
Utilizado há mais de dois séculos, um par de termos segue organizando o debate público em países como o Brasil ao classificar desde políticos até amigos e familiares em lados opostos. Os antônimos "esquerda" e "direita" nasceram no berço da Revolução Francesa, testemunharam a Revolução Russa, sobreviveram à Guerra Fria e chegam às primeiras décadas do século 21 na ordem do dia.
Entre as razões da longevidade vocabular estão a simplicidade das palavras e sua capacidade de assumir novas nuances ao longo do tempo e de acordo com a cultura de cada lugar. Em solo brasileiro, incluem hoje aspectos como religião, identidade e conceitos sobre família.
— Essa dualidade vem sendo usada desde o início da contemporaneidade, abrangendo o linguajar dos especialistas e dos atores políticos — sustenta o cientista político Marcos Paulo dos Reis Quadros, autor do livro O que Há de Novo na Nova Direita? (EdiPUCRS). — Por isso, é natural que tenha se espalhado também para o senso comum da sociedade. Se tornou uma tradição. É funcional, servindo para distinguir posições em uma perspectiva que vê a política como essencialmente conflitiva.
Podem existir gradações, mas direita e esquerda funcionam como guarda-chuvas que facilitam o entendimento.
MARCOS PAULO DOS REIS QUADROS
Cientista político
Como surgiram os dois termos
A divisão da política em dois lados antagônicos tem origem na assembleia constituinte que se seguiu à deflagração da Revolução Francesa, em 1789, com a missão de determinar quanto poder deveria ser permitido ao Rei Luís XVI.
Nas cadeiras localizadas à direita do presidente da assembleia, se aglutinaram os integrantes da ala mais conservadora e simpática à Coroa, defensores de mudanças mais brandas e graduais em favor da ordem e da tradição. À esquerda, os adeptos de alterações mais rápidas e profundas em busca de maior igualdade entre os franceses.
Ainda atuais
Ao longo dos anos, a referência espacial se consolidou como identificação de posicionamento ideológico. Embora os conceitos tenham preservado os fundamentos originais — opondo conservadores e progressistas —, ao longo do tempo foram assumindo diferentes matizes capazes de manter os termos sempre atuais.
Após a Revolução Russa, por exemplo, a esquerda foi associada ao comunismo e ao socialismo, enquanto a direita abraçava o capitalismo. Com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, muitos progressistas passaram a preconizar a combinação de políticas de mercado com programas sociais, enquanto seus adversários apregoavam as vantagens da globalização e do liberalismo econômico.
O que é ser de direita e de esquerda hoje?
Uma das principais distinções atuais entre as duas linhas ideológicas é a concepção sobre o tamanho e a função do Estado.
Enquanto o campo da esquerda tende a defender mais intervenção estatal na economia e programas de distribuição de renda a fim de reduzir desigualdades sociais, a ala conservadora privilegia a iniciativa privada como motor do desenvolvimento e sustenta que o financiamento às ações do Estado eleva a carga tributária e compromete o combate à desigualdade.
Particularidades brasileiras
Além disso, em países como o Brasil, a esquerda encampou a luta de grupos sociais específicos, como a população LGBT+, pretos, feministas, entre outros, enquanto a ala conservadora se apegou a pautas ligadas a costumes sob influência crescente de grupos evangélicos.
Esses conceitos de direita e esquerda ainda são importantes e funcionam como um norte (do posicionamento político). Mas há, no mundo todo, algumas metamorfoses importantes.
CARLOS BORENSTEIN
Analista da Arko Advice
— No caso brasileiro, no caso da chamada nova direita, temos uma preponderância da comunidade evangélica na pauta dos costumes, muito alinhada à defesa da família tradicional. A esquerda tem uma preocupação grande com a defesa dos pretos, das mulheres por meio do combate ao feminicídio. Tende a dar mais centralidade a essas bandeiras de identidade — avalia o cientista político e analista da Arko Advice Carlos Borenstein.
Lulismo X bolsonarismo
Quadros observa que, nos últimos anos, direita e esquerda ganharam sobrenomes próprios em solo brasileiro:
— No Brasil atual, é evidente que a esquerda ficou associada ao lulismo e a seus grupos de apoio, ao passo que a direita se liga ao campo do bolsonarismo. Mas, para além disso, há sentidos mais profundos. Enquanto a direita se associa à tradição incluindo, muitas vezes, alguma acepção religiosa da vida e à construção da ordem com rigor no combate à criminalidade e apoio aos legados e hierarquias, a esquerda aposta mais na mudança, desafiando tradições e defendendo visões seculares, bem como na busca pela igualdade.
Diferenças internas
Borenstein observa ainda que a complexidade do mundo atual leva ao surgimento de diferentes posicionamentos dentro de uma mesma ala política e com variações entre países:
— Não se pode falar de uma direita e de uma esquerda. Há uma ultradireita mais autoritária e, nos Estados Unidos, por exemplo, o Trump não se preocupa tanto com a liberdade de mercado. Usa tarifas como forma de proteger a economia americana. Já na esquerda, também não há consenso sobre o que deveria ser a pauta identitária hoje.
Apesar das complexidades do mundo moderno, Quadros acredita que os termos usados para representar a dualidade da política mundial continuarão sendo usados:
— A despeito de questionamentos mais recentes, direita e esquerda ainda reinam como termos soberanos quando se fala em política, e creio que seguirão reinando por muito tempo.
O dois lados ao longo da história
Revolução Francesa (1789)
Surgem os termos esquerda e direita aplicados ao contexto político. Esquerda se vincula à defesa de mudanças mais radicais no regime monarquista francês e de maior igualdade entre as pessoas. A direita preconiza a defesa da tradição e da ordem, com mudanças mais lentas e graduais.
Revolução Russa (1917)
A esquerda passa a ser associada, em grande parte, ao socialismo e ao comunismo. A direita, ao capitalismo e ao anticomunismo.
Guerra Fria (1947-1991)
O mundo se organiza em torno da disputa capitalismo e socialismo, consolidando a divisão ideológica entre os dois sistemas políticos e econômicos.
Queda do Muro de Berlim (1989)
O bloco socialista é enfraquecido, o que se aprofunda com o fim da União Soviética, e muitos partidos desse campo assumem políticas de mercado combinadas a programas sociais. Esquerda prioriza intervenção do Estado para reduzir desigualdades, direita prega menos interferência estatal e mais protagonismo da iniciativa privada para alcançar desenvolvimento social.
Século 21 — Novos conceitos
Novos temas como meio ambiente, identidade, costumes, globalização, religião e tecnologia tornam a divisão entre direita e esquerda mais complexa. Ainda assim, em muitos países como o Brasil, a polarização entre os dois campos se aprofunda.


