de que os mandatos conquistados nas eleições proporcionais, como o dos deputados, são dos partidos. Isso ficou determinado porque o sistema proporcional não considera somente os votos diretos nos candidatos a deputado, mas também os das nominatas partidárias e os das siglas. Na prática, um deputado é eleito contando com a soma dos votos dos colegas de partido e do número da legenda.
- Pela legislação atual, o princípio de infidelidade partidária não se aplica aos eleitos para cargos majoritários, como presidente, governador e senador.
