
Em nota divulgada nesta quinta-feira (12), o gabinete do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou qualquer relação pessoal ou financeira do magistrado com Daniel Vorcaro – presidente do Banco Master e alvo de investigação da Polícia Federal por suposta fraude bilionária.
O texto também esclarece a participação de Toffoli na Maridt, empresa ligada a José Carlos e José Eugênio, irmãos do magistrado. O ministro argumenta que não participa da administração da Mardit, mas confirma que integra o quadro societário.
"A Maridt é uma empresa familiar, constituída na forma de sociedade anônima de capital fechado, prevista na Lei 6.404/76, devidamente registrada na Junta Comercial e com prestação de declarações anuais à Receita Federal do Brasil. Suas declarações à Receita Federal, bem como as de seus acionistas, sempre foram devidamente aprovadas", diz trecho.
A Maridt vendeu parte do resort Tayayá, no Paraná, para um fundo da Reag Investimentos, empresa ligada ao Master.
Confira a nota na íntegra
Nota do Gabinete do Ministro Dias Toffoli
A Maridt é uma empresa familiar, constituída na forma de sociedade anônima de capital fechado, prevista na Lei 6.404/76, devidamente registrada na Junta Comercial e com prestação de declarações anuais à Receita Federal do Brasil. Suas declarações à Receita Federal, bem como as de seus acionistas, sempre foram devidamente aprovadas.
O Ministro Dias Toffoli faz parte do quadro societário, sendo a referida empresa administrada por parentes do Ministro. De acordo com a Lei Orgânica da Magistratura, no artigo 36 da Lei Complementar 35/1979, o magistrado pode integrar o quadro societário de empresas e dela receber dividendos, sendo-lhe apenas vedado praticar atos de gestão na qualidade de administrador.
A referida empresa foi integrante do grupo Tayaya Ribeirão Claro até 21 de fevereiro de 2025. A participação anteriormente existente foi integralmente encerrada por meio de duas operações sucessivas, sendo a primeira a venda de cotas ao Fundo Arllen, em 27 de setembro de 2021, e a segunda a alienação do saldo remanescente à empresa PHD Holding, em 21 de fevereiro de 2025.
Deve-se ressaltar que tudo foi devidamente declarado à Receita Federal do Brasil e que todas as vendas foram realizadas dentro de valor de mercado. Todos os atos e informações da Maridt e de seus sócios estão devidamente declarados à Receita Federal do Brasil sem nenhuma restrição.
A ação referente à compra do Banco Master pelo BRB foi distribuída ao Ministro Dias Toffoli no dia 28 de novembro de 2025. Ou seja, quando há muito a Maridt não fazia mais parte do grupo Tayaya Ribeirão Claro.
Ademais, o Ministro desconhece o gestor do Fundo Arllen, bem como jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro. Por fim, o Ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel.
Entenda a relação de Toffoli com o Banco Master
Relatoria e viagem ao Peru
A ligação do nome de Dias Toffoli com o Banco Master começou em 28 de novembro de 2025, quando o ministro assumiu a relatoria do caso que investiga a instituição no Supremo Tribunal Federal (STF). Na época, ele foi designado por sorteio.
No dia seguinte ao sorteio no STF, Toffoli viajou para Lima, no Peru, no jatinho particular do empresário e ex-senador Luiz Oswaldo Pastore, no qual também estava Augusto Arruda Botelho – advogado do diretor de compliance do Banco Master, Luiz Antônio Bull. A informações foi revelada em dezembro pelo colunista do jornal O Globo Lauro Jardim.
Ainda em dezembro, à véspera do Natal, Toffoli determinou uma acareação entre Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, Ailton de Aquino Santos, diretor do Banco Central, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. A decisão, no entanto, surpreendeu a Polícia Federal, porque nenhum deles havia prestado depoimento até então.
Sigilo e decisões polêmicas
Em dezembro do último ano, Toffoli colocou sigilo absoluto sobre o inquérito que corre no STF. O ministro também determinou que a Polícia Federal necessitaria de sua aprovação prévia para realizar qualquer diligência ligada ao Master.
No dia 12 de janeiro deste ano, Toffoli restringiu o acesso da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPI) do INSS aos documentos ligados ao Banco Master. A decisão vedou o acesso as quebras de sigilo bancário, fiscal e eletrônico de Daniel Vorcaro.
