
A investigação do Banco Master mobiliza a cúpula financeira e as principais autoridades da República à medida que, a cada nova descoberta, cresce a teia de suspeitas em torno não só do suposto autor da fraude bilionária, o banqueiro Daniel Vorcaro, como também do condutor do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Dias Toffoli.
À frente do caso desde o início de dezembro, quando foi sorteado relator, Dias Toffoli tem dois irmãos que foram sócios de um resort no Paraná comprado por um fundo de investimentos ligado ao Master. Nos últimos dias, a revelação de que o ministro é presença constante no resort, onde oferece festas a celebridades e banqueiros, fez crescer a pressão para que ele seja declarado suspeito para comandar a investigação.
Na última quinta-feira (22), o procurador-geral da República, Paulo Gonet, arquivou um pedido de afastamento de Toffoli do processo. Foi a terceira vez que Gonet nega representações nesse sentido. Nas decisões, ele alega que já há um pedido semelhante em análise na Corte, ainda sem encaminhamento.
No mesmo dia, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, divulgou nota em defesa de Toffoli. No comunicado, Fachin diz que o tribunal não se deixa influenciar por “pressão política, corporativa ou midiática” e que “a crítica é legítima e necessária, mas a defesa do colegiado se impõe para "evitar que a força bruta substitua o direito".
Com decisões criticadas pela Polícia Federal e sob incômodo dos próprios colegas da Corte, Toffoli tem dito que não pretende abandonar o caso. Nos bastidores, porém, ventila-se a possibilidade de o processo ser enviado para primeira instância, retirando os holofotes do tribunal.
Em meio às turbulências, correntistas do Master já haviam sido reembolsados em R$ 26 bilhões até a tarde de sexta-feira. O montante equivale a 66% dos R$ 40 bilhões que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) irá destinar às restituições.
Cada cliente tem direito a receber até R$ 250 mil. No total, 521 mil credores já haviam sido pagos, 67,29% da carteira de clientes com direito a ressarcimento. O resgate do Master é o maior da história, superando os R$ 20 bilhões reembolsados aos clientes do Bamerindus, em 1997.
Entenda como o caso evoluiu de uma fraude bancária para um escândalo com ramais nos mais elevados círculos do poder.
O surgimento
Sem tradição no mercado financeiro, o Master atraiu clientela oferecendo rendimentos muito superiores à concorrência. Em cinco anos, o banco saltou de R$ 2,5 bilhões para R$ 50 bilhões em captação de CDB’s. A bonança intrigou o circuito bancário, que via o dono do Master, Daniel Vorcaro, ostentando uma vida nababesca e se aproximando de altas autoridades da República.
As suspeitas
O volume das operações e a ausência de cobertura patrimonial despertaram a atenção do Banco Central em 2024. No ano seguinte, o Banco Regional de Brasília (BRB), instituição estatal, anuncia intenção de comprar 58% o Master, aumentando as desconfianças.
A operação policial
Em novembro, dois meses após o Banco Central vetar a venda do Master ao BRB, a Polícia Federal deflagra a operação Compliance Zero. Daniel Vorcaro é preso e o Master, liquidado pelo Banco Central. A fraude é estimada em R$ 12,2 bilhões.
O prejuízo
Diante da falta de liquidez, resta uma conta de R$ 40 bilhões em aplicações de 800 mil investidores no Master. Órgão de proteção do mercado financeiro, o Fundo Garantidor de Crédito devolve um limite de até R$ 250 mil por CPF.
O STF
Vorcaro é solto após duas semanas na prisão e o caso sobe para o Supremo Tribunal Federal, por suposto envolvimento de autoridade com foro privilegiado. Dois dias antes de ser sorteado relator, Dias Toffoli viaja em jato particular com um dos advogados do banco.
