
Com a perda de aliados e a indefinição em torno da eventual renúncia do governador Eduardo Leite, o MDB trabalha para mostrar força em torno da candidatura do vice, Gabriel Souza. O partido fez três reuniões na semana passada e busca mobilizar as bases eleitorais na pré-campanha.
A orientação principal é reunir a militância em todas as agendas de Gabriel no Interior. Desde que retornou das férias, o emedebista tem intensificado as viagens, quase sempre na companhia de Leite. O objetivo é aproveitar inaugurações e participações em feiras e eventos para associar a imagem do vice à do governador, tentando angariar uma parte de sua popularidade.
As reuniões foram convocadas pelo presidente do diretório estadual, deputado Vilmar Zanchin, mas sob comando do próprio Gabriel. Ciente da desconfiança que uma ala do partido nutre em relação à competitividade da candidatura, o vice quer reverter esse sentimento a partir da presença de prefeitos, vereadores e deputados estaduais em cada visita nos municípios.

Melo descarta substituir Gabriel
Nas últimas semanas, surgiram rumores de que Gabriel poderia ser substituído na urna pelo prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. No final de janeiro, Zanchin falou a Zero Hora que a hipótese de "troca de candidatura está descartada".
Contudo, o burburinho aumentou após Melo participar do 36º Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria, em 7 de fevereiro. Com tradição de receber candidatos em pré-campanha, o evento havia sido prestigiado no dia anterior por Luciano Zucco (PL) e Covatti Filho (PP), que ensaiam uma aliança.
Melo circulou pelos estandes, cumprimentou o público e postou fotos nos stories do Instagram. A postura alimentou boatos de que estaria testando sua projeção fora da Capital.
O prefeito descartou qualquer pretensão de concorrer na eleição de outubro e disse que foi a Vacaria porque há anos devia uma visita à cidade, sua primeira parada quando veio morar no Rio Grande do Sul nos anos 1970. Em conversas reservadas, elenca as dificuldades de deixar o cargo, entre elas o temor de desarticulação da base governista na Câmara de Vereadores e a inexperiência da vice, Betina Worm, em administrar uma cidade do porte de Porto Alegre.

Incertezas, apesar de apoio interno
Internamente, não há contestações à candidatura de Gabriel. Ele tem maioria no diretório, na bancada estadual e entre as principais lideranças do partido. Todavia, as dificuldades de montar um palanque robusto inquietam os emedebistas.
Ao menos três partidos que dão sustentação ao Piratini na Assembleia Legislativa caminham para selar uma coligação com o PL: PP, Podemos e Republicanos. Das 10 legendas da base, o MDB somente tem garantida a aliança com o PSD de Eduardo Leite. O União Brasil declarou apoio a Gabriel, mas tem seu futuro condicionado à federação firmada com o PP.
PDT e PSB, que também integram a base do governo, visam a um caminho eleitoral pela centro-esquerda. A pré-candidatura de Juliana Brizola busca aproximação com o PT, enquanto os socialistas devem repetir, com os petistas, a aliança nacional.
Contribui para a insegurança do partido a demora do governador em anunciar seu futuro político. Leite tenta se viabilizar candidato à Presidência da República, mas acabou surpreendido com a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD no final do mês passado. A chegada de Caiado congestionou a disputa interna no partido, que já contava com Leite e o governador do Paraná, Ratinho Jr, como pré-candidatos.
O quadro ficou ainda mais nebuloso para o gaúcho depois que o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, marcou para 15 de abril a data da escolha de seu candidato. Como a desincompatibilização dos cargos de quem pretende concorrer precisa ocorrer até a primeira semana de abril, Leite teria de renunciar sem garantia de que seria candidato à Presidência. No entorno do governador, esse contexto reforçou o sentimento de que ele vai concluir o mandato e não disputar nenhum cargo em 2026.
Esse cenário preocupa o MDB, já que o partido conta com a visibilidade que Gabriel teria como governador para decolar nas pesquisas e atrair aliados.

A sigla também tem dificuldade em montar uma nominata forte para a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa. Em 2022, o MDB viu as bancadas diminuírem após a perda de um deputado federal e dois estaduais — com a redução de quatro para três assentos na Câmara e de oito para seis na Assembleia. Dos três federais, apenas Alceu Moreira vai à reeleição, já que Osmar Terra migrou para o PL e Márcio Biolchi vai largar a vida pública.
Cálculos informais que circulam no partido apontam que o MDB deve eleger dois federais e cinco estaduais. A eventual perda de competitividade se reflete na atração que a legenda exerce sobre os demais parlamentares. Em meio à migração que deve movimentar a janela partidária de março, dirigentes do partido não preveem a chegada de nenhum novo deputado.