Já no dia 14 do mesmo mês, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Compliance Zero, que mira a fraude bilionário do Master. Os alvos foram Fabiano Zettel e Nelson Tanures, sócios de Daniel Vorcaro. Na ocasião, foram apreendidos 39 celulares, 31 computadores, 30 armas, R$ 645 mil em espécie e 23 veículos, avaliados em R$ 16 milhões.
Ainda no dia 14 de janeiro, Toffoli determinou que os celulares e computadores apreendidos fossem "lacrados" e "amarzenados" no STF e mantidos sob sua responsabilidade. A medida impediu a perícia e acesso diretos dos investigadores da PF. À noite, Toffoli decidiu que os materiais apreendidos fossem encaminhados à Procuradoria-Geral da República (PGR), que já havia se posicionado favorável a manutenção das provas na PF.
Em 16 de janeiro deste ano, Toffoli retirou parte do sigilo que havia colocado sobre as quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico de Vorcaro – decisão que havia tomado em 6 de janeiro.
Resort no Paraná
Situado em Ribeirão Claro, no Paraná, o resort Tayayá foi centro de uma negociação entre José Carlos e José Eugênio, irmãos de Dias Toffoli, com o fundo Reag Investimentos – empresa ligada ao Banco Master.
Ambos irmãos do ministro venderam uma parte do resort à Reag e aparecem como sócios da Maridt Participações, detentora de fatia do Tayayá. O local funciona como reduto de Toffoli.
Celular de Vorcaro
O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, pediu a suspeição do ministro após encontrar menções ao magistrado no celular de Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira.
Por conta do novo achado a partir de perícias nos aparelhos de Vorcaro, a direção da PF optou por entregar um relatório ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin. O encontro ocorreu na última segunda-feira (9).
A agenda de Fachin registra encontro com o diretor-geral da PF, delegado Andrei Rodrigues, na segunda-feira, às 11h30min. O tema do encontro anotado é genérico: "Fluxo processual ordinário".
Segundo fonte do tribunal que teve acesso ao documento, o pedido da PF destaca trechos de diálogos registrados em aparelhos de Vorcaro com menções ao nome de Toffoli. Além de citações, o site UOL noticiou que há conversas entre o próprio Vorcaro e o ministro do Supremo. A informação foi confirmada ao Estadão por pessoas com acesso ao resultado da investigação.
Após ser informado do caso, Fachin abriu um processo interno e determinou a notificação de Toffoli para apresentar defesa. Caberá ao presidente do STF decidir se Toffoli continuará como relator da investigação do Master.
Colapso do Master
Controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master cresceu rapidamente ao oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDB) com rentabilidade muito acima da média do mercado.
Para sustentar o modelo, o banco passou a assumir riscos excessivos e a estruturar operações que inflavam artificialmente seu balanço, enquanto a liquidez real (dinheiro imediatamente disponível para ressarcir os investidores) se deteriorava.
As investigações da Polícia Federal e os relatórios do BC apontam que o colapso do Master não foi apenas financeiro, mas também institucional.
A conexão com a gestora Reag Investimentos, a tentativa de venda ao Banco de Brasília (BRB) e a pressão sobre órgãos de controle transformaram o caso em um xadrez complexo, com impacto direto sobre investidores e sobre a credibilidade das instituições.
Entre 2023 e 2024, o Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de triangulações. O banco emprestava recursos a empresas supostamente laranja que aplicavam o dinheiro em fundos da gestora Reag Investimentos.
Esses fundos compravam ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por preços inflados. O Banco Central, então, identificou seis fundos da Reag suspeitos, com patrimônio conjunto de R$ 102,4 bilhões — dinheiro que circulava entre fundos ligados aos mesmos intermediários, até chegar aos beneficiários finais.
Em novembro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro e outros acusados foram alvo da Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF para investigar a concessão de créditos falsos pelo Banco Master, incluindo a tentativa de compra da instituição financeira pelo Banco Regional de Brasília (BRB), banco público ligado ao governo do Distrito Federal. De acordo com as investigações, as fraudes podem chegar a R$ 17 bilhões.
O banqueiro Vorcaro foi preso enquanto tentava fugir do Brasil em novembro de 2025; ele foi libertado 10 dias depois e é monitorado por tornozeleira eletrônica.
*Produção: Lucas de Oliveira