As primeiras decisões
No comando do processo, Toffoli decreta sigilo máximo na investigação, suspende perícias e interrogatórios. Na véspera de Natal, o ministro determina acareação entre Vorcaro e um diretor do Banco Central (BC). A medida espanta o BC e a PF, já que ninguém ainda havia prestado depoimento - portanto, não havia versões conflitantes. Sob pressão, Toffoli cancela a acareação.
O TCU
A pedido do Ministério Público (MPF), o Tribunal de Contas da União (TCU) entra no caso. Ex-deputado ligado ao centrão, o ministro Jhonathan de Jesus suspeita de que o Banco Central tenha acelerado a liquidação do Master e pede uma inspeção no processo, cogitando reverter a decisão.
A atuação de Moraes
A imprensa descobre que a esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviani, tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master. Moraes teria discutido a venda do Master ao BRB com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. Ambos confirmam o encontro, mas negam ter conversado sobre o tema.
O ataque dos influenciadores
Em meio à investida do TCU contra o Banco Central, celebridades da internet começam a atacar a liquidação do Master. Pagos por agências de comunicação, os influenciadores lançam suspeitas sobre a atuação da autoridade financeira.
Um novo escândalo
Com o Banco Central sob inspeção do TCU, a Polícia Federal deflagra nova operação, agora mirando a gestora de investimentos Reag. Ligada ao Master e também liquidada pelo BC, a gestora mantinha seis fundos suspeitos, no valor de R$ 102 bilhões. Toffoli nomeia pessoalmente os peritos que irão analisar os documentos apreendidos.
O resort
Preso pela PF, um cunhado de Vorcaro comprou de irmãos de Toffoli participação em um resort no Paraná. O negócio foi intermediado por fundos de investimentos geridos pela Reag. Reportagens mostraram que os irmãos do ministro, um engenheiro e um padre, tinham patrimônio de R$ 380 mil quando compraram cotas no valor de R$ 4,55 milhões do resort.
A presença de Toffoli
Novas reportagens mostraram que o STF gastou mais de R$ 500 mil com diárias de seguranças de Toffoli na região do resort. Funcionários do estabelecimento atestam a presença constante do ministro e dizem suspeitar de que ele seja o dono do local. Imagens mostram Toffoli, com um drink na mão, recebendo o banqueiro André Esteves no resort.
Os irmãos do ministro
Procurada pela imprensa, uma cunhada de Toffoli diz que o marido, irmão do ministro, nunca foi dono do resort. “Moço, dá uma olhada na minha casa. Eu não tenho nem dinheiro para arrumar as coisas da minha casa”, disse a mulher à reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. Todavia, os irmãos de Toffoli também foram sócios de um segundo resort na região, com 18% do negócio.
A liquidação do Will
Em 21 de janeiro, o Banco Central liquida a sexta instituição financeira ligada ao Master. Tido como o banco popular do grupo, a Will Financeira tem as operações encerradas “em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master.
A resistência de Toffoli
O plenário do STF se divide entre colegas que criticam a atuação de Toffoli e outros que veem em uma eventual saída do caso a abertura de flanco para ataques ao tribunal e até impeachment de ministros. A interlocutores, Toffoli diz que não pretende abandonar a investigação.
A ação de Fachin
Com o STF sob pressão, o presidente da Corte, Edson Fachin, interrompe o recesso e volta a Brasília. Disposto a conter o desgaste, o ministro tenta estabelecer um código de conduta aos ministros mas é convencido a divulgar nota em defesa do tribunal. No comunicado, ele chancela a atuação do STF, mas não cita Toffoli.
Os próximos passos
Nos próximos dias, diretores do BRB e ex-sócios de Vorcaro prestarão depoimento. A PF irá produzir um relatório sobre a eventual participação no caso do deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), cuja prerrogativa de foro levou o processo ao Supremo. Caso a suspeita de envolvimento do parlamentar seja descartada, Toffoli poderá devolver o processo à primeira instância. A medida é vista no STF como essencial para resguardar a imagem do tribunal.





