
De volta ao trabalho após duas semanas de férias em Portugal, o vice-governador Gabriel Souza (MDB) retoma as articulações visando fortalecer seu palanque ao governo do Estado. Embora ainda faltem seis meses para as convenções partidárias, Gabriel intensifica as movimentações.
Dos 10 partidos que formam a base de sustentação do governo Eduardo Leite, apenas dois têm compromisso com a candidatura de situação, MDB e PSD — justamente os partidos de Gabriel e Leite. Os demais aliados também postulam o Piratini ou negociam com outras legendas (veja no quadro abaixo).
Segundo aliados, Gabriel pretende dedicar os primeiros dias às agendas internas. À frente de pelo menos nove programas especiais do governo, ele está se atualizando sobre cronogramas, demandas represadas e preparando anúncios oficiais. O foco eleitoral ganha corpo a partir do final de semana, quando retoma os eventos de pré-campanha e as conversas com aliados.
O principal problema do vice-governador é o PP. Com oito deputados estaduais, três federais e 164 prefeitos, o partido era o aliado preferencial do MDB em função da capilaridade no Interior e do tempo de propaganda de rádio e TV que agregaria à coligação, estimado em pouco mais de dois minutos.
Em decisão do diretório tomada semana passada, o PP definiu indicativo de apoio à candidatura de Luciano Zucco (PL). Embora a reunião tenha sido boicotada pela ala que apoia a candidatura própria de Ernani Polo (PP), as direções dos dois partidos aceleraram o processo de aproximação tão logo o resultado foi divulgado. Polo não desistiu da candidatura e articula a realização de uma prévia para definir o caminho a ser traçado pela legenda.
O União Brasil, que declarou apoio a Gabriel no final de 2025, aguarda a definição de sua federação com o PP — o que obrigaria as siglas a atuarem em uma mesma coligação.
Risco de debandada
O distanciamento do PP preocupa dirigentes do MDB pela possibilidade de gerar uma debandada nos demais aliados. PSDB, Republicanos e Podemos, partidos que transitam pela centro-direita, também flertam com outras candidaturas.
Os tucanos, após a saída de Leite para o PSD e prestes a perder quatro dos cinco deputados estaduais para a mesma legenda, têm como pré-candidato o prefeito de Guaíba, Marcelo Maranata.
O Podemos costura a filiação do deputado estadual Gustavo Victorino (Republicanos), cuja candidatura a deputado federal visa herdar os votos de Zucco, com quem concorreu em dobradinha na eleição de 2022.
— Quem pretende concorrer tem que ter a habilidade de chamar os partidos e articular essa aliança. O Podemos já conversou com o Zucco, o Gabriel e a Juliana (Brizola, do PDT). Está ouvindo todo mundo — comenta o representante do partido no primeiro escalão do governo, o secretário estadual do Turismo, Ronaldo Santini.
No Republicanos, a situação é semelhante. A direção estadual tem conversado com os pré-candidatos, mas admite que há maioria alinhada ao PL. Presidente do partido e secretário estadual de Habitação, Carlos Gomes está deixando o cargo para se dedicar às eleições.
— Temos dois campos com os quais dialogamos, representados por Zucco e Gabriel. Há um núcleo forte pró-Zucco e devemos tomar uma decisão entre o final de fevereiro e o início de março — aponta Gomes.
A situação do PRD é incerta, com a possível saída do único deputado da legenda, Elizandro Sabino.

Situação na centro-esquerda
Outros dois aliados do Piratini esboçam tendência ao afastamento. No PSB, a cúpula nacional pretende encaminhar o partido para uma aliança encabeçada pelo PT.
No PDT, a candidatura de Juliana Brizola ambiciona, ao mesmo tempo, caminhos distintos. Enquanto trabalham para angariar o apoio do PT, articulado diretamente junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os trabalhistas também sonham em se tornar o palanque de situação, no lugar de Gabriel.
— O PDT faz parte da base e há possibilidade de a Juliana ser a candidata do governo. Por que não? Há muitas indefinições, e lá adiante pode se chegar à conclusão de que a Juliana é a melhor para ganhar a eleição — afirma o coordenador da campanha pedetista, Vieira da Cunha.
A leitura do MDB
No MDB, o cenário de divisão do consórcio governista inquieta dirigentes e estrategistas eleitorais. Persiste a dúvida em relação ao futuro de Leite, que reluta em renunciar ao mandato para concorrer a senador.
Internamente, o partido entende que Gabriel precisaria assumir o governo para ter visibilidade e deslanchar nas pesquisas. Outro complicador é a necessidade de um tempo de TV robusto para atuar em dois flancos: defender das críticas um modelo de gestão que conduz o Estado com o mesmo grupo político há 12 anos, desde a posse de José Ivo Sartori (MDB), e ainda apresentar uma proposta de futuro com sabor de novidade.
Nos bastidores, corre ainda um receio de que Ernani Polo, isolado no PP, migre para o PSD e aspire à cabeça de chapa. Em fala à Zero Hora, há duas semanas, Polo descartou deixar o PP.

Embora Gabriel detenha controle sobre o diretório e a executiva, parlamentares e dirigentes demonstram, internamente, ressalvas à forma de condução da pré-campanha. Por enquanto, todo o planejamento tem sido feito pelas equipes que conduziram as duas campanhas vitoriosas de Leite, em 2018 e 2022.
O crescimento das desconfianças sobre a competitividade de Gabriel e o papel de Leite no processo sucessório começam a disseminar no MDB um movimento de apoio à pré-candidatura do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. O entendimento de um grupo emedebista refratário a Leite é de que Gabriel precisa demonstrar força política e índices melhores nas pesquisas até março.
Caso isso não aconteça, deve ganhar força um movimento de pressão à candidatura de Melo, que esteve ao lado de Gabriel no congresso do MDB, em novembro. Na visão desse grupo, o prefeito seria o único nome capaz de agregar no mesmo palanque partidos de centro-esquerda, centro, centro-direita e direita, reproduzindo a coligação que o reelegeu ao Paço Municipal em 2024. Na projeção mais otimista desse cenário, Zucco abdicaria da campanha a governador e concorreria ao Senado, numa chapa apoiada por Melo.
Por ora, tal possibilidade é negada pelo presidente do MDB, Vilmar Zanchin.
— Continuamos mobilizados em torno do Gabriel. Ele é o mais preparado e o partido está coeso. Troca de candidatura está descartada. Por enquanto, está proibido falar nesse assunto no partido — diz Zanchin.




