
Duas semanas após o diretório do PP aprovar a saída do governo Eduardo Leite, nenhum indicado pelo partido deixou o posto na administração estadual. Secretário de Desenvolvimento Rural e o único a colocar o cargo à disposição, Vilson Covatti segue no comando da pasta.
A decisão de deixar a base de sustentação do Piratini é um novo motivo de atrito entre o grupo do presidente Covatti Filho, o Covattinho, e o do deputado estadual Ernani Polo. Enquanto Polo tenta ser o candidato do PP ao governo do Estado, Covattinho prega aliança com Luciano Zucco (PL).
Pai do presidente do PP, Vilson Covatti esteve pessoalmente com Leite em 22 de janeiro, dois dias após o diretório decidir aprovar a entrega dos cargos e o indicativo de apoio a Zucco. Na ocasião, o secretário comunicou ao governador que cumpriria a definição do partido. Ainda assim, Covatti esperou uma semana para formalizar o pedido de demissão.
Somente na última quinta-feira (29) ele colocou o cargo à disposição, em ofício endereçado ao governador. No mesmo dia, cumpriu agendas da pasta em Erechim e Ronda Alta, no norte do Estado. Repetiu o expediente no dia seguinte em Frederico Westphalen e Tenente Portela, sua base eleitoral.
Pouco após receber a carta, Leite fez uma publicação nas redes sociais informando ter aceito a demissão do subordinado e que anunciaria o novo titular da pasta "nos próximos dias". Desde então, Covatti e todos os cargos em comissão que ele mantém no governo têm trabalhado normalmente.
Procurado, Vilson Covatti não respondeu aos contatos da reportagem. Nos bastidores, seus assessores dizem que ele está trabalhando na transição das equipes, embora ainda não haja definição do seu substituto.

Embora esteja disposto a manter o PP na base e ainda tente obter o apoio do partido à candidatura de Gabriel Souza (MDB), Leite não vai deixar a pasta com o grupo de Covatti. O governador trabalha para anunciar o novo secretário ainda nesta terça-feira (3).
Em conversas reservadas, o governador teria comentado que, até hoje, Covattinho não o procurou para falar sobre a decisão de sair do governo e apoiar uma candidatura de oposição. Em contrapartida, o presidente do PP tem mantido sucessivos encontros com Zucco, no que tem chamado de "reuniões de alinhamento" — a mais recente, na tarde desta segunda-feira (2).
— Já estamos fazendo um levantamento dos cargos que temos no governo e vou pedir uma audiência com o governador para comunicar a decisão do partido. O Covattão entregou a demissão e está esperando sair no Diário Oficial. Não só ele, outras pessoas também já encaminharam pedido de exoneração. O governo é que tem de publicar no Diário Oficial — diz Covattinho.

Polo mantém agenda de pré-candidato
Antagonista de Covattinho no partido, Polo tem procurado mobilizar a militância em torno da própria candidatura. Ele pretende dar uma demonstração de força na sexta-feira (6), em evento do partido que será realizado em Pelotas.
O deputado tem repetido que o diretório não tem legitimidade para definir o rumo do partido nas eleições — prerrogativa exclusiva da convenção — e aponta suposta contradição entre o discurso e a prática de Covatti. Como exemplo, Polo cita a própria iniciativa de deixar o governo.
— Quando pedi exoneração, fui lá e saí. Falei com o governador e saí — compara Polo, que deixou a Secretaria de Desenvolvimento Econômico em 12 de janeiro para se dedicar à campanha interna pela candidatura.
A despeito da exoneração, Polo deixou dois aliados no comando da pasta, o atual secretário, Leandro Evaldt, e o secretário-adjunto, Mário Augusto Gonçalves. O mesmo grupo detém ainda a chefia do Gabinete dos Prefeitos, com Salmo Oliveira, e o segundo cargo na hierarquia da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia, com Issur Koch. Mario Augusto, Salmo e Issur só pretendem deixar o governo em abril, para concorrerem a deputado estadual.

Reflexos na Assembleia
Na Assembleia Legislativa, a bancada do PP, com oito deputados, está dividida. Quatro parlamentares apoiam a candidatura própria (Ernani Polo, Marcus Vinícius, Frederico Antunes e Adolfo Brito), enquanto outros quatro defendem a aliança com Zucco (Rodrigo Lorenzoni, Silvana Covatti, Guilherme Pasin e Joel Wilhelm).
Parte da bancada entende que uma decisão sobre sair ou permanecer no governo só pode ser tomada pelo colegiado, já que foi o grupo que decidiu integrar a base de apoio de Leite após a derrota na eleição de 2022. À época, o partido tinha o senador Luis Carlos Heinze como candidato, mas uma parte apoiou Leite e outra corrente aderiu à candidatura de Onyx Lorenzoni, então no PL. Hoje, Onyx está no PP.
— Não vejo problema algum em a gente sair do governo, se for o caso. Contudo, entendo que essa definição deve ser tratada pelos deputados estaduais. O convite de ingresso para colaborar, feito pelo governador, foi aos parlamentares — afirma o líder do PP na Assembleia, Marcus Vinícius.



